“Notas” – 12/01/2022

Sobre obituários

A Morte bateu à porta de tanta gente ilustre em 2021 e já neste Janeiro levou ao Grande Encontro dos Grandes Sidney Poitier (quantas vezes assisti “Ao Mestre Com Carinho” na “Sessão da Tarde”? Quantos outros clássicos como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar” nos “Corujão” da madrugada quase manhã?) que não tenho como me lembrar do peso que coube aos redatores de obituários neste intervalo.

Redatores de obituários mereceram atenção de Gay Talese, não? Texto célebre entre os perfis que o mestre do  New Journalism trabalhou sobre os tipos famosos e anônimos (ou quase) de Nova Iorque, a descrição da rotina do obituarista do “New York Times”.  Alguns obituários eram escritos com antecedência. Imagino que mesmo jovens célebres já eram temas de obituários (vai que Fulano morra no alto da fama aos vinte e poucos anos? Como confiar no dia seguinte?) e toda atenção aos dados do personagem e de seus circundantes era pouco. Lembro de palestra que assisti do Affonso Romano de Sant Anna na qual ele contava ter visto Carlos Drummond de Andrade na rua, pouco depois de ter perdido sua filha. O abatimento do poeta lhe parecera premonitório; o escritor estava compondo seu obituário para o “Jornal do Brasil”, o qual seria publicado dali a poucos dias.

“Vocês não sabiam que toda pessoa famosa tem seu obituário já pronto para publicação? A pessoa ficou conhecida e já se pensa nisso.” Cito Sant ‘Anna de memória, mas era este o tom de seu esclarecimento aos estudantes. A Morte é tema que o Jornalismo não pode ignorar, fazer de conta que não existe como fato.

Perdi a conta das admirações que 2021 me levou. Não escrevi a respeito de nenhuma. Não quis improvisar obituário, textos compostos neste ritmo de “Não Posso Perder o Assunto” não são para quem não se preparou. Os textos que fiz em anos anteriores sobre admirações mortas me saíram sem esforço maior, pois eram autores nos quais pensava e sempre rascunhava algum texto: Günter Grass, Carlos Heitor Cony, Tom Wolfe, Ferreira Gullar, dos que me lembro. Sobre o Helio Fernandes escrevi ainda vivo; morto, pouco poderia acrescentar ao que já escrevera antes.

Mas nunca pensei em escrever sobre Charlie Watts. Não concebia um Stone morto. Depois da morte de Brian Jones, os Rolling Stones pareceram a muitos de seus admiradores se banhar na fonte da imortalidade. Charlie Watts desmentiu esta fantasia.

Agnaldo Timóteo, mesmo depois de meses em coma, parecia, senão imortal, ainda com força para atingir o centenário. Personalidade vital, combativa, desafiadora, quem o imaginava morto? Pelo que li dos famosos que o homenagearam em seus perfis no Instagram, o susto não foi pequeno. Alguns destes perfis eram seguidos por Timóteo, e não o seguiam de volta. Não duvido da reciprocidade da admiração, ou a autenticidade do golpe que sentiram. Imagino, sim, que estes artistas calculavam ainda ter tempo para segui-lo de volta. “Sempre encontro com ele nos estúdios de TV ou nos aeroportos…um dia vejo isso”.

Tarcísio Meira, quantos imaginavam sua partida tão para já? Apesar do Hermógenes do “Grande Sertão : Veredas” entre outros desempenhos notaveis, muitos resistiam em reverenciá-lo. Afinal…“ainda um senhor bonito, vai enterrar a todos nós, ha ha!”

Paulo José?  “Ainda vamos ver muita coisa do Mestre, espere só”.

E Camila Amado? Eva Wilma? “Estas senhoras são mortais? Muito trabalho ainda à frente”

Sérgio Mamberti? “ “Engraçadinha” e “Agosto” foram aperitivos, quanta séries e filmes, e novelas ainda teremos que assistir antes de pensar em qualquer obituário…”

Genival Lacerda …você tem certeza? Não era dos últimos grandes da música popular do Nordeste? Também não se imaginava este desfalque antes dele completar 110 anos, “e seria moço…”

Nelson Sargento, o que escrever sobre um dos gigantes da Mangueira, caminhando decidido aos cem anos, a Tradição Verde e Rosa encarnada? Melhor nem imaginar qualquer linha a respeito, deixa a Morte esquecer dele…

Não escrevi textos que seriam ligeiros a cada uma destas mortes. Que eu escreva sem este sentimento de pressa, de pauta a vencer. Como eles merecem. Certeza que farei melhor que faria agora, na corrida…contra quem? Contra o quê?

A rudeza com que a Morte lembrou a tantos que nem só velhos morrem: Mc Kevin e Marília Mendonça tiveram suas trajetórias interrompidas na casa dos vinte anos em mortes inesperadas; queda de sacada de hotel e choque de aeronave com cabo de energia.

Que possível autor de seus obituários imaginariam escrever à altura de suas vidas e carreiras? Não que mortes repentinas, acidentais, de famosos sejam algo inédito. Mas ainda assim…não era preciso apreciar o trabalho de um e de outra para receber a notícia como uma rasteira seguida por um coice.

E não esqueci do Paulo Gustavo, merecedor, pelas gargalhadas que provocou, de mais umas tantas décadas. Mas seu obituário teve tempo de ser elaborado na convalescença, embora duvide que mesmo o obituarista mais técnico não tenha torcido por sua recuperação.

O que notei em alguns obituários dos personagens deste texto é que pareciam ter sido elaborado de última hora, mesmo sobre os veteranos.  Quem acompanha desde adolescente e jovem dos anos 70 até aqui estas figuras ilustres, acostumou-se à velhice de muitos, fomos (falo de minha geração, a pouco anterior à minha também  e a de agora) um tanto mal acostumados. Nossa visão de plateia foi muito privilegiada, contemporâneos de gente que não me parece de fácil substituição. O desfalque sempre é maior que a capacidade de recuperação, mas 2021 caprichou na retirada…2022 também não está começando como piquenique no parque: Peter Bogdanovich (espero que tenha reencontrado sua esposa, roubada tão jovem de si e que esteja se divertindo na continuação da longa conversa com Orson Welles) e o citado Sidney Poitier.

É duro pensar que tenhamos de ir compondo o obituário de muitos que, não nos enganemos,  não demorarão a enriquecer o elenco celeste. Ouvi-los, vê-los, lê-los o mais que pudermos, pois.

Esta a lição severa e fria de 2021.

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“Notas” – 31/12/2021

Sobre previsões que  gostaria de ter errado

 

“Pawwlow, encerrou o blog? Não? Este ano você não publicou nada não, né?”

“Nada, nada não…dois textos apenas, mas nada…lembra de jornais de antanho? Muitos tinham slogans: Gazeta X, “Um Jornal Sempre na Prontidão”, O Berrante da Tribo Y, “Um Veículo de Combatentes”.  Meu blog também deveria ter o seu: Fernando Pawwlow – Cadernos, “Um Blog Sem Leitores Mas Com Pauteiros Solícitos”. O que recebo de sugestões e cobranças me faz imaginar que não seguem e não compartilham os textos por timidez… não vivo do blog.”

“Imagino sempre seu juízo sobre o Governo, Jair Bolsonaro parece que não vai…”

“Se reeleger? Bom, fará muita diferença? Alvo de ataques de todo colunista que queira fazer boa figura, jurado de morte pela casta acadêmica (que nunca perdoou sua escolha pelas massas) e insultado dia depois de dia mesmo por artistas que a maioria julgava indiferentes à política,  me admiro dele ainda desejar permanecer no cargo. Deve ser masoquismo ou sentimento de missão muito inflamado.”

“Mas o Governo..”

“Para quem nunca esperou nada de grandioso e que escreveu votar apenas para não votar nas candidaturas patrocinadas pela casta acadêmica, acho mais que razoável. Divulga mal as obras e ações eficazes e é de lentidão de cágado reumático nas respostas (quando responde, quando julga necessário mostrar que está vivo) aos agressores, e isto, esta semi inatividade política, mata qualquer governo, por mais operoso e diligente que este possa ser. Veja meus textos de pouco antes da eleição e pouco depois da posse. Como eu gostaria, amigo, de ter falhado uma a uma das previsões. Muito do que ameaça o Governo e seus apoiadores (ainda que de ocasião, ainda que quase compulsórios) vem do que apontei nos textos que você e outros leitores com os quais converso apontaram como “pessimistas” e “negativos”. ‘Você quer ficar em cima do muro com pose’ ”

“Você ali, e te avisei como amigo, Pawwlow, parecia se colocar na poltrona mais confortável. Desse certo o Governo Bolsonaro, você se revelaria algo surpreendido. Desse errado, postaria os links dos textos no blog…assim fica fácil analisar Política…”

“Não se trata de bancar adivinho da aldeia, eu fui honesto com leitores e amigos: a edificação carecia de base confiável e poderia ser derrubada por campanha decidida de setores organizados e experimentados na luta política. O imponderável surgiu com o COVID e Bolsonaro teve seu Governo quase que confiscado pelo STF; eu teria renunciado e voltado anos depois fortalecido pelo choque e pelo exemplo de desprendimento. Mas não o fez, e sobrou-lhe o prazo de dois anos para tentar reerguer o País e reconquistar a simpatia das massas, desviada pelos que tiveram o talento de atribuir ao Bolsonaro todas as perdas de vida e de economia. Como confiou-se na sabedoria popular mais que  um combatente  político recomendaria, Bolsonaro de fato corre risco de assistir seus pesadelos se apresentarem sólidos e com nitidez de fotógrafo cinematográfico; derrota no Primeiro Turno seria fatal para  sua biografia, e desmoralizaria , de maneira quase definitiva, qualquer oposição ao sistema político do PT e associados, e ao Pós-PT.”

“ Lembro de você insistir neste Pós-PT, o tal sucessor do PT..”

“Não será sucessor do PT como se PT fosse ser extinto ou ‘descontinuado’. Trata-se de convivência entre PT, PSDB, PSOL e PC do B como uma frente única, ou abrangente a ponto de fazer oposição a ela parecer extremismo de nostálgicos. E não está aí? Não se apresenta como quase inevitável a chapa PT-PSDB para ‘salvar o Brasil deste desgoverno genocida’? Colunistas e seus patrões e casta acadêmica enfim experimentando a paixão correspondida. Nunca vi tanto esquerdista berrando declarações de amor à Globo e aos generais que ‘sabem dizer não a Bolsonaro’. Aposentou-se uso de máscaras de isenção e equilíbrio mesmo nos colunistas que foram sempre tomados como modelares por mais que se discordasse deles. Por sinal muito rigor na preparação de texto tem o mesmo destino: pijama. Como alguns vêm escrevendo como redatores de fanzine ginasial…não, não darei nomes. Para quem é segredo  a decadência de antigos mestres? ‘Bolsonaro entrega genocídio e discurso de ódio’, ‘Bolsonaro ainda responderá por tantas mortes e tanta divulgação de ódio à ciência…ah …você conhece o repertorio…”

“ Por que, tendo inimigos tão ridículos e incompetentes, Bolsonaro vem sendo visto pelas massas como monstro a ser afastado por combinações políticas inesperadas? Não era para ele triunfar sobre escribas que parecem acreditar que escrevem para tolos?”

“Amigo e leitor, você parece não ter examinado o conjunto de blogueiros e simpatizantes autores de perfis de redes sociais de apoio a Bolsonaro…escrevem ainda pior que seus opositores. Muito esquerdista marca presença nos comentários para se divertir com amostras de analfabetismo e primarismo. Os mais eruditos citam (de modo que deixa claro que nunca leram) ‘marxismo cultural’, ‘Escola de Frankfurt’, ‘estratégia das tesouras’, ‘Antonio Gramsci’ e, claro, o ’Decálogo de Lenin’; ’acuse-os do que você faz, xingue -os do que você é’ o refrão mais encontradiço. Fórmula infalível, penso que você concordará, para o fracasso e o ridículo. Que esperar, se formos justos, de quem não o desaconselhou com energia a aventura presidencial, quem não o tocou para a corrida parlamentar nacional, esta que poderia ser ameaça ao que se dizia digno de combate? O resto é consequência natural, apenas.”

“ Então..”

“Então nada..não sou profeta, e não quero ser. Não quero mais acertar qualquer palpite. Vaidades desta natureza não me (não nos) salvarão se o pior se realizar. Os palhaços não se darão conta da mudança brusca de temperatura e nem mesmo sob tempestade se compenetrarão do que se perdeu e se perderá ainda. O desperdício em História é cobrado de modo severo demais. E nem penso na eleição meses à frente, olha ao redor, estas carrancas  correndo das nuvens pretas cadentes não serão suscetíveis ao esforço (preciso dizer que muito, muito tardio?) de apresentar culpas e méritos de forma mais elementar possível. Os ânimos estão trabalhados e prontos para o avanço contra quem ‘negou a ciência e apoiou o genocida’, conforme lhes ensinam. Quero errar, não quero adivinhar futuro não. Que o Deus que invocaram no exercício da presunção e do amadorismo resolva negar os observadores que pressentem o fracasso certo”.

E me percebi falando sozinho, meu interlocutor correndo atrás de seu ônibus na Praça Sete de fim de tarde de mormaço e pressa de Dezembro que se retira furioso.

XXXX

Que leitores e amigos do blog tenham 2022 produtivo. Abraço do Pawwlow!

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“Notas” – 10/03/2021

Sobre  a volta de Lula ao palco

Leitores deste blog sabem o que sempre pensei e penso da opção de combater o sistema de Poder do PT e associados ( Poder da casta acadêmica) pela via judicial. O que sempre escrevi das capas “bombásticas” da “Veja” no período petista, por exemplo. O meu juízo sobre articulistas deste meio que anunciavam o fim da facção política inimiga por obra de “denúncias que farão com que petistas saibam que Sábado é o mais sombrio dos dias” (lembram?). Os títulos pomposos, os textos simplistas e entupidos de adjetivos…

“O presidiário Lula”, “o ex-presidiário Lula”; expressões que bastavam a muitos como talismãs políticos. Os memes, as gargalhadas, a valentia fácil nas caixas de comentários…

Tratei disto tudo em meu blog, fui mesmo repetitivo.

A verdade é que colocá-lo na cadeia pareceu a muitos mais fácil que tentar o trabalho de desmontar seu governo diante da população; o trabalho de formiga que economistas da Oposição fizeram durante o Regime Militar parece (não, não apenas pareceu, muitos não se convenceram, mesmo agora) a estes anunciadores do Fim instantâneo do Petismo uma perda de tempo, um desperdício de energia.

E o resultado está aí: Lula de volta ao campo das hipóteses, ao palco de onde não saiu nem mesmo preso. Sim, a volta do que não partiu, a realidade confirmando a piada. Contando com  a plateia dos populares que acreditam (e por que não acreditariam, se não se empreendeu o esforço de esclarecimento?) que seu governo foi o melhor desde a Primeira Missa.  Em grande estilo, conclamando populares a desafiar o Governo atual e reafirmando sua condição de vítima de erro judiciário.

Ataca-se, nas discussões de internet, Edson Fachin por este ter se utilizado de uma questão técnica (a competência da Vara de Curitiba) para decidir  pela anulação. Que se pensasse na possibilidade de pormenores técnicos colocarem tudo a perder. Confiou-se na popularidade, na “Onda Conservadora”, nas figuras mais gastas da retórica de orador de diretório de agremiação direitista. Nem as acusações de parcialidade mais bem formuladas por observadores  tanto do PT como independentes fizeram estes ditos coveiros do petismo se perguntar se tudo isto não teria algum preço. E este veio, e salgado, nos dias de declínio de popularidade  do governo de Jair Bolsonaro.

O voto de Fachin veio poucos (um? dois?) dias depois de Lula ter se mostrado disposto a ser o candidato do PT, removendo a candidatura certa  (estimulada pelo próprio Lula) de Fernando Haddad.  Há quem veja nesta coincidência algo mais que coincidência. Eu vejo sincronicidade; Lula não abriria mão da pré candidatura até que esta se mostrasse inviável; por que se acomodaria como uma relíquia do PT quando a possibilidade de reeleição de Bolsonaro não é desprezível? Relíquia das Esquerdas, melhor dizendo; Lula não parece desejoso de inaugurar o Pós PT com sua aposentadoria – não será o Miguel Arraes e Leonel Brizola de si mesmo. Como disse Fidel Castro sobre Fidel Castro: “Este morto pode ainda fazer planos … este morto não morreu.”

Os amigos leitores acreditam mesmo que este retorno do Lula sob holofotes, com  orquestra e coral, ensinou algo aos cientistas políticos improvisados, aos vlogueiros, aos astros de internet e aos jornalistas-torcedores? Eu não acredito que estes sujeitos consigam assimilar lições; o público para o qual trabalham os deformou; tornaram-se (os que algum dia tiveram alguma capacidade de análise) seguros de sua infalibilidade, ainda que aumentem a coleção de previsões negadas, eleição depois de eleição.

Lula, se não estou errado, conta com a possibilidade da derrota e já tem, dobrado no bolso do colete, o discurso pronto: responsabilizará a Imprensa e a infiltração das “ideias reacionárias”na população que ele parece acreditar sua devedora. Como foi Presidente eleito e reeleito e que fez a sucessora estará longe de ficar estigmatizado como um fracassado, ainda que sofra esta derrota. Se perder, perderá, acredita, para um político carismático e que conta com eleitorado considerável. Erra, penso, quem o considera temeroso deste confronto. Teme mais, repito, a morte em vida, a acomodação à condição de retrato na parede das Esquerdas. Não se considera, com razão, um velho.

Vitorioso, apresentará suas contas aos vencidos.

Não me junto aos que o consideram despreparado para qualquer das duas hipóteses. Não vejo sabedoria nos que subestimam adversários, sobretudo adversários astutos e experimentados, como Lula.

O que não parece estar claro a muitos é que desde a primeira vitória do Lula, o problema não estava nele e no seu partido e sim nas razões que tornaram esta vitória  (e, claro, as seguintes) possível. Mais que possível;  inevitável, fatal.

“E Bolsonaro, se perder?”

Não acredito que se refaça do golpe, do baque. Bolsonaro e todos que se mostraram dispostos a negar o sistema de Poder do PT e associados terão dificuldade em conseguir outra chance.

O Poder tolera ainda menos desaforo que o dinheiro.

Sobre Helio Fernandes, morto aos cem anos

“Helio Fernandes morreu”,  o aviso seco me colocou ciente da morte do jornalista mais antigo em atividade no Brasil  (quase certo que no Mundo). Lia-o desde minha adolescência, uma admiração que transcende questões de afinidade de ponto de vista.

Escrevi alguns textos sobre ele no blog. Texto sobre sua luta pela indenização pelas perdas que seu jornal sofrera durante a Ditadura foi publicado na Tribuna da Internet e no Brasil247. Outro texto ( também publicado na Tribuna da Internet) propunha livro de entrevistas como o “Depoimento” de Carlos Lacerda, ideia que não parece ter animado qualquer jornalista. Parece que algumas entrevistas (nas quais não havia maiores questionamentos sobre voltas e reviravoltas das opiniões de HF), ainda que longas, pareciam bastar. E não bastavam;  uma figura como ele exigia um livro de entrevistas, um trabalho de fôlego maior. Mencionei esta necessidade a alguns jornalistas, e as respostas variavam do silêncio a comentários ligeiros sobre a importância de um livro assim. O fato do tempo estar se esgotando não parecia sensibilizá-los.

Houve a grata surpresa da entrevista de Helio Fernandes ao Ancelmo Gois e ao Alberto Dines para o “Observatório da Imprensa”, surpresa pelo fato de Helio e Dines terem trocado palavras ásperas, não pelo espírito de pesquisa e seriedade de Alberto Dines, um jornalista dedicado a analisar de forma historiográfica e crítica o ofício. Entrevista sobre a qual também escrevi.

Nos meus  textos sobre Helio Fernandes, expressei minha admiração e minha tristeza por não o conhecer pessoalmente;  textos que estão no arquivo do blog e que respondem aos interessados o que penso sobre o jornalista que  Brasil perdeu hoje.

E, portanto, no dia da sua morte, prefiro nada escrever. Meus deveres para comigo, no que tocam esta admiração, cumpri  sem esperar pela sua morte.

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“Notas” – 31/01/2021

Sobre a necessidade de ser Oposição

Não entendo o apetite pelo Governo, pela posição governamental. Não acredito que se faz mais no Governo do que na Oposição; a pressão por agendas públicas e formação do imaginário político popular me parecem incompatíveis com as funções administrativas. Lógica elementar que sempre que a exponho soa como excentricidade a muito interlocutor.

Talvez décadas de entrevistas com líderes políticos declarando o desejo pelo Poder “para fazer algo, para realizar o que lutei como oposicionista, como teórico” tenham nutrido na classe política (ou no que responde por classe política) a fixação pelo trono presidencial. Carlos Lacerda, por exemplo, resumia assim sua obsessão pela Presidência. Foi bom governador de um estado  que compreendia uma cidade,  mas…tantos outros políticos também fizeram e fazem ainda, declarações semelhantes.

O exemplo do PT que ditou políticas durante os oito anos de governo do PSDB depois de tantas lutas nos governos anteriores parece ser algo a se ignorar. E é o exemplo a ser estudado e digno de emulação. Lembro da primeira derrota presidencial… foi seguida pela criação do Gabinete Paralelo e por uma Escola de Sindicalistas em Belo Horizonte.

Ser Oposição, demorar-se na Oposição, este  o ideal político de quem de fato tem percepção nítida do que é o Poder, do que significa exercitá-lo.

Fundar institutos, periódicos, redes de periódicos, redes de institutos, associações de advogados amigos da sua facção política… estes seriam os passos necessários, indispensáveis, indiscutíveis e inadiáveis.

Tudo que o sistema de Poder do PT e associados fez e faz e que o Pós -PT herda, e arrisco dizer que partidos europeus de Esquerda e o Partido Democrata  fez  nos Estados Unidos por décadas até a retomada formal da situação.

Pois o que nega esta ciência política destina-se ao malogro, ao suceder de ondas de popularidade, passageiras como toda onda. O Poder não muda de mãos de fato.

Donald Trump saindo da Casa Branca logo depois de ter contas em redes sociais suspensas saiu de fato do Poder? Transmitir o cargo ameaçado de prisão por seus então oposicionistas foi, de fato, despedida do Poder?

A lentidão na resposta aos ataques que sofreu mostra que seu dinheiro e sua energia teriam sido melhor empregados em formar redes de oposicionistas. Este seria seu meio de influenciar, e mesmo transformar, a sociedade americana. Mas cismou em ser Presidente e o resto os leitores já sabem …

Décadas de militância na Oposição e Trump jamais precisaria passar pela calçada da Casa Branca, entendem?

Mesmo pode ser dito de Jair Bolsonaro;  falta de carreira como oposicionista explica suas dificuldades em ser Governo.

“Mas ele não foi Oposição ao PT, e antes disso, ao PSDB? Não chegou mesmo a declarar que Fernando Henrique Cardoso merecia o fuzilamento por sua política alinhada aos Estados Unidos?”

Bom…Oposição não é isso, é formar alianças com setores de pensamento igual ou assemelhado, é formar entidades de combate, é se fazer conhecido da maioria como encarnação de uma facção ideológica ou política… formar, ou tentar formar, um partido.

Que disso foi feito por Bolsonaro em suas mais de duas décadas no Congresso? Qual movimento fez em direção à massa indecisa, às pessoas que, não sendo de Extrema  Direita, ou mesmo de Direita, não admitem governo de Extrema Esquerda, ou mesmo de Esquerda? Qual esforço de absorção desta maioria sem dono foi empreendido (esforço no qual a Esquerda é experimentada, habituada, consciente de que é um dever primeiro), ou sequer iniciado?  Falo de esforço, não de senso de oportunidade frente a uma suposta onda direitista. Não preciso escrever a resposta.

A resposta vemos na ausência de quadros orgânicos no Ministério (a marca da improvisação; nomes insatisfeitos entre profissionais de carreira nos ministérios e autarquias ao que parece são desconhecidos do Presidente e seu círculo imediato), na lentidão nas respostas aos ataques, na falta de agilidade política frente aos fatores inesperados (como a pandemia do COVID) e na maneira desastrada de responder (e repito, respostas tardias) aos ataques à figura presidencial, às calúnias ao Governo.

Ainda convalescente do atentado sofreu acusações sobre a veracidade do mesmo, e não teve qualquer auxiliar (sobretudo os filhos, tão operosos nas redes sociais) a colher impressões destes ataques para processo. Nem mesmo entre comentaristas (jornalistas ou não) famosos (pois declaram ,com razão, não poder processar  milhões de perfis nas redes sociais ou em caixas de comentários). Mesma inoperância quando teve nome envolvido no assasinato de Marielle Franco. Quando sempre nomeado como “miliciano”, etc, etc

A disposição para agir surge em…resposta a uma sugestão irônica de Ruy Castro sobre suicídio. Sim, após cerca de dois anos de ataques que renderiam condenações seguras, processa-se uma piada. De quebra, promovendo um (sem dúvida competente, mesmo brilhante) biógrafo e cronista de amenidades culturais, como Ruy Castro, a analista político digno de respostas governamentais e processos que se entendem como destinados a assuntos sérios…

Que é  esta piada embrulhada para presente senão falta de prática como oposicionista militante e dedicado ao estudo da ciência do Poder?

Agora o episódio das latas de leite condensado… o que mereceria exigência de direito de resposta desperdiça-se em desabafo (com os palavrões que tanto escandalizam jornalistas e atrizes tão puritanos) em uma reunião com artistas amigos.

Não há dia em que não vejo minhas previsões (estão no blog) sobre o que seria este governo de improviso confirmadas; acreditou-se que seria fácil, que bastaria “expulsar os petistas que desgraçaram o Brasil”para que tudo funcionasse, como consequência.

Bolsonaro será, cada vez mais , prisioneiro de arranjos políticos aos quais deverá dar mostras frequentes de fidelidade se não desejar ter fim como o de seu amigo norte-americano. As promessas de campanha aprovadas no Congresso como garantia de cargos serão, com alguma sorte, a vantagem possível. Mas ele dependerá de um outro capital que por sua vez depende da reeleição: tempo. Já se passou cerca de metade do mandato…e a popularidade vem se desgastando. Não se transferiu ainda para o campo adversário, é verdade, mas por quanto tempo?

O domínio da casta acadêmica não encontra resistência por falta, quase absoluta, de noção da gravidade do desafio por parte de seus ditos adversários. Surra depois de surra, quanto se aproveita como lição? Quantos fatos são anotados como casos de estudo?

Onde os institutos independentes? As redes de blogueiros, de jornalistas não alinhados aos setores hegemônicos? A aceitação realista  da derrota  (Norman Mailer escreveu algo como “a depressão é o preço psíquico da negação da derrota”), para começo de conversa.

Estudos sérios, não cursos para formação de “elites intelectuais que salvarão o Ocidente “, institutos que poderão absorver pessoas da massa que deverão começar estudos pelo começo, com paciência. Trabalho para, se iniciado enquanto digito este texto, apresentar primeiros frutos talvez depois de dez anos. Como os grupos que dominam a casta acadêmica  e a política fizeram há décadas, quando eram  Oposição.

Porque  Oposição é começar pelo começo, sem pressa de colheitas precoces e mal formadas. É ter como habitat a sombra  e a espera.Mas sem perder de vista a cidade a tomar. Sem estrelismos, sem caciques, sem “fominhagens” tão típicas dos ditos inimigos do Poder de hoje. Cuidando para não ser ninho de futuros traidores, sobretudo.

Só depois  o avanço.

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“Notas”- 31/12/2020

Sobre um ano de máscaras

 

Máscaras; máscaras que se colocam sobre as faces, máscaras que revelam as faces verdadeiras que se escondiam nos dias pré-máscaras. Máscaras até nos sonhos, assim foi 2020 e acredito assim será lembrado no Futuro.

Máscaras que revelam a volúpia no exercício do Poder em bocados miúdos: seguranças de supermercado falando alto e grosso por ajustes de milímetros das máscaras, organizando filas para entradas em estabelecimentos comerciais aos berros. Seguranças de bancos respondendo às perguntas mais triviais com o ar da autoridade que concede ao homem da rua indefeso alguma satisfação por caridade apenas.

Máscaras que revelam os tiranos nos quadros técnicos estabelecendo rotinas segundo critérios ditos científicos que mudam segundo conveniências e caprichos. Decretou-se abertura de comércio pouco antes das eleições e seu fechamento quase imediato assim que as mesmas eleições passaram. Qual o critério sanitário seguiu-se aí?  Qual queda expressiva de casos do COVID houve antes do comparecimento compulsório às urnas?

Questiona-se (quando questiona-se) estas decisões com todo cuidado possível; quem deseja ser “cancelado” e, dependendo do humor das autoridades, processado?

As máscaras de governantes locais no gozo do Poder superior ao do Presidente da República, por óbvio com muito mais votos que qualquer prefeito ou governador. Estes governantes locais aplaudidos e reeleitos por cidadãos exibem a máscara do Poder que toma qualquer dúvida como abuso e questionamento por insulto.

Eleitores destas autoridades utilizam a máscara do detentor do conhecimento científico que faz, aos seus olhos, questionadores de medidas afigurarem-se como caipiras desinformados. Quanto fiscal de ajuste de máscaras e de comércios abertos esta pandemia revelou…quanto denunciador escondia-se antes de 2020….não acredito que a máscara da vizinhança amena volte a se ajustar sobre as faces com facilidade.

A máscara da hipocrisia nos shoppings que removem bancos gratuitos pretextando protocolo de segurança ao mesmo tempo que vendem, via acesso às praças de alimentação, o direito à remoção das máscaras aos que lancham e esperam por seus lanches. Aos clientes das lanchonetes e cafés o vírus não assombra, mesmo que as bocas não estejam ocupadas em comer e beber. Nunca vi, nestas situações, qualquer guardinha de shopping admoestar pessoas sem máscaras..

Gente do meio artístico também vestiu suas máscaras e mostrou o quanto há, de fato, de respeito entre colegas; insultos, desqualificações, acusações de homicídios por conta de festas por gente que não raro também promove suas festinhas.

“Mas Fulano promoveu aglomeração considerável”, com se o vírus dependesse de superlotação para realizar seu trabalho de destruição.

Artistas não temendo insultar colegas, e mesmo parcelas de seu público; qual sacrifício é demasiado em nome da benção da Imprensa regida pela casta acadêmica?

O Poder, o Poder decidido e sem desejo de dissimulação, a máscara escolhida por tantos, por quase todos que prezam a manutenção do prestígio e a garantia da sobrevivência sem sobressaltos. Há um lado a se obedecer, e este exige o tratamento de “Doutor”.

Colunistas também decidiram remover a máscara de imparcialidade e ostentar suas preferências sem qualquer preocupação com sutilezas ou respeito à inteligência de leitores; jornalistas que, nos tempos do PT suportavam insultos dos MAVs petistas com resignação de santos agora, sob Jair Bolsonaro, em tempos de pandemia, anunciam julgamentos da História não apenas para o Presidente e seus apoiadores políticos como para seus eleitores e simpatizantes, ou mesmo aos que, não gostando de Bolsonaro, não declaram saudades do PSDB e do PT. A Máscara do Pós-PT em tamanho GG, cobrindo rosto e pescoço, no feitio de capuz. Impressionam, ninguém supunha tanta coragem em gente antes ou tímida ou que se declarava desinteressada de política.

Não apenas no Brasil máscaras de valentia foram adquiridas; Donald Trump e seus apoiadores perderam o Poder por atraso nas compras destes artefatos; insultados dia depois de dia recuaram às cordas até o nocaute previsível. Os militantes negros e latinos do Trumpismo não cometeram estes erros e foram responsáveis pelos números expressivos de Trump entre suas fileiras. Mais gente houvesse como Candace Owens e talvez o desfecho tivesse sido outro; gente como ela (e Larry Elder) faz toda a diferença na guerra política. A máscara da disposição para briga parece fixada nos seus rostos como a face verdadeira adquirida por esforço e merecimento. E também a máscara da coragem para admitir erros da candidatura que apoiaram no lugar de recorrer às teorias de fraudes (teorias até válidas, mas de eficácia discutível) e demais explicações conspiracionistas.

No Brasil, adversários da casta acadêmica e do Poder do Pós-PT confirmaram em 2020 sua preferência pela máscara da leviandade, da ligeireza, da preguiça para estudos teóricos, da afoiteza e da improvisação. Parece  também  máscara já ajustada ao rosto como pele adicional; obtida pelo hábito, pela inércia.

Difícil o otimismo neste desfile de máscaras que promete ser duradouro além do suportável. O Poder soube se manter e se  fortificar, esta a verdade desalentadora.

XXX

2020 conseguiu desmoralizar as previsões mais sombrias para anos vindouros, e mesmo a esperança de 2021 menos massacrante vem sendo negada nestes últimos dias de 2020.

O que se pode dizer é que não seremos colhidos de surpresa em pleno sonho de Ano Novo mágico; 2021 nos encontrará já um tanto sovados e desiludidos.

Quanto a mim, desejo 2021 feliz  e produtivo aos amigos e leitores do blog.

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“Notas” – 06/12/2020

Sobre eleições – notas soltas

Eu deveria ter ficado feliz com as eleições, meu blog confirmado nas suas análises e ensaios de previsão política: o Pós PT estabelecido como realidade política e o PT como um sobrevivente coadjuvante, resignado a torcedor pelas Esquerdas. Que interessados procurem no arquivo do blog meus textos sobre o Pós PT e a tolice de quem ainda combatia o reflexo ótico de um astro já desaparecido (como força preponderante e decisiva, bem entendido). As capitais mais populosas do Brasil negando cronistas políticos presos a hipóteses já desgastadas. Haverá quem colha as lições? Há quem considere que há lições a se colher das urnas ainda quentes?

“Guilherme Boulos não ganhou em São Paulo, idem Manuela d’Ávila em Porto Alegre”.

Mas chegaram ao Segundo Turno ultrapassando com folga candidatos do PT. E perderam fortes,  mais que habilitados para eleições futuras. Mesmo João Campos do PSB na sua vitória sobre Marília Arraes do PT manteve a vitória no Pós PT, na Esquerda.

Considerando o PSDB na sua nova face também um dos braços do Pós PT, a vitória de Covas confirma a tese que venho defendendo.

Não, não me sinto feliz tendo acertado. Preferia, muito, ter errado.Quem achou difícil impor perdas ao PT achará quase impossível, ou mesmo impossível, causar arranhões mínimos no Pós- PT. Mesmo por não pensar a sério no assunto. Eles, os representantes e beneficiários deste novo quadro político, vieram para ficar por tempo próximo ao que se entende por “sempre”.

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E a vitória do Alexandre Kalil no Primeiro Turno em Belo Horizonte?

Bom, quem se surpreendeu? O candidato no Poder tendo contra si diversos candidatos, tanto à Esquerda quanto à Direita. E com a imprensa local cantando seus cuidados contra a pandemia….os eleitores da Direita ou apenas anti-Esquerda (não, as duas condições não são sinônimas) não fizeram o cálculo do mal mais palatável como fizeram os eleitores da Esquerda ou anti-Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro. Renunciar à candidatura de preferência, adotar outra que aparente ter chance, e com o malogro desta… até que por fim tenha que se votar na que se considere a menos péssima.

Este ânimo político é adquirido.

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Jair Bolsonaro sofreu reveses que não precisava, superiores ao seu desgaste real, o apontado por pesquisas. Teria mesmo escolhido os candidatos mais sintonizados com o discurso que o elegeu Presidente? Não me parece que houve critério. Caso não houvesse candidaturas ideais que se abstivesse de apoio, ainda que apenas nominal. As preocupações do cargo são, e sempre serão, excelente desculpa para abstenção quando não se tem representantes populares nos estados. Quem convencerá as massas que o Presidente ocupado no Governo tem obrigação de apontar nomes locais?

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Que há quem se pergunte se valeu a pena o voto em Bolsonaro, isto não se duvida. Mas ainda ele conta com os que não desejam votar em candidatos de filiação muito óbvia à Esquerda. Mas o Pós PT em versão mais rósea tem avançado. Os articulistas de internet, os vlogueiros do bolsonarismo, não parecem ocupados de nada que não seja o pacote “China-urnas eletrônicas fraudadas (ou possíveis de fraudar) – vacinas que matam – Foro de São Paulo”. Estes militantes podem ser eficazes  (por enquanto) na luta contra PT, PSOL, PC do B e satélites, mas inócuos contra partidos de Centro Esquerda e Centro Direita que compõem o Pós PT. E deste composto “palatável”,”científico” (Bruno Covas debitou sua vitória aos que “acreditam na Ciência e no Equilíbrio”, assim que houve anúncio de sua reeleição) virá o esforço concentrado que poderá conter o bolsonarismo. O que se vê no Twitter é, sobretudo, o trabalho desta militância que se apresenta como “hipster”, antenada, não medieval. Dão expediente nas redes sem descanso, e esta eleição mostrou que o resultado vem, portanto…

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“E o Donald Trump?”

Militantes da Direita bolsonarista ecoavam a Direita trumpista: “ele dará a volta por cima”; “Claro que houve fraude, vou te mandar o vídeo do pacote de cédulas no lixo”; “na Suprema Corte ele virará o jogo”; “há provas, até demais, da roubalheira”, e tantas outras mensagens do tipo. Algumas engraçadas, outras tocantes pela ingenuidade.

Bom, se houve mesmo fraude nesta escala, acreditam mesmo que haverá meios de a conter com denúncias que poderão ser desqualificadas como “não técnicas”? Há formadores de opinião confiáveis e respeitáveis nesta luta que exige muito mais de convencimento das massas que combates jurídicos? Ou profetas da Terra Plana e defensores da teoria segundo a qual Michelle Obama é, na verdade, um homem, serão os adversários da casta acadêmica nesta guerra pelas mentes?

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Tenho para mim que a não decretação de medidas de emergência (que não sei se chegariam à Lei Marcial) logo após os “protestos” ( na verdade, crimes; depredações, incêndios, agressões a eleitores de Trump) quando de sua posse desenhou seu destino. Tudo que veio depois consequência apenas.O discurso de ódio como jamais se viu contra um Presidente; a desqualificação sem descanso de sua figura e de apoiadores; as violências do “Black Live Matter” subjugando cidades inteiras; a censura de redes privadas de comunicação de massa aos seus pronunciamentos pré eleições de 2020. Tudo teve início nesta atitude de “já ganhamos; uma hora eles nos aceitarão, terão que lidar com a realidade”. Inexperiência ou soberba própria de sua natureza, não importa; a conta chega à mesa do mesmo jeito.

Bolsonaro parece ter atitude idêntica frente aos que o desqualificam, e aos seus apoiadores, ainda que apoiadores de ocasião. Não parece consciente de que decretaram guerra a ele. Entorpecido por conselheiros de preparo discutível, conta ainda com a (referida acima) recusa das massas aos seus  opositores mais ruidosos, e parece, pois, despreocupado.

Muito malogro advém de não preocupações, a História é gorda de exemplos. Lerão História, e Filosofia da HIstória, seus conselheiros, seus imediatos intelectuais?

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O que fica, no balanço final deste ano eleitoral em ano de prisão domiciliar para muitos, é que a casta acadêmica firmou seu triunfo na arena institucional. As urnas a legitimaram na Política mais visível,a que aparece aos olhos das multidões à frente dos bastidores de departamentos acadêmicos e redações de jornais e revistas, seu chão de domínio há décadas. Repito: Covas agradeceu “aos que acreditam na Ciência”.

Este será doravante o agradecimento de muitos, mundo afora. Duvidam?

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“Notas” – 18/10/2020

Sobre Eddie Van Halen

Iggy Pop, em uma entrevista à revista “Bizz”  (José Emílio Rondeau?), declarou ter se inspirado muito mais em pintores, escritores e ditadores que em músicos. Também sou assim; atletas, cineastas, políticos (ditadores ou não) e músicos me inspiram a escrever muito mais que escritores. Sobretudo músicos. O senso de disciplina e o aprimoramento constante no ofício me servem como lembretes; muitas vezes lembretes amargos

“Quanto tens praticado? A mão doendo de tanto escrever? Quantos cadernos de rascunho já consumidos até as capas? A caneta já inteiriça ao braço e mão?”

Sim, músicos me inspiram mais que colegas de ofício, mesmo porque muitas grandes estrelas do mundo da música são, na sua maioria, mais simpáticos e humildes que qualquer subliterato e sub intelectual de café.

A morte recente de Eddie Van Halen me enviou ao início dos anos ‘80,  começo também de minha adolescência e enraizamento de muitas das minhas obsessões. Meu irmão ano e meses mais velho já tocava sua guitarra e comprou número dedicado ao Eddie Van Halen de série de revistas dedicada a guitarristas. O clip de “Jump” nos programas de TV pré MTV Brasil exibiam o músico jovem e sorridente extraindo seus sons como que brincando apenas. A tal revista mostrou, em seus depoimentos, o que havia por trás de uma aparente facilidade humilhante: esforço, domínio da técnica obtido por  estudo obsessivo da técnica de outros guitarristas, horas de prática e absoluta paixão pelo ofício.

Líamos e relíamos  (eu, meu  irmão e colegas de bairro e fixação por rock) a tal revista até que ela se tornasse inaproveitável pelo manuseio. E nosso círculo soube assim que instrumentos e mesmo equipamentos (como pequeno amplificador) eram transportados pelo guitarrista mesmo ao banheiro. Que eram referidos como “minha criança preciosa”. E talvez tivéssemos, alguns de nós, a primeira lição sobre ser relevante admitindo dívida aos mestres do ofício, pois eram muitas as referências à sua adoração por Eric Clapton.

E era o sujeito do solo de “Eruption”, da participação em “Beat It” do Michael Jackson, das faixas divertidas dos discos do seu grupo, Van Halen. Tudo executado como quem brinca, tudo sem afastar a expressão de menino travesso (expressão que o acompanhou até os dias de barba e cabelos grisalhos).

Minha geração pode ter o orgulho de ter sido contemporânea deste artista gigantesco. As homenagens recebidas pelos artistas seus contemporâneos nas redes sociais não permitem dúvida sobre sua relevância. De Steve Vai a Patti Smith que o vislumbrou “into the celestial realm where all is music”, muitos reverenciaram sua pessoa e tudo o que significou desde seu surgimento no final da década de ’70.

Eu por meu lado, terei sua lembrança como um cobrador sobre os ombros no cumprimento de obrigações com meu instrumento.

“Afinando a caneta, Pawwlow? Gastando cadernos, Pawwlow?”

Sobre Zuza Homem de Mello

Tive a ventura do acesso às revistas de anos anteriores ao meu tempo de leitor. Minha adolescência pegou estas publicações ou já decadentes ou ainda boas, mas distantes do que foram. Sebos e  colegas mais velhos me valeram então. Entrevistas da “Playboy”, artigos de “Status”. Quantas vezes me referi a estas preciosidades no blog?

Houve outra publicação que o acesso aos seus números mais antigos me foi importante na formação de leitor e de gosto musical: “Somtrês”. Nomes como Paulo Ricardo Medeiros (o Paulo Ricardo cantor, autor, também por esta época, das revista pôster lançados pela Ed.Três), Ana Maria Bahiana, José Emílio Rondeau, José Augusto Lemos  (estes dois leria muito na futura revista “Bizz”) e o ídolo (desde então) Ezequiel Neves.

Havia na revista um nome que assinava  textos sobre discos de jazz (outro que escrevia a respeito na publicação: Ruy Castro) e de música brasileira  e que me forneceu muito do conhecimento que tenho a respeito: Zuza Homem de Mello. Era ilustrativo e não tão divertido (no sentido de engraçado ou excêntrico) que alguns outros  nomes da revista e, por esta razão, fui gostando do seus textos aos poucos. O jeito de conversa, de aula  dada com aluno e mestre sentados lado a lado; o autor conquistou este leitor pela suavidade e não pelo impacto. Meus dezesseis, dezessete anos não o sabiam figura importante; sabiam-no, porém um mestre, um conhecedor do que escreve, um compartilhador de informações. Pois não se poderia escrever textos como aqueles sem muito saber e sem muita paciência para leitor que se supõe inculto mas merecedor de obter informações.

Um texto em particular me ganhou, me impôs sua assinatura como a de alguém a considerar: a reminiscência de uma tarde chuvosa em São Paulo no final da década de ‘60. Caetano Veloso era o visitante, nesta tarde. O jornalista colocou itens de sua coleção para o então jovem cantor e compositor que era estrela de programas da TV. Lembro que entre os nomes citados, havia o de Billie Holiday. Talvez Chet Baker também. Arriscaria Miles Davis.

Li este texto, lembro aos leitores, no final dos anos ‘80; posso me enganar, portanto. Mas lembro da descrição que Zuza fez do jovem tímido, que só interrompia o silêncio para comentários rápidos após cada faixa e no momento de virar o disco.

Lembro sobretudo que Zuza terminava o texto apostando que muito do amor de Caetano Veloso por São Paulo teve início nesta tarde. Isto dito sem arrogância, sem falsa modéstia também. Um micro ensaio, uma crônica memorialística em um espaço onde não se espera, de ordinário, encontrar estes dois gêneros.

Se Caetano Veloso começou a ter São Paulo no seu mapa mental nesta tarde, ignoro. Asseguro que Zuza Homem de Mello ganhou um leitor atento e um admirador, eu, a partir deste texto. Quando soube de sua morte, foi desta página que me lembrei de imediato, de coração. E li dele muitas outras. Mas esta evocação de uma tarde chuvosa ouvindo jazz…

Com sua partida, o Brasil perde um dos últimos mestres, um dos últimos referenciais. Não parece que os homens que decidem as coisas no mundo da Imprensa tenham noção do desfalque deste material humano de qualidade. Que se faz para repor?  É ainda possível surgir críticos (em qualquer ramo) do tipo?

Não é o que tenho visto em portais e blogs. Há a ausência para as gerações mais novas destes parâmetros e isto me parece  (escrevo sobre este perigo desde a morte do Chico Anysio) um dos maiores desastres do Brasil: a expansão do seu deserto mental.

Que leiamos os livros e releiamos textos (procuremos nos sebos) em revista do Zuza Homem de Mello, pois. Só há ganho.

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“Notas” – 16/08/2020

O Martelo e a Taça – Um Inédito de Mariel Reis

( Escrito em 22/11/2019)

 

A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel.

 

Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do que pode ser a pintura à sua frente ou apenas um cálculo mental dos custos de uma viagem futura.

 

Os outros quadros, em uma ciranda, trocam impressões acerca dela que exigiu a cadeira em que está, encomendou a garrafa de vinho e trouxe consigo a taça acondicionada em uma valise. Nada parecia perturbá-la. Os cabelos longos em um coque deixavam entrever uma nuca bonita, seguida por ombros delicados e costas seminuas. Os seios marcavam o vestido leve, atraindo a atenção dos rapazes de um grupo escolar que transitava pelas outras alas.

 

Ela não parecia se incomodar com a curiosidade a respeito de seu corpo, sabia-se atraente, embora tivesse deixado para trás os quarenta anos.

 

Olhou o quadro uma outra vez com tamanha perplexidade que um dos monitores se aproximou com a intenção de esclarecê-la acerca da pintura, da técnica empregada, da circunstância em que foi executada, da vida miserável do artista. Ela não foi receptiva ao gesto, mostrou-se enfarada, distraiu-se da fala com um gole do vinho caro. Levantou-se da cadeira, andou pela fileira ignorada de quadros, seguida pelo falatório do monitor. O vinho arrefecia a voz estridente do explanador, algum estagiário de História da Arte, sem nenhuma vontade real de lhe dizer qualquer coisa verdadeira acerca da pintura ou da técnica ou da vida miserável do artista, repleto de vontade de estar na praia, com a namorada, fumando um baseado nas pedras, aplaudindo o pôr do sol.

 

Ela deixou-se desinteressada diante de uma janela com vista para a baía, o mar acinzentado e o céu azul de poucas nuvens. Sem nenhuma voz por perto, ela retornou à cadeira, apoiou-se às costas dela, olhou o quadro à sua frente, sem evitar a sua forma geral como havia feito até ali. Suas impressões se reorganizaram acerca do que pensava anteriormente; a gentileza ruidosa do monitor quase precipitou um desastre interior interrompido por uma zona da pintura sem qualquer importância.

 

Ao mirá-la, ela, a madame, acrescentou mais vinho à taça. Lembrou-se de algo desagradável. Sacudiu a cabeça para enxotá-lo de sua imaginação. Os outros quadros mantinham-se estupefatos com a absorção com que ela se punha diante daquela pequena pintura que caberia muito bem em uma bolsa feminina como a dela. Os funcionários cochichavam a respeito da grã-fina. O expediente próximo do fim.

 

Ela levanta uma das mãos, acena para o segurança. Explica um problema em um dos sapatos, pede um martelo para consertá-lo. O pedido inusitado é encarado sem desconfiança, ninguém a acha perigosa. Só excêntrica. Recorrem ao funcionário da manutenção. O martelo lhe é dado. Ela descalça os sapatos, retira da bolsa um suporte. O tamanho é compatível com o do quadro observado apesar de embrulhado. Descalça, ela, de cócoras, fita a pintura com mais agudez.

 

A garrafa de vinho quase no fim. A taça e o martelo dividem o assento da cadeira. O embrulho em suas mãos. A madame pede a um monitor auxílio. Ele não desperdiça a oportunidade, retoma a falação. Ela pede silêncio, repassa o embrulho, logo aberto pelo monitor por insistência dela. É o mesmo quadro. A grã-fina mostra a nota fiscal. Uma fortuna. O martelo cresce em sentido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Notas” – 05/07/2020

Mariel Reis na “Machado”

“ Pawwlow, conhece a ‘Machado’?”

A pergunta de um leitor amigo levou-me à revista eletrônica “Machado”, nunca ouvira falar da publicação. E…não sabia o que estava perdendo; reportagens, quadrinhos, charges, traduções, entrevistas (uma com Neil Gaiman dividida em duas edições), ensaios, e textos originais (contos e poemas), todos bem ilustrados por artistas e impressos em cores (ah! o tratamento cromático da “Machado”…); capricho, dedicação. Não duvido que nas reuniões para a fundação da revista deliberaram entregar ao leitor revista eletrônica onde beleza e conteúdo formassem peça inteiriça. Uma preciosidade, a “Machado”; uma demonstração de carinho e cuidado, cortesia do editor Delfin.

Nos três números que vi, encontrei colaborações de escritor que venho acompanhando desde ano passado e sobre qual escrevi no blog, Mariel Reis.

São dois contos e uma peça em um ato, os três merecendo ocupar lugar em futura coletânea do escritor.

A peça, “Estamos Os Dois A Sós”, em um ato, retrata uma dupla de amigo – homem e mulher- que divide o aluguel de um apartamento de centro urbano no tempo presente. Nada que rime, ainda que se force muito a pronúncia, com glamour. Teresa e Carlos, os dois amigos que coabitam surgem cada um num cômodo. A Mulher na sala, o homem no quarto. O homem parece desejoso de dormir e a mulher entregue à contemplação dos famosos que têm suas vidas expostas em revistas.Gente que viaja para destinos exóticos e se hospeda em hotéis luxuosos e não divide apartamento, procurando o sono para enfrentar o dia seguinte. Gente bonita, gente de sucesso.

Mas a mulher acredita fazer parte do mundo da revista que folheia, protesta contra determinado final de noivado de uma atriz, já antevê o noivo procurando-a após ser dispensado pela noiva. O que irrita Carlos:

“Você é apenas uma empregada. Você varre, lava, passa e cozinha.Ou descobriu algum parente rico que deixou herança para a pobrezinha.”

(Mariel Reis na rubrica : “Teresa alisa o roupão como se o tecido fosse seda e estivesse vestindo um manto real”)

E batem à porta. E é o personagem da revista. E disposto a retomar o romance com a habitante do apartamentinho. Resta ao coabitante declarar para o astro;

“Eu moro aqui com ela.”

A certa altura, Carlos diz: “Alguém precisa decidir. Estamos ou não dormindo?”

Pois logo depois chega noiva da revista para buscar o amor de Carlos enquanto Teresa se resolve com o astro.

O dia surge, Carlos e Teresa abraçados um ao outro, na mesma cama; fora tudo um sonho, receberam visita? Por que não conversar sobre o evento?

Teresa, pragmática, fecha a peça:

“Não. É melhor levantarmos, senão nos atrasamos para o trabalho.”

Não é a vida de milhões, o sonhar acordado com celebridades, enquanto empilhados nas grandes cidades, padecendo o inferno na vizinhança medíocre, nos transportes urbanos superlotados, nos empregos sem futuro, nos casamentos condenados?

Com os fatores da sobrevivência e as multidões dos devaneios, apaga-se a luz.

Isto dito por Mariel como numa comédia romântica, sem mentir sobre o que significa no dia depois de dia procurar pela Felicidade.

Os dois contos estão, sem qualquer favor, entre os melhores de sua produção de alguns livros e outras tantas revistas e blogs pela internet: “O Erotômano Imperfeito “ e “O Sonho”.

No “Erotômano”, Mariel começa por traçar o painel do subúrbio de forma bem humorada, com pinceladas breves, quase um guia para o leitor do seu chão, no feitio do Manuel Antônio de Almeida no “Memórias de Um Sargento de Milícias”:

“Minha mãe não largava do meu pé, dizendo para eu arrumar uma garota, acabar com as reuniões que se estendiam até altas horas da noite, com a presença daquelas mulheres de papel, de dois amigos que traziam também as suas e de uma menininha safada do quarteirão fronteiro da casa ( …) Porque a parada era dura com as meninas e elas só tinham uma coisa em mente: casar. Um pirralho como eu, casar? (..) Nas brincadeiras de médico eram generosas : ofertando para consulta suas partes ocultas para injeção, curavam-se do mal que as afligia.”

Evolui para o retrato psicológico e terno do Machado de Assis das primeiras páginas do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: (…) porque essa história tem a ver com a primeira vez e a maneira inesperada como encontrei o meu amor, mesmo sendo o primeiro (…) a vida é ensaio para inúmeras respostas que não se concretizam, como a própria existência é um ensaio inacabado”. Sobre a locação da história, Mariel registra, também machadiano, “nesta cidade, nigérrima e triste. Triste como uma noite que não se orgulhasse de suas estrelas, nem de sua luz emitida por constelações distantes, por planetas quem sabe até mortos”.

O conto é pontilhado de reflexões marielísticas que inspirariam elogios de Machado: “é barato ser bonito hoje em dia: é só ter um limite de cartão de crédito muito alto e o conhecimento de um bom cirurgião”, “os animais quando estão no cio se amam em algum grau?”, “ Mulheres arrancam assuntos dos motivos mais inesperados, quando menores parecem vir de algum lugar escondido, como aquele jardim secreto que só elas visitam.”

Como machadiano é o desenvolvimento do enlace amoroso dos dois adolescentes de bairro: “Valentina me mostrou o caixãozinho do passarinho de estimação (…) só queria mesmo ampará-la, tê-la quieta como o passarinho que enterramos na praça perto de casa. Quando acabou o enterro, ela me beijou (..) Talvez fosse mesmo o amor, seguido sinistramente pela morte, rastreado no peito de um sacana como era eu, naquele dia mal iluminado da minha pré-adolescência.”

O fim nos leva ao Nelson Rodrigues de “ A Vida Como Ela É”:

“Mas um dia cruzei com Valentina em uma das ruas do centro – já mulher e com filhos.Tinha cicatrizes pelo corpo, estava morando em uma dos bairros mais distantes, casada com um sujeito ciumento, que toda vez que cismava que a sua preta estava dando mole para alguém, a marcava com a brasa do cigarro (..) A carne é triste (…)”

A vida sentimental registrada como homenagem aos grandes da literatura, condensados por um autor dos dias da literatura como exercício consciente de releitura e metalinguagem.

“ O Sonho” é dos grandes momentos da ficção de Mariel Reis, não é exagero supor que ele esconde uma novela ou romance em suas poucas páginas.

Um narrador onisciente acompanha o desembarque de um sujeito de um táxi e sua requisição de um quarto de hotel, onde dorme, após certo esforço em lidar com sua realidade cansada e com o ambiente inóspito.

Pois tudo é espinhoso no hotel: o tratamento dado como a um velho, o recepcionista, “homem com uma cor de pele acentuadamente negra” que lhe trazia “recordações incômodas”. Bom, mesmo chegar ao hotel não fora agradável, pois suspeitando do taxista durante a viagem. O corpo, embora transportando mente lúcida e alerta, lembra como estocada certeira na mente a finitude. “Lentamente experimentou o peso do corpo em cada um dos degraus, parava como se esperasse a qualquer momento a construção ruir.” Mesmo o hotel, como edificação, parecia-lhe um adversário: “A porta escura do aposento custou a entender que ele forçava passagem, tendo então que empurrá-la com violência para abri-la.”

E esta é a realidade do personagem desperto.

O mergulho de olhos fechados exibe a perda brusca de alguém muito querido, perda inegociável com o cobrador do Tempo. As lembranças da vida feliz em família; o saldo positivo dos filhos, as festas, a celebração do que se ergueu junto. Tudo um sonho, um sonho preparatório para o Pesadelo da vida real; ausências, saudades, espera entre resignada e ansiosa da Morte.

“Devia ser um sonho (…) Não era esse o trato.Deus não me deu ouvidos (…) Não tinha o direito. Disse a Ele que estaria sempre à disposição, custaria menos levar meu corpo cansado. Ele não me deu ouvidos. Caprichoso. (…) Deus trapaceou, meu filho custa a entender, trapaceou. (…) Se ela estivesse aqui não me deixaria cometer uma heresia dessas. Bateria na minha boca”.

Foi um sonho desagradável fruto de uma viagem também desagradável?

“Agora aguardo a ansiosa visita, tenha o rosto que for.Não me importa. Se dura ou caroável.(…) Sim, a vida não passa de um sonho.”

Como no “Erotômano Imperfeito” e na peça em um ato “Estamos os Dois…” o que Mariel não conta dos personagens é imaginável, senão visível pelo leitor, do que aparece em cápsulas. Nos três textos, escondem-se páginas e páginas. O contista competente é um fabricante de cápsulas poderosas, um miniaturista minucioso. E “O Sonho” é cápsula que acompanha o leitor após cada releitura, e a miniatura convida sempre para mais uma releitura e mais uma…releitura depois de releitura algum pormenor se exibe mais nítido.

Bom, aos leitores desejosos de mais textos do Mariel Reis recomendo procurar na internet seu material disperso nos blogs e revistas eletrônicas.

E recomendo, uma vez mais, seu twitter, onde Mariel Reis não joga leve: reminiscências, reflexões políticas, culturais e mesmo ( ou sobretudo) metafísicas. Sempre mostrando que ao opinar sobre qual assunto for, leu mais de uma corrente de pensamento a respeito.O que torna seu twitter espaço inteligente e exigente (não é leitura para incultos resolutos ou vítimas de preguiça mental em estado grave); exceção notável entre tantos tuiteiros que exibem seus chavões “espertos” e cultura de quarta capa de livro.

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“Notas”- 24/05/2020

Sobre Lei da Gravidade na Política

 

“Caindo a Dilma, o resto será consequência, o lulopetismo se derreterá por si”.

Li afirmações do tipo nos dias pré-impeachment de Dilma Rousseff colunista depois de colunista, li também este raciocínio no coral dos comentaristas. Veio o impeachment (que este blog nunca comemorou ou viu nele algo de produtivo) e o PT robusteceu-se e desafiou tetos durante todo o mandato de Michel Temer. A tal consequência lógica não veio.

A luta seguinte foi pela prisão de Lula, a qual eliminaria a candidatura que liderava pesquisas. Não comemorei esta prisão, e escrevi sobre o que considerei improvisado no episódio; Lula fazendo do ato da prisão um comício desmoralizante. A prisão de Lula criou polaridade que beneficiou Jair Bolsonaro;  não tanto por ele,  mais pelo que o candidato da casta acadêmica (e por óbvio do PT e do Pós-PT) propunha ou pelo que colocava como antagônico ao que milhões de brasileiros desejavam: combate à criminalidade, adoção do ponto de vista (ou como preferem alguns , ”lugar de fala”) das vítimas. Mas fosse outra Esquerda (mais sensível às vítimas – e bem menos  “lacradora”- e mais crítica aos dogmas da casta acadêmica) quem garantiria que a polarização filha da prisão de Lula não a beneficiaria?

Lula  solto perde relevância; quando preso, era o mártir. Este capítulo bastaria para negar a dita lógica das consequências infalíveis que dispensam esforços. Não?

Muitos dos apoiadores de Bolsonaro (ainda que apoiadores apenas por aversão ao PT e ao Pós-PT) parecem ainda acreditar que a Lei da Gravidade na Política pode substituir esforços e exercícios de aprimoramento.

“O Povo (ah, essa fantasia!, o que há é a Massa) não quer mesmo a volta do PT. Não adianta tentarem colocar a culpa das mortes pelo Coronavírus no Governo Federal, pois a população está se revoltando, dia depois de dia, contra prefeitos e governadores.”

Sim, mas há cada vez mais quem responsabilize Bolsonaro pelos episódios desta pandemia que causam escândalo (como prisão de pessoas em espaço aberto, sem aglomerações e soltura de estupradores e latrocidas), gente que se pergunta por que, afinal,  votou nele.

Estas pessoas estranham a ausência de maiores pronunciamentos  (não se cometa o erro de considerar lives em redes sociais e canais de vídeo como  pronunciamentos, sim?) e mesmo denúncias no plano internacional sobre ditaduras municipais e estaduais. A Lei da Gravidade não está se confirmando; a crença de que entre o Governo e possíveis alternativas, o Governo seria sempre a opção escolhida se ainda tem fundamento, não confirma a  Lei da Gravidade na Política, a Oposição não vem diminuindo. O Governo vem colecionando desertores dia depois de dia e mesmo entre os que ainda reafirmam o voto, a disposição de defendê-lo parece diminuir.

Afinal, o mais apaixonado partidário acaba por se perguntar se não está lutando mais que beneficiários diretos do Poder; blogueiros vizinhos do Poder estarão formando redes de apoio? Combatentes de redes sociais estão à altura do desafio?

Leitores me cobraram pelo texto passado, que afinal quis dizer? Estaria culpando o Governo pela campanha que sofre? A vítima teria toda culpa e não os algozes?

Bom, o desafiante tem que lutar mais que o detentor do cinturão…Bolsonaro parece ter subestimado o grau de violência que sua mera existência como candidato despertaria; “eu ganhando e contando com os apoios que surgem dia depois de dia…governar será simples consequência”. A Lei da Gravidade encarregada, por este raciocínio, do trabalho que deveria ser realizado por institutos de estudos políticos, partidos formados a partir dos institutos de formação política, mais as redes de blogueiros e comentaristas. Trabalho também realizado com matéria do tempo. Não, não levaram em conta que arrivistas e entusiastas de ocasião não formam a massa compacta que uma guerra do tipo exige e o resto tem sido o que vemos: um presidente sozinho cercado de alguns bem intencionados que também não contam com muita artilharia. E desta constatação sombria surgem as combustões como as demonstradas na reunião ministerial.

Ah! o vídeo da reunião ministerial…como se falou palavrão ali…jornalistas saídos de meios sociais  onde a linguagem deve ser a mais puritana, não? O cinismo de  jornalistas exibindo modos de beatas avistando obscenidades berradas em muros não escandaliza e isto me parece o escândalo dos escândalos. A desfaçatez com que se trata o leitor como débil mental é tomado como uma mera obrigação. Não se percebe o grotesco, isto diz muito.Ou deveria dizer. Na verdade, um item a mais a ser desperdiçado por pretensos observadores.

Ou observadores que se acreditam de Oposição imaginam que as pessoas que estão ocupadas imaginando como reinventarão a vida após a destruição da economia farão este trabalho por mera consequência, como uma Lei da Gravidade que desmoralizará por si estes puritanos da hora?  “Ah, para quê? todos estão vendo mesmo”, o refrão que todos que desejam não enfrentar o serviço entoam.

Vejo alguns lamentando Felipe Neto no “Roda Viva”… ora, como disse Arthur do Val, Felipe Neto tem relevância ainda que lamentemos tal relevância; que fizeram muitos dos que protestam contra a escolha da TV Cultura para entrevistado no sentido de promover (como liberais, em primeiro momento, e esquerdistas agora) seus talentos em polêmicas como se promoveu Felipe Neto? Qualquer um com milhões de seguidores em redes sociais merece,  sim,  uma matéria e uma entrevista. Não se movimentaram para promover polemistas que pudessem ser adversários das malícias e simplificações do pensador político do YouTube.

Ou imaginaram que uma Lei da Gravidade se encarregaria de derrubar Felipe Neto das alturas numéricas apenas com o exame ligeiro de suas fragilidades? Mesmo porque, repito,  não se trata de derrubá-lo ou arrebatar seu público, mas de criar público para os que poderiam ser uma possibilidade de alternativa. E isto, este esforço, não tenho percebido.

Promoveu-se, no lugar de combatentes formados em institutos próprios, aventureiros que demonstraram empolgação combinada com preguiça intelectual, e destes aventureiros vieram as decepções mais pungentes. E queixam-se agora dos milhões de seguidores de Felipe Neto e da recepção dada a um fenômeno de público?

Como escrevi no texto anterior, “não que não tivessem um plano B, não tinham plano A”…

O presidente mandar menos que prefeitos e governadores (e ser desafiado pelo STF sempre que a oportunidade aparece)  é mera consequência de um exemplo da Lei da Gravidade aplicada pela natureza da Política, não pela ação dos seus inimigos.

Como gostaria de estar errado… não poderei deixar o Brasil quando este sonho alcançar o chão, puxado pela Lei da Gravidade.

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