“Notas” – 10/03/2021

Sobre  a volta de Lula ao palco

Leitores deste blog sabem o que sempre pensei e penso da opção de combater o sistema de Poder do PT e associados ( Poder da casta acadêmica) pela via judicial. O que sempre escrevi das capas “bombásticas” da “Veja” no período petista, por exemplo. O meu juízo sobre articulistas deste meio que anunciavam o fim da facção política inimiga por obra de “denúncias que farão com que petistas saibam que Sábado é o mais sombrio dos dias” (lembram?). Os títulos pomposos, os textos simplistas e entupidos de adjetivos…

“O presidiário Lula”, “o ex-presidiário Lula”; expressões que bastavam a muitos como talismãs políticos. Os memes, as gargalhadas, a valentia fácil nas caixas de comentários…

Tratei disto tudo em meu blog, fui mesmo repetitivo.

A verdade é que colocá-lo na cadeia pareceu a muitos mais fácil que tentar o trabalho de desmontar seu governo diante da população; o trabalho de formiga que economistas da Oposição fizeram durante o Regime Militar parece (não, não apenas pareceu, muitos não se convenceram, mesmo agora) a estes anunciadores do Fim instantâneo do Petismo uma perda de tempo, um desperdício de energia.

E o resultado está aí: Lula de volta ao campo das hipóteses, ao palco de onde não saiu nem mesmo preso. Sim, a volta do que não partiu, a realidade confirmando a piada. Contando com  a plateia dos populares que acreditam (e por que não acreditariam, se não se empreendeu o esforço de esclarecimento?) que seu governo foi o melhor desde a Primeira Missa.  Em grande estilo, conclamando populares a desafiar o Governo atual e reafirmando sua condição de vítima de erro judiciário.

Ataca-se, nas discussões de internet, Edson Fachin por este ter se utilizado de uma questão técnica (a competência da Vara de Curitiba) para decidir  pela anulação. Que se pensasse na possibilidade de pormenores técnicos colocarem tudo a perder. Confiou-se na popularidade, na “Onda Conservadora”, nas figuras mais gastas da retórica de orador de diretório de agremiação direitista. Nem as acusações de parcialidade mais bem formuladas por observadores  tanto do PT como independentes fizeram estes ditos coveiros do petismo se perguntar se tudo isto não teria algum preço. E este veio, e salgado, nos dias de declínio de popularidade  do governo de Jair Bolsonaro.

O voto de Fachin veio poucos (um? dois?) dias depois de Lula ter se mostrado disposto a ser o candidato do PT, removendo a candidatura certa  (estimulada pelo próprio Lula) de Fernando Haddad.  Há quem veja nesta coincidência algo mais que coincidência. Eu vejo sincronicidade; Lula não abriria mão da pré candidatura até que esta se mostrasse inviável; por que se acomodaria como uma relíquia do PT quando a possibilidade de reeleição de Bolsonaro não é desprezível? Relíquia das Esquerdas, melhor dizendo; Lula não parece desejoso de inaugurar o Pós PT com sua aposentadoria – não será o Miguel Arraes e Leonel Brizola de si mesmo. Como disse Fidel Castro sobre Fidel Castro: “Este morto pode ainda fazer planos … este morto não morreu.”

Os amigos leitores acreditam mesmo que este retorno do Lula sob holofotes, com  orquestra e coral, ensinou algo aos cientistas políticos improvisados, aos vlogueiros, aos astros de internet e aos jornalistas-torcedores? Eu não acredito que estes sujeitos consigam assimilar lições; o público para o qual trabalham os deformou; tornaram-se (os que algum dia tiveram alguma capacidade de análise) seguros de sua infalibilidade, ainda que aumentem a coleção de previsões negadas, eleição depois de eleição.

Lula, se não estou errado, conta com a possibilidade da derrota e já tem, dobrado no bolso do colete, o discurso pronto: responsabilizará a Imprensa e a infiltração das “ideias reacionárias”na população que ele parece acreditar sua devedora. Como foi Presidente eleito e reeleito e que fez a sucessora estará longe de ficar estigmatizado como um fracassado, ainda que sofra esta derrota. Se perder, perderá, acredita, para um político carismático e que conta com eleitorado considerável. Erra, penso, quem o considera temeroso deste confronto. Teme mais, repito, a morte em vida, a acomodação à condição de retrato na parede das Esquerdas. Não se considera, com razão, um velho.

Vitorioso, apresentará suas contas aos vencidos.

Não me junto aos que o consideram despreparado para qualquer das duas hipóteses. Não vejo sabedoria nos que subestimam adversários, sobretudo adversários astutos e experimentados, como Lula.

O que não parece estar claro a muitos é que desde a primeira vitória do Lula, o problema não estava nele e no seu partido e sim nas razões que tornaram esta vitória  (e, claro, as seguintes) possível. Mais que possível;  inevitável, fatal.

“E Bolsonaro, se perder?”

Não acredito que se refaça do golpe, do baque. Bolsonaro e todos que se mostraram dispostos a negar o sistema de Poder do PT e associados terão dificuldade em conseguir outra chance.

O Poder tolera ainda menos desaforo que o dinheiro.

Sobre Helio Fernandes, morto aos cem anos

“Helio Fernandes morreu”,  o aviso seco me colocou ciente da morte do jornalista mais antigo em atividade no Brasil  (quase certo que no Mundo). Lia-o desde minha adolescência, uma admiração que transcende questões de afinidade de ponto de vista.

Escrevi alguns textos sobre ele no blog. Texto sobre sua luta pela indenização pelas perdas que seu jornal sofrera durante a Ditadura foi publicado na Tribuna da Internet e no Brasil247. Outro texto ( também publicado na Tribuna da Internet) propunha livro de entrevistas como o “Depoimento” de Carlos Lacerda, ideia que não parece ter animado qualquer jornalista. Parece que algumas entrevistas (nas quais não havia maiores questionamentos sobre voltas e reviravoltas das opiniões de HF), ainda que longas, pareciam bastar. E não bastavam;  uma figura como ele exigia um livro de entrevistas, um trabalho de fôlego maior. Mencionei esta necessidade a alguns jornalistas, e as respostas variavam do silêncio a comentários ligeiros sobre a importância de um livro assim. O fato do tempo estar se esgotando não parecia sensibilizá-los.

Houve a grata surpresa da entrevista de Helio Fernandes ao Ancelmo Gois e ao Alberto Dines para o “Observatório da Imprensa”, surpresa pelo fato de Helio e Dines terem trocado palavras ásperas, não pelo espírito de pesquisa e seriedade de Alberto Dines, um jornalista dedicado a analisar de forma historiográfica e crítica o ofício. Entrevista sobre a qual também escrevi.

Nos meus  textos sobre Helio Fernandes, expressei minha admiração e minha tristeza por não o conhecer pessoalmente;  textos que estão no arquivo do blog e que respondem aos interessados o que penso sobre o jornalista que  Brasil perdeu hoje.

E, portanto, no dia da sua morte, prefiro nada escrever. Meus deveres para comigo, no que tocam esta admiração, cumpri  sem esperar pela sua morte.

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“Notas” – 31/01/2021

Sobre a necessidade de ser Oposição

Não entendo o apetite pelo Governo, pela posição governamental. Não acredito que se faz mais no Governo do que na Oposição; a pressão por agendas públicas e formação do imaginário político popular me parecem incompatíveis com as funções administrativas. Lógica elementar que sempre que a exponho soa como excentricidade a muito interlocutor.

Talvez décadas de entrevistas com líderes políticos declarando o desejo pelo Poder “para fazer algo, para realizar o que lutei como oposicionista, como teórico” tenham nutrido na classe política (ou no que responde por classe política) a fixação pelo trono presidencial. Carlos Lacerda, por exemplo, resumia assim sua obsessão pela Presidência. Foi bom governador de um estado  que compreendia uma cidade,  mas…tantos outros políticos também fizeram e fazem ainda, declarações semelhantes.

O exemplo do PT que ditou políticas durante os oito anos de governo do PSDB depois de tantas lutas nos governos anteriores parece ser algo a se ignorar. E é o exemplo a ser estudado e digno de emulação. Lembro da primeira derrota presidencial… foi seguida pela criação do Gabinete Paralelo e por uma Escola de Sindicalistas em Belo Horizonte.

Ser Oposição, demorar-se na Oposição, este  o ideal político de quem de fato tem percepção nítida do que é o Poder, do que significa exercitá-lo.

Fundar institutos, periódicos, redes de periódicos, redes de institutos, associações de advogados amigos da sua facção política… estes seriam os passos necessários, indispensáveis, indiscutíveis e inadiáveis.

Tudo que o sistema de Poder do PT e associados fez e faz e que o Pós -PT herda, e arrisco dizer que partidos europeus de Esquerda e o Partido Democrata  fez  nos Estados Unidos por décadas até a retomada formal da situação.

Pois o que nega esta ciência política destina-se ao malogro, ao suceder de ondas de popularidade, passageiras como toda onda. O Poder não muda de mãos de fato.

Donald Trump saindo da Casa Branca logo depois de ter contas em redes sociais suspensas saiu de fato do Poder? Transmitir o cargo ameaçado de prisão por seus então oposicionistas foi, de fato, despedida do Poder?

A lentidão na resposta aos ataques que sofreu mostra que seu dinheiro e sua energia teriam sido melhor empregados em formar redes de oposicionistas. Este seria seu meio de influenciar, e mesmo transformar, a sociedade americana. Mas cismou em ser Presidente e o resto os leitores já sabem …

Décadas de militância na Oposição e Trump jamais precisaria passar pela calçada da Casa Branca, entendem?

Mesmo pode ser dito de Jair Bolsonaro;  falta de carreira como oposicionista explica suas dificuldades em ser Governo.

“Mas ele não foi Oposição ao PT, e antes disso, ao PSDB? Não chegou mesmo a declarar que Fernando Henrique Cardoso merecia o fuzilamento por sua política alinhada aos Estados Unidos?”

Bom…Oposição não é isso, é formar alianças com setores de pensamento igual ou assemelhado, é formar entidades de combate, é se fazer conhecido da maioria como encarnação de uma facção ideológica ou política… formar, ou tentar formar, um partido.

Que disso foi feito por Bolsonaro em suas mais de duas décadas no Congresso? Qual movimento fez em direção à massa indecisa, às pessoas que, não sendo de Extrema  Direita, ou mesmo de Direita, não admitem governo de Extrema Esquerda, ou mesmo de Esquerda? Qual esforço de absorção desta maioria sem dono foi empreendido (esforço no qual a Esquerda é experimentada, habituada, consciente de que é um dever primeiro), ou sequer iniciado?  Falo de esforço, não de senso de oportunidade frente a uma suposta onda direitista. Não preciso escrever a resposta.

A resposta vemos na ausência de quadros orgânicos no Ministério (a marca da improvisação; nomes insatisfeitos entre profissionais de carreira nos ministérios e autarquias ao que parece são desconhecidos do Presidente e seu círculo imediato), na lentidão nas respostas aos ataques, na falta de agilidade política frente aos fatores inesperados (como a pandemia do COVID) e na maneira desastrada de responder (e repito, respostas tardias) aos ataques à figura presidencial, às calúnias ao Governo.

Ainda convalescente do atentado sofreu acusações sobre a veracidade do mesmo, e não teve qualquer auxiliar (sobretudo os filhos, tão operosos nas redes sociais) a colher impressões destes ataques para processo. Nem mesmo entre comentaristas (jornalistas ou não) famosos (pois declaram ,com razão, não poder processar  milhões de perfis nas redes sociais ou em caixas de comentários). Mesma inoperância quando teve nome envolvido no assasinato de Marielle Franco. Quando sempre nomeado como “miliciano”, etc, etc

A disposição para agir surge em…resposta a uma sugestão irônica de Ruy Castro sobre suicídio. Sim, após cerca de dois anos de ataques que renderiam condenações seguras, processa-se uma piada. De quebra, promovendo um (sem dúvida competente, mesmo brilhante) biógrafo e cronista de amenidades culturais, como Ruy Castro, a analista político digno de respostas governamentais e processos que se entendem como destinados a assuntos sérios…

Que é  esta piada embrulhada para presente senão falta de prática como oposicionista militante e dedicado ao estudo da ciência do Poder?

Agora o episódio das latas de leite condensado… o que mereceria exigência de direito de resposta desperdiça-se em desabafo (com os palavrões que tanto escandalizam jornalistas e atrizes tão puritanos) em uma reunião com artistas amigos.

Não há dia em que não vejo minhas previsões (estão no blog) sobre o que seria este governo de improviso confirmadas; acreditou-se que seria fácil, que bastaria “expulsar os petistas que desgraçaram o Brasil”para que tudo funcionasse, como consequência.

Bolsonaro será, cada vez mais , prisioneiro de arranjos políticos aos quais deverá dar mostras frequentes de fidelidade se não desejar ter fim como o de seu amigo norte-americano. As promessas de campanha aprovadas no Congresso como garantia de cargos serão, com alguma sorte, a vantagem possível. Mas ele dependerá de um outro capital que por sua vez depende da reeleição: tempo. Já se passou cerca de metade do mandato…e a popularidade vem se desgastando. Não se transferiu ainda para o campo adversário, é verdade, mas por quanto tempo?

O domínio da casta acadêmica não encontra resistência por falta, quase absoluta, de noção da gravidade do desafio por parte de seus ditos adversários. Surra depois de surra, quanto se aproveita como lição? Quantos fatos são anotados como casos de estudo?

Onde os institutos independentes? As redes de blogueiros, de jornalistas não alinhados aos setores hegemônicos? A aceitação realista  da derrota  (Norman Mailer escreveu algo como “a depressão é o preço psíquico da negação da derrota”), para começo de conversa.

Estudos sérios, não cursos para formação de “elites intelectuais que salvarão o Ocidente “, institutos que poderão absorver pessoas da massa que deverão começar estudos pelo começo, com paciência. Trabalho para, se iniciado enquanto digito este texto, apresentar primeiros frutos talvez depois de dez anos. Como os grupos que dominam a casta acadêmica  e a política fizeram há décadas, quando eram  Oposição.

Porque  Oposição é começar pelo começo, sem pressa de colheitas precoces e mal formadas. É ter como habitat a sombra  e a espera.Mas sem perder de vista a cidade a tomar. Sem estrelismos, sem caciques, sem “fominhagens” tão típicas dos ditos inimigos do Poder de hoje. Cuidando para não ser ninho de futuros traidores, sobretudo.

Só depois  o avanço.

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“Notas”- 31/12/2020

Sobre um ano de máscaras

 

Máscaras; máscaras que se colocam sobre as faces, máscaras que revelam as faces verdadeiras que se escondiam nos dias pré-máscaras. Máscaras até nos sonhos, assim foi 2020 e acredito assim será lembrado no Futuro.

Máscaras que revelam a volúpia no exercício do Poder em bocados miúdos: seguranças de supermercado falando alto e grosso por ajustes de milímetros das máscaras, organizando filas para entradas em estabelecimentos comerciais aos berros. Seguranças de bancos respondendo às perguntas mais triviais com o ar da autoridade que concede ao homem da rua indefeso alguma satisfação por caridade apenas.

Máscaras que revelam os tiranos nos quadros técnicos estabelecendo rotinas segundo critérios ditos científicos que mudam segundo conveniências e caprichos. Decretou-se abertura de comércio pouco antes das eleições e seu fechamento quase imediato assim que as mesmas eleições passaram. Qual o critério sanitário seguiu-se aí?  Qual queda expressiva de casos do COVID houve antes do comparecimento compulsório às urnas?

Questiona-se (quando questiona-se) estas decisões com todo cuidado possível; quem deseja ser “cancelado” e, dependendo do humor das autoridades, processado?

As máscaras de governantes locais no gozo do Poder superior ao do Presidente da República, por óbvio com muito mais votos que qualquer prefeito ou governador. Estes governantes locais aplaudidos e reeleitos por cidadãos exibem a máscara do Poder que toma qualquer dúvida como abuso e questionamento por insulto.

Eleitores destas autoridades utilizam a máscara do detentor do conhecimento científico que faz, aos seus olhos, questionadores de medidas afigurarem-se como caipiras desinformados. Quanto fiscal de ajuste de máscaras e de comércios abertos esta pandemia revelou…quanto denunciador escondia-se antes de 2020….não acredito que a máscara da vizinhança amena volte a se ajustar sobre as faces com facilidade.

A máscara da hipocrisia nos shoppings que removem bancos gratuitos pretextando protocolo de segurança ao mesmo tempo que vendem, via acesso às praças de alimentação, o direito à remoção das máscaras aos que lancham e esperam por seus lanches. Aos clientes das lanchonetes e cafés o vírus não assombra, mesmo que as bocas não estejam ocupadas em comer e beber. Nunca vi, nestas situações, qualquer guardinha de shopping admoestar pessoas sem máscaras..

Gente do meio artístico também vestiu suas máscaras e mostrou o quanto há, de fato, de respeito entre colegas; insultos, desqualificações, acusações de homicídios por conta de festas por gente que não raro também promove suas festinhas.

“Mas Fulano promoveu aglomeração considerável”, com se o vírus dependesse de superlotação para realizar seu trabalho de destruição.

Artistas não temendo insultar colegas, e mesmo parcelas de seu público; qual sacrifício é demasiado em nome da benção da Imprensa regida pela casta acadêmica?

O Poder, o Poder decidido e sem desejo de dissimulação, a máscara escolhida por tantos, por quase todos que prezam a manutenção do prestígio e a garantia da sobrevivência sem sobressaltos. Há um lado a se obedecer, e este exige o tratamento de “Doutor”.

Colunistas também decidiram remover a máscara de imparcialidade e ostentar suas preferências sem qualquer preocupação com sutilezas ou respeito à inteligência de leitores; jornalistas que, nos tempos do PT suportavam insultos dos MAVs petistas com resignação de santos agora, sob Jair Bolsonaro, em tempos de pandemia, anunciam julgamentos da História não apenas para o Presidente e seus apoiadores políticos como para seus eleitores e simpatizantes, ou mesmo aos que, não gostando de Bolsonaro, não declaram saudades do PSDB e do PT. A Máscara do Pós-PT em tamanho GG, cobrindo rosto e pescoço, no feitio de capuz. Impressionam, ninguém supunha tanta coragem em gente antes ou tímida ou que se declarava desinteressada de política.

Não apenas no Brasil máscaras de valentia foram adquiridas; Donald Trump e seus apoiadores perderam o Poder por atraso nas compras destes artefatos; insultados dia depois de dia recuaram às cordas até o nocaute previsível. Os militantes negros e latinos do Trumpismo não cometeram estes erros e foram responsáveis pelos números expressivos de Trump entre suas fileiras. Mais gente houvesse como Candace Owens e talvez o desfecho tivesse sido outro; gente como ela (e Larry Elder) faz toda a diferença na guerra política. A máscara da disposição para briga parece fixada nos seus rostos como a face verdadeira adquirida por esforço e merecimento. E também a máscara da coragem para admitir erros da candidatura que apoiaram no lugar de recorrer às teorias de fraudes (teorias até válidas, mas de eficácia discutível) e demais explicações conspiracionistas.

No Brasil, adversários da casta acadêmica e do Poder do Pós-PT confirmaram em 2020 sua preferência pela máscara da leviandade, da ligeireza, da preguiça para estudos teóricos, da afoiteza e da improvisação. Parece  também  máscara já ajustada ao rosto como pele adicional; obtida pelo hábito, pela inércia.

Difícil o otimismo neste desfile de máscaras que promete ser duradouro além do suportável. O Poder soube se manter e se  fortificar, esta a verdade desalentadora.

XXX

2020 conseguiu desmoralizar as previsões mais sombrias para anos vindouros, e mesmo a esperança de 2021 menos massacrante vem sendo negada nestes últimos dias de 2020.

O que se pode dizer é que não seremos colhidos de surpresa em pleno sonho de Ano Novo mágico; 2021 nos encontrará já um tanto sovados e desiludidos.

Quanto a mim, desejo 2021 feliz  e produtivo aos amigos e leitores do blog.

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“Notas” – 06/12/2020

Sobre eleições – notas soltas

Eu deveria ter ficado feliz com as eleições, meu blog confirmado nas suas análises e ensaios de previsão política: o Pós PT estabelecido como realidade política e o PT como um sobrevivente coadjuvante, resignado a torcedor pelas Esquerdas. Que interessados procurem no arquivo do blog meus textos sobre o Pós PT e a tolice de quem ainda combatia o reflexo ótico de um astro já desaparecido (como força preponderante e decisiva, bem entendido). As capitais mais populosas do Brasil negando cronistas políticos presos a hipóteses já desgastadas. Haverá quem colha as lições? Há quem considere que há lições a se colher das urnas ainda quentes?

“Guilherme Boulos não ganhou em São Paulo, idem Manuela d’Ávila em Porto Alegre”.

Mas chegaram ao Segundo Turno ultrapassando com folga candidatos do PT. E perderam fortes,  mais que habilitados para eleições futuras. Mesmo João Campos do PSB na sua vitória sobre Marília Arraes do PT manteve a vitória no Pós PT, na Esquerda.

Considerando o PSDB na sua nova face também um dos braços do Pós PT, a vitória de Covas confirma a tese que venho defendendo.

Não, não me sinto feliz tendo acertado. Preferia, muito, ter errado.Quem achou difícil impor perdas ao PT achará quase impossível, ou mesmo impossível, causar arranhões mínimos no Pós- PT. Mesmo por não pensar a sério no assunto. Eles, os representantes e beneficiários deste novo quadro político, vieram para ficar por tempo próximo ao que se entende por “sempre”.

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E a vitória do Alexandre Kalil no Primeiro Turno em Belo Horizonte?

Bom, quem se surpreendeu? O candidato no Poder tendo contra si diversos candidatos, tanto à Esquerda quanto à Direita. E com a imprensa local cantando seus cuidados contra a pandemia….os eleitores da Direita ou apenas anti-Esquerda (não, as duas condições não são sinônimas) não fizeram o cálculo do mal mais palatável como fizeram os eleitores da Esquerda ou anti-Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro. Renunciar à candidatura de preferência, adotar outra que aparente ter chance, e com o malogro desta… até que por fim tenha que se votar na que se considere a menos péssima.

Este ânimo político é adquirido.

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Jair Bolsonaro sofreu reveses que não precisava, superiores ao seu desgaste real, o apontado por pesquisas. Teria mesmo escolhido os candidatos mais sintonizados com o discurso que o elegeu Presidente? Não me parece que houve critério. Caso não houvesse candidaturas ideais que se abstivesse de apoio, ainda que apenas nominal. As preocupações do cargo são, e sempre serão, excelente desculpa para abstenção quando não se tem representantes populares nos estados. Quem convencerá as massas que o Presidente ocupado no Governo tem obrigação de apontar nomes locais?

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Que há quem se pergunte se valeu a pena o voto em Bolsonaro, isto não se duvida. Mas ainda ele conta com os que não desejam votar em candidatos de filiação muito óbvia à Esquerda. Mas o Pós PT em versão mais rósea tem avançado. Os articulistas de internet, os vlogueiros do bolsonarismo, não parecem ocupados de nada que não seja o pacote “China-urnas eletrônicas fraudadas (ou possíveis de fraudar) – vacinas que matam – Foro de São Paulo”. Estes militantes podem ser eficazes  (por enquanto) na luta contra PT, PSOL, PC do B e satélites, mas inócuos contra partidos de Centro Esquerda e Centro Direita que compõem o Pós PT. E deste composto “palatável”,”científico” (Bruno Covas debitou sua vitória aos que “acreditam na Ciência e no Equilíbrio”, assim que houve anúncio de sua reeleição) virá o esforço concentrado que poderá conter o bolsonarismo. O que se vê no Twitter é, sobretudo, o trabalho desta militância que se apresenta como “hipster”, antenada, não medieval. Dão expediente nas redes sem descanso, e esta eleição mostrou que o resultado vem, portanto…

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“E o Donald Trump?”

Militantes da Direita bolsonarista ecoavam a Direita trumpista: “ele dará a volta por cima”; “Claro que houve fraude, vou te mandar o vídeo do pacote de cédulas no lixo”; “na Suprema Corte ele virará o jogo”; “há provas, até demais, da roubalheira”, e tantas outras mensagens do tipo. Algumas engraçadas, outras tocantes pela ingenuidade.

Bom, se houve mesmo fraude nesta escala, acreditam mesmo que haverá meios de a conter com denúncias que poderão ser desqualificadas como “não técnicas”? Há formadores de opinião confiáveis e respeitáveis nesta luta que exige muito mais de convencimento das massas que combates jurídicos? Ou profetas da Terra Plana e defensores da teoria segundo a qual Michelle Obama é, na verdade, um homem, serão os adversários da casta acadêmica nesta guerra pelas mentes?

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Tenho para mim que a não decretação de medidas de emergência (que não sei se chegariam à Lei Marcial) logo após os “protestos” ( na verdade, crimes; depredações, incêndios, agressões a eleitores de Trump) quando de sua posse desenhou seu destino. Tudo que veio depois consequência apenas.O discurso de ódio como jamais se viu contra um Presidente; a desqualificação sem descanso de sua figura e de apoiadores; as violências do “Black Live Matter” subjugando cidades inteiras; a censura de redes privadas de comunicação de massa aos seus pronunciamentos pré eleições de 2020. Tudo teve início nesta atitude de “já ganhamos; uma hora eles nos aceitarão, terão que lidar com a realidade”. Inexperiência ou soberba própria de sua natureza, não importa; a conta chega à mesa do mesmo jeito.

Bolsonaro parece ter atitude idêntica frente aos que o desqualificam, e aos seus apoiadores, ainda que apoiadores de ocasião. Não parece consciente de que decretaram guerra a ele. Entorpecido por conselheiros de preparo discutível, conta ainda com a (referida acima) recusa das massas aos seus  opositores mais ruidosos, e parece, pois, despreocupado.

Muito malogro advém de não preocupações, a História é gorda de exemplos. Lerão História, e Filosofia da HIstória, seus conselheiros, seus imediatos intelectuais?

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O que fica, no balanço final deste ano eleitoral em ano de prisão domiciliar para muitos, é que a casta acadêmica firmou seu triunfo na arena institucional. As urnas a legitimaram na Política mais visível,a que aparece aos olhos das multidões à frente dos bastidores de departamentos acadêmicos e redações de jornais e revistas, seu chão de domínio há décadas. Repito: Covas agradeceu “aos que acreditam na Ciência”.

Este será doravante o agradecimento de muitos, mundo afora. Duvidam?

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“Notas” – 18/10/2020

Sobre Eddie Van Halen

Iggy Pop, em uma entrevista à revista “Bizz”  (José Emílio Rondeau?), declarou ter se inspirado muito mais em pintores, escritores e ditadores que em músicos. Também sou assim; atletas, cineastas, políticos (ditadores ou não) e músicos me inspiram a escrever muito mais que escritores. Sobretudo músicos. O senso de disciplina e o aprimoramento constante no ofício me servem como lembretes; muitas vezes lembretes amargos

“Quanto tens praticado? A mão doendo de tanto escrever? Quantos cadernso de rascunho já consumidos até as capas? A caneta já inteiriça ao braço e mão?”

Sim, músicos me inspiram mais que colegas de ofício, mesmo porque muitas grandes estrelas do mundo da música são, na sua maioria, mais simpáticos e humildes que qualquer subliterato e sub intelectual de café.

A morte recente de Eddie Van Halen me enviou ao início dos anos ‘80,  começo também de minha adolescência e enraizamento de muitas das minhas obsessões. Meu irmão ano e meses mais velho já tocava sua guitarra e comprou número dedicado ao Eddie Van Halen de série de revistas dedicada a guitarristas. O clip de “Jump” nos programas de TV pré MTV Brasil exibiam o músico jovem e sorridente extraindo seus sons como que brincando apenas. A tal revista mostrou, em seus depoimentos, o que havia por trás de uma aparente facilidade humilhante: esforço, domínio da técnica obtido por  estudo obsessivo da técnica de outros guitarristas, horas de prática e absoluta paixão pelo ofício.

Líamos e relíamos  (eu, meu  irmão e colegas de bairro e fixação por rock) a tal revista até que ela se tornasse inaproveitável pelo manuseio. E nosso círculo soube assim que instrumentos e mesmo equipamentos (como pequeno amplificador) eram transportados pelo guitarrista mesmo ao banheiro. Que eram referidos como “minha criança preciosa”. E talvez tivéssemos, alguns de nós, a primeira lição sobre ser relevante admitindo dívida aos mestres do ofício, pois eram muitas as referências à sua adoração por Eric Clapton.

E era o sujeito do solo de “Eruption”, da participação em “Beat It” do Michael Jackson, das faixas divertidas dos discos do seu grupo, Van Halen. Tudo executado como quem brinca, tudo sem afastar a expressão de menino travesso (expressão que o acompanhou até os dias de barba e cabelos grisalhos).

Minha geração pode ter o orgulho de ter sido contemporânea deste artista gigantesco. As homenagens recebidas pelos artistas seus contemporâneos nas redes sociais não permitem dúvida sobre sua relevância. De Steve Vai a Patti Smith que o vislumbrou “into the celestial realm where all is music”, muitos reverenciaram sua pessoa e tudo o que significou desde seu surgimento no final da década de ’70.

Eu por meu lado, terei sua lembrança como um cobrador sobre os ombros no cumprimento de obrigações com meu instrumento.

“Afinando a caneta, Pawwlow? Gastando cadernos, Pawwlow?”

Sobre Zuza Homem de Mello

Tive a ventura do acesso às revistas de anos anteriores ao meu tempo de leitor. Minha adolescência pegou estas publicações ou já decadentes ou ainda boas, mas distantes do que foram. Sebos e  colegas mais velhos me valeram então. Entrevistas da “Playboy”, artigos de “Status”. Quantas vezes me referi a estas preciosidades no blog?

Houve outra publicação que o acesso aos seus números mais antigos me foi importante na formação de leitor e de gosto musical: “Somtrês”. Nomes como Paulo Ricardo Medeiros (o Paulo Ricardo cantor, autor, também por esta época, das revista pôster lançados pela Ed.Três), Ana Maria Bahiana, José Emílio Rondeau, José Augusto Lemos  (estes dois leria muito na futura revista “Bizz”) e o ídolo (desde então) Ezequiel Neves.

Havia na revista um nome que assinava  textos sobre discos de jazz (outro que escrevia a respeito na publicação: Ruy Castro) e de música brasileira  e que me forneceu muito do conhecimento que tenho a respeito: Zuza Homem de Mello. Era ilustrativo e não tão divertido (no sentido de engraçado ou excêntrico) que alguns outros  nomes da revista e, por esta razão, fui gostando do seus textos aos poucos. O jeito de conversa, de aula  dada com aluno e mestre sentados lado a lado; o autor conquistou este leitor pela suavidade e não pelo impacto. Meus dezesseis, dezessete anos não o sabiam figura importante; sabiam-no, porém um mestre, um conhecedor do que escreve, um compartilhador de informações. Pois não se poderia escrever textos como aqueles sem muito saber e sem muita paciência para leitor que se supõe inculto mas merecedor de obter informações.

Um texto em particular me ganhou, me impôs sua assinatura como a de alguém a considerar: a reminiscência de uma tarde chuvosa em São Paulo no final da década de ‘60. Caetano Veloso era o visitante, nesta tarde. O jornalista colocou itens de sua coleção para o então jovem cantor e compositor que era estrela de programas da TV. Lembro que entre os nomes citados, havia o de Billie Holiday. Talvez Chet Baker também. Arriscaria Miles Davis.

Li este texto, lembro aos leitores, no final dos anos ‘80; posso me enganar, portanto. Mas lembro da descrição que Zuza fez do jovem tímido, que só interrompia o silêncio para comentários rápidos após cada faixa e no momento de virar o disco.

Lembro sobretudo que Zuza terminava o texto apostando que muito do amor de Caetano Veloso por São Paulo teve início nesta tarde. Isto dito sem arrogância, sem falsa modéstia também. Um micro ensaio, uma crônica memorialística em um espaço onde não se espera, de ordinário, encontrar estes dois gêneros.

Se Caetano Veloso começou a ter São Paulo no seu mapa mental nesta tarde, ignoro. Asseguro que Zuza Homem de Mello ganhou um leitor atento e um admirador, eu, a partir deste texto. Quando soube de sua morte, foi desta página que me lembrei de imediato, de coração. E li dele muitas outras. Mas esta evocação de uma tarde chuvosa ouvindo jazz…

Com sua partida, o Brasil perde um dos últimos mestres, um dos últimos referenciais. Não parece que os homens que decidem as coisas no mundo da Imprensa tenham noção do desfalque deste material humano de qualidade. Que se faz para repor?  É ainda possível surgir críticos (em qualquer ramo) do tipo?

Não é o que tenho visto em portais e blogs. Há a ausência para as gerações mais novas destes parâmetros e isto me parece  (escrevo sobre este perigo desde a morte do Chico Anysio) um dos maiores desastres do Brasil: a expansão do seu deserto mental.

Que leiamos os livros e releiamos textos (procuremos nos sebos) em revista do Zuza Homem de Mello, pois. Só há ganho.

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“Notas” – 16/08/2020

O Martelo e a Taça – Um Inédito de Mariel Reis

( Escrito em 22/11/2019)

 

A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel.

 

Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do que pode ser a pintura à sua frente ou apenas um cálculo mental dos custos de uma viagem futura.

 

Os outros quadros, em uma ciranda, trocam impressões acerca dela que exigiu a cadeira em que está, encomendou a garrafa de vinho e trouxe consigo a taça acondicionada em uma valise. Nada parecia perturbá-la. Os cabelos longos em um coque deixavam entrever uma nuca bonita, seguida por ombros delicados e costas seminuas. Os seios marcavam o vestido leve, atraindo a atenção dos rapazes de um grupo escolar que transitava pelas outras alas.

 

Ela não parecia se incomodar com a curiosidade a respeito de seu corpo, sabia-se atraente, embora tivesse deixado para trás os quarenta anos.

 

Olhou o quadro uma outra vez com tamanha perplexidade que um dos monitores se aproximou com a intenção de esclarecê-la acerca da pintura, da técnica empregada, da circunstância em que foi executada, da vida miserável do artista. Ela não foi receptiva ao gesto, mostrou-se enfarada, distraiu-se da fala com um gole do vinho caro. Levantou-se da cadeira, andou pela fileira ignorada de quadros, seguida pelo falatório do monitor. O vinho arrefecia a voz estridente do explanador, algum estagiário de História da Arte, sem nenhuma vontade real de lhe dizer qualquer coisa verdadeira acerca da pintura ou da técnica ou da vida miserável do artista, repleto de vontade de estar na praia, com a namorada, fumando um baseado nas pedras, aplaudindo o pôr do sol.

 

Ela deixou-se desinteressada diante de uma janela com vista para a baía, o mar acinzentado e o céu azul de poucas nuvens. Sem nenhuma voz por perto, ela retornou à cadeira, apoiou-se às costas dela, olhou o quadro à sua frente, sem evitar a sua forma geral como havia feito até ali. Suas impressões se reorganizaram acerca do que pensava anteriormente; a gentileza ruidosa do monitor quase precipitou um desastre interior interrompido por uma zona da pintura sem qualquer importância.

 

Ao mirá-la, ela, a madame, acrescentou mais vinho à taça. Lembrou-se de algo desagradável. Sacudiu a cabeça para enxotá-lo de sua imaginação. Os outros quadros mantinham-se estupefatos com a absorção com que ela se punha diante daquela pequena pintura que caberia muito bem em uma bolsa feminina como a dela. Os funcionários cochichavam a respeito da grã-fina. O expediente próximo do fim.

 

Ela levanta uma das mãos, acena para o segurança. Explica um problema em um dos sapatos, pede um martelo para consertá-lo. O pedido inusitado é encarado sem desconfiança, ninguém a acha perigosa. Só excêntrica. Recorrem ao funcionário da manutenção. O martelo lhe é dado. Ela descalça os sapatos, retira da bolsa um suporte. O tamanho é compatível com o do quadro observado apesar de embrulhado. Descalça, ela, de cócoras, fita a pintura com mais agudez.

 

A garrafa de vinho quase no fim. A taça e o martelo dividem o assento da cadeira. O embrulho em suas mãos. A madame pede a um monitor auxílio. Ele não desperdiça a oportunidade, retoma a falação. Ela pede silêncio, repassa o embrulho, logo aberto pelo monitor por insistência dela. É o mesmo quadro. A grã-fina mostra a nota fiscal. Uma fortuna. O martelo cresce em sentido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Notas” – 05/07/2020

Mariel Reis na “Machado”

“ Pawwlow, conhece a ‘Machado’?”

A pergunta de um leitor amigo levou-me à revista eletrônica “Machado”, nunca ouvira falar da publicação. E…não sabia o que estava perdendo; reportagens, quadrinhos, charges, traduções, entrevistas (uma com Neil Gaiman dividida em duas edições), ensaios, e textos originais (contos e poemas), todos bem ilustrados por artistas e impressos em cores (ah! o tratamento cromático da “Machado”…); capricho, dedicação. Não duvido que nas reuniões para a fundação da revista deliberaram entregar ao leitor revista eletrônica onde beleza e conteúdo formassem peça inteiriça. Uma preciosidade, a “Machado”; uma demonstração de carinho e cuidado, cortesia do editor Delfin.

Nos três números que vi, encontrei colaborações de escritor que venho acompanhando desde ano passado e sobre qual escrevi no blog, Mariel Reis.

São dois contos e uma peça em um ato, os três merecendo ocupar lugar em futura coletânea do escritor.

A peça, “Estamos Os Dois A Sós”, em um ato, retrata uma dupla de amigo – homem e mulher- que divide o aluguel de um apartamento de centro urbano no tempo presente. Nada que rime, ainda que se force muito a pronúncia, com glamour. Teresa e Carlos, os dois amigos que coabitam surgem cada um num cômodo. A Mulher na sala, o homem no quarto. O homem parece desejoso de dormir e a mulher entregue à contemplação dos famosos que têm suas vidas expostas em revistas.Gente que viaja para destinos exóticos e se hospeda em hotéis luxuosos e não divide apartamento, procurando o sono para enfrentar o dia seguinte. Gente bonita, gente de sucesso.

Mas a mulher acredita fazer parte do mundo da revista que folheia, protesta contra determinado final de noivado de uma atriz, já antevê o noivo procurando-a após ser dispensado pela noiva. O que irrita Carlos:

“Você é apenas uma empregada. Você varre, lava, passa e cozinha.Ou descobriu algum parente rico que deixou herança para a pobrezinha.”

(Mariel Reis na rubrica : “Teresa alisa o roupão como se o tecido fosse seda e estivesse vestindo um manto real”)

E batem à porta. E é o personagem da revista. E disposto a retomar o romance com a habitante do apartamentinho. Resta ao coabitante declarar para o astro;

“Eu moro aqui com ela.”

A certa altura, Carlos diz: “Alguém precisa decidir. Estamos ou não dormindo?”

Pois logo depois chega noiva da revista para buscar o amor de Carlos enquanto Teresa se resolve com o astro.

O dia surge, Carlos e Teresa abraçados um ao outro, na mesma cama; fora tudo um sonho, receberam visita? Por que não conversar sobre o evento?

Teresa, pragmática, fecha a peça:

“Não. É melhor levantarmos, senão nos atrasamos para o trabalho.”

Não é a vida de milhões, o sonhar acordado com celebridades, enquanto empilhados nas grandes cidades, padecendo o inferno na vizinhança medíocre, nos transportes urbanos superlotados, nos empregos sem futuro, nos casamentos condenados?

Com os fatores da sobrevivência e as multidões dos devaneios, apaga-se a luz.

Isto dito por Mariel como numa comédia romântica, sem mentir sobre o que significa no dia depois de dia procurar pela Felicidade.

Os dois contos estão, sem qualquer favor, entre os melhores de sua produção de alguns livros e outras tantas revistas e blogs pela internet: “O Erotômano Imperfeito “ e “O Sonho”.

No “Erotômano”, Mariel começa por traçar o painel do subúrbio de forma bem humorada, com pinceladas breves, quase um guia para o leitor do seu chão, no feitio do Manuel Antônio de Almeida no “Memórias de Um Sargento de Milícias”:

“Minha mãe não largava do meu pé, dizendo para eu arrumar uma garota, acabar com as reuniões que se estendiam até altas horas da noite, com a presença daquelas mulheres de papel, de dois amigos que traziam também as suas e de uma menininha safada do quarteirão fronteiro da casa ( …) Porque a parada era dura com as meninas e elas só tinham uma coisa em mente: casar. Um pirralho como eu, casar? (..) Nas brincadeiras de médico eram generosas : ofertando para consulta suas partes ocultas para injeção, curavam-se do mal que as afligia.”

Evolui para o retrato psicológico e terno do Machado de Assis das primeiras páginas do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: (…) porque essa história tem a ver com a primeira vez e a maneira inesperada como encontrei o meu amor, mesmo sendo o primeiro (…) a vida é ensaio para inúmeras respostas que não se concretizam, como a própria existência é um ensaio inacabado”. Sobre a locação da história, Mariel registra, também machadiano, “nesta cidade, nigérrima e triste. Triste como uma noite que não se orgulhasse de suas estrelas, nem de sua luz emitida por constelações distantes, por planetas quem sabe até mortos”.

O conto é pontilhado de reflexões marielísticas que inspirariam elogios de Machado: “é barato ser bonito hoje em dia: é só ter um limite de cartão de crédito muito alto e o conhecimento de um bom cirurgião”, “os animais quando estão no cio se amam em algum grau?”, “ Mulheres arrancam assuntos dos motivos mais inesperados, quando menores parecem vir de algum lugar escondido, como aquele jardim secreto que só elas visitam.”

Como machadiano é o desenvolvimento do enlace amoroso dos dois adolescentes de bairro: “Valentina me mostrou o caixãozinho do passarinho de estimação (…) só queria mesmo ampará-la, tê-la quieta como o passarinho que enterramos na praça perto de casa. Quando acabou o enterro, ela me beijou (..) Talvez fosse mesmo o amor, seguido sinistramente pela morte, rastreado no peito de um sacana como era eu, naquele dia mal iluminado da minha pré-adolescência.”

O fim nos leva ao Nelson Rodrigues de “ A Vida Como Ela É”:

“Mas um dia cruzei com Valentina em uma das ruas do centro – já mulher e com filhos.Tinha cicatrizes pelo corpo, estava morando em uma dos bairros mais distantes, casada com um sujeito ciumento, que toda vez que cismava que a sua preta estava dando mole para alguém, a marcava com a brasa do cigarro (..) A carne é triste (…)”

A vida sentimental registrada como homenagem aos grandes da literatura, condensados por um autor dos dias da literatura como exercício consciente de releitura e metalinguagem.

“ O Sonho” é dos grandes momentos da ficção de Mariel Reis, não é exagero supor que ele esconde uma novela ou romance em suas poucas páginas.

Um narrador onisciente acompanha o desembarque de um sujeito de um táxi e sua requisição de um quarto de hotel, onde dorme, após certo esforço em lidar com sua realidade cansada e com o ambiente inóspito.

Pois tudo é espinhoso no hotel: o tratamento dado como a um velho, o recepcionista, “homem com uma cor de pele acentuadamente negra” que lhe trazia “recordações incômodas”. Bom, mesmo chegar ao hotel não fora agradável, pois suspeitando do taxista durante a viagem. O corpo, embora transportando mente lúcida e alerta, lembra como estocada certeira na mente a finitude. “Lentamente experimentou o peso do corpo em cada um dos degraus, parava como se esperasse a qualquer momento a construção ruir.” Mesmo o hotel, como edificação, parecia-lhe um adversário: “A porta escura do aposento custou a entender que ele forçava passagem, tendo então que empurrá-la com violência para abri-la.”

E esta é a realidade do personagem desperto.

O mergulho de olhos fechados exibe a perda brusca de alguém muito querido, perda inegociável com o cobrador do Tempo. As lembranças da vida feliz em família; o saldo positivo dos filhos, as festas, a celebração do que se ergueu junto. Tudo um sonho, um sonho preparatório para o Pesadelo da vida real; ausências, saudades, espera entre resignada e ansiosa da Morte.

“Devia ser um sonho (…) Não era esse o trato.Deus não me deu ouvidos (…) Não tinha o direito. Disse a Ele que estaria sempre à disposição, custaria menos levar meu corpo cansado. Ele não me deu ouvidos. Caprichoso. (…) Deus trapaceou, meu filho custa a entender, trapaceou. (…) Se ela estivesse aqui não me deixaria cometer uma heresia dessas. Bateria na minha boca”.

Foi um sonho desagradável fruto de uma viagem também desagradável?

“Agora aguardo a ansiosa visita, tenha o rosto que for.Não me importa. Se dura ou caroável.(…) Sim, a vida não passa de um sonho.”

Como no “Erotômano Imperfeito” e na peça em um ato “Estamos os Dois…” o que Mariel não conta dos personagens é imaginável, senão visível pelo leitor, do que aparece em cápsulas. Nos três textos, escondem-se páginas e páginas. O contista competente é um fabricante de cápsulas poderosas, um miniaturista minucioso. E “O Sonho” é cápsula que acompanha o leitor após cada releitura, e a miniatura convida sempre para mais uma releitura e mais uma…releitura depois de releitura algum pormenor se exibe mais nítido.

Bom, aos leitores desejosos de mais textos do Mariel Reis recomendo procurar na internet seu material disperso nos blogs e revistas eletrônicas.

E recomendo, uma vez mais, seu twitter, onde Mariel Reis não joga leve: reminiscências, reflexões políticas, culturais e mesmo ( ou sobretudo) metafísicas. Sempre mostrando que ao opinar sobre qual assunto for, leu mais de uma corrente de pensamento a respeito.O que torna seu twitter espaço inteligente e exigente (não é leitura para incultos resolutos ou vítimas de preguiça mental em estado grave); exceção notável entre tantos tuiteiros que exibem seus chavões “espertos” e cultura de quarta capa de livro.

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“Notas”- 24/05/2020

Sobre Lei da Gravidade na Política

 

“Caindo a Dilma, o resto será consequência, o lulopetismo se derreterá por si”.

Li afirmações do tipo nos dias pré-impeachment de Dilma Rousseff colunista depois de colunista, li também este raciocínio no coral dos comentaristas. Veio o impeachment (que este blog nunca comemorou ou viu nele algo de produtivo) e o PT robusteceu-se e desafiou tetos durante todo o mandato de Michel Temer. A tal consequência lógica não veio.

A luta seguinte foi pela prisão de Lula, a qual eliminaria a candidatura que liderava pesquisas. Não comemorei esta prisão, e escrevi sobre o que considerei improvisado no episódio; Lula fazendo do ato da prisão um comício desmoralizante. A prisão de Lula criou polaridade que beneficiou Jair Bolsonaro;  não tanto por ele,  mais pelo que o candidato da casta acadêmica (e por óbvio do PT e do Pós-PT) propunha ou pelo que colocava como antagônico ao que milhões de brasileiros desejavam: combate à criminalidade, adoção do ponto de vista (ou como preferem alguns , ”lugar de fala”) das vítimas. Mas fosse outra Esquerda (mais sensível às vítimas – e bem menos  “lacradora”- e mais crítica aos dogmas da casta acadêmica) quem garantiria que a polarização filha da prisão de Lula não a beneficiaria?

Lula  solto perde relevância; quando preso, era o mártir. Este capítulo bastaria para negar a dita lógica das consequências infalíveis que dispensam esforços. Não?

Muitos dos apoiadores de Bolsonaro (ainda que apoiadores apenas por aversão ao PT e ao Pós-PT) parecem ainda acreditar que a Lei da Gravidade na Política pode substituir esforços e exercícios de aprimoramento.

“O Povo (ah, essa fantasia!, o que há é a Massa) não quer mesmo a volta do PT. Não adianta tentarem colocar a culpa das mortes pelo Coronavírus no Governo Federal, pois a população está se revoltando, dia depois de dia, contra prefeitos e governadores.”

Sim, mas há cada vez mais quem responsabilize Bolsonaro pelos episódios desta pandemia que causam escândalo (como prisão de pessoas em espaço aberto, sem aglomerações e soltura de estupradores e latrocidas), gente que se pergunta por que, afinal,  votou nele.

Estas pessoas estranham a ausência de maiores pronunciamentos  (não se cometa o erro de considerar lives em redes sociais e canais de vídeo como  pronunciamentos, sim?) e mesmo denúncias no plano internacional sobre ditaduras municipais e estaduais. A Lei da Gravidade não está se confirmando; a crença de que entre o Governo e possíveis alternativas, o Governo seria sempre a opção escolhida se ainda tem fundamento, não confirma a  Lei da Gravidade na Política, a Oposição não vem diminuindo. O Governo vem colecionando desertores dia depois de dia e mesmo entre os que ainda reafirmam o voto, a disposição de defendê-lo parece diminuir.

Afinal, o mais apaixonado partidário acaba por se perguntar se não está lutando mais que beneficiários diretos do Poder; blogueiros vizinhos do Poder estarão formando redes de apoio? Combatentes de redes sociais estão à altura do desafio?

Leitores me cobraram pelo texto passado, que afinal quis dizer? Estaria culpando o Governo pela campanha que sofre? A vítima teria toda culpa e não os algozes?

Bom, o desafiante tem que lutar mais que o detentor do cinturão…Bolsonaro parece ter subestimado o grau de violência que sua mera existência como candidato despertaria; “eu ganhando e contando com os apoios que surgem dia depois de dia…governar será simples consequência”. A Lei da Gravidade encarregada, por este raciocínio, do trabalho que deveria ser realizado por institutos de estudos políticos, partidos formados a partir dos institutos de formação política, mais as redes de blogueiros e comentaristas. Trabalho também realizado com matéria do tempo. Não, não levaram em conta que arrivistas e entusiastas de ocasião não formam a massa compacta que uma guerra do tipo exige e o resto tem sido o que vemos: um presidente sozinho cercado de alguns bem intencionados que também não contam com muita artilharia. E desta constatação sombria surgem as combustões como as demonstradas na reunião ministerial.

Ah! o vídeo da reunião ministerial…como se falou palavrão ali…jornalistas saídos de meios sociais  onde a linguagem deve ser a mais puritana, não? O cinismo de  jornalistas exibindo modos de beatas avistando obscenidades berradas em muros não escandaliza e isto me parece o escândalo dos escândalos. A desfaçatez com que se trata o leitor como débil mental é tomado como uma mera obrigação. Não se percebe o grotesco, isto diz muito.Ou deveria dizer. Na verdade, um item a mais a ser desperdiçado por pretensos observadores.

Ou observadores que se acreditam de Oposição imaginam que as pessoas que estão ocupadas imaginando como reinventarão a vida após a destruição da economia farão este trabalho por mera consequência, como uma Lei da Gravidade que desmoralizará por si estes puritanos da hora?  “Ah, para quê? todos estão vendo mesmo”, o refrão que todos que desejam não enfrentar o serviço entoam.

Vejo alguns lamentando Felipe Neto no “Roda Viva”… ora, como disse Arthur do Val, Felipe Neto tem relevância ainda que lamentemos tal relevância; que fizeram muitos dos que protestam contra a escolha da TV Cultura para entrevistado no sentido de promover (como liberais, em primeiro momento, e esquerdistas agora) seus talentos em polêmicas como se promoveu Felipe Neto? Qualquer um com milhões de seguidores em redes sociais merece,  sim,  uma matéria e uma entrevista. Não se movimentaram para promover polemistas que pudessem ser adversários das malícias e simplificações do pensador político do YouTube.

Ou imaginaram que uma Lei da Gravidade se encarregaria de derrubar Felipe Neto das alturas numéricas apenas com o exame ligeiro de suas fragilidades? Mesmo porque, repito,  não se trata de derrubá-lo ou arrebatar seu público, mas de criar público para os que poderiam ser uma possibilidade de alternativa. E isto, este esforço, não tenho percebido.

Promoveu-se, no lugar de combatentes formados em institutos próprios, aventureiros que demonstraram empolgação combinada com preguiça intelectual, e destes aventureiros vieram as decepções mais pungentes. E queixam-se agora dos milhões de seguidores de Felipe Neto e da recepção dada a um fenômeno de público?

Como escrevi no texto anterior, “não que não tivessem um plano B, não tinham plano A”…

O presidente mandar menos que prefeitos e governadores (e ser desafiado pelo STF sempre que a oportunidade aparece)  é mera consequência de um exemplo da Lei da Gravidade aplicada pela natureza da Política, não pela ação dos seus inimigos.

Como gostaria de estar errado… não poderei deixar o Brasil quando este sonho alcançar o chão, puxado pela Lei da Gravidade.

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“Notas”- 17/05/2020

Sobre o Coronavírus e o Pós-PT

Não tenho escrito no blog; que diria que não fosse repetição dos lugares comuns mais em uso? Não há muito a dizer, exceto lamentar os mortos, e advertir contra a miséria que só começará ser contabilizada quando a vida voltar ao que se conhece por “normal”, causada por uma quarentena que não tem sido capaz de deter o avanço do vírus..

Há quem garanta que muita morte tem sido contada como decorrente do vírus sem o ser, e como não sou médico, nem disponho dos dados, prefiro não ecoar as acusações.Mas é nítida a utilização destas mortes como arma política. Seriam os membros da casta acadêmica e agregados tão prontos a acusar o Governo fosse este algum de seu agrado?

Não se observaria que o Governo foi, como em muitos países, pego de surpresa? Não se advertiria contra abuso de simplificações e dedos em riste?

Mas como meu pai me ensinou, ”não há ‘se’ em História”; Jair Bolsonaro teve a absoluta má sorte de ser o Presidente  quando da visita deste pesadelo de mortes às centenas por dia.

Fosse um Governo mais enérgico (e menos teatral) talvez não fosse tão cuspido, tão alvo de toda tentativa de desmoralização. Bolsonaro chamasse a Imprensa logo após a decisão do STF dando aos estados e municípios autoridade absoluta no tratamento da pandemia e comunicasse que seu mandato acabava, por esta decisão, de ser anulado e assim as eleições, muito do que se viu de prisões de cidadãos (e soltura de condenados) e exibições de autoritarismo de prefeitos e governadores não teria sido inibido? Mas não houve este gesto de energia, Bolsonaro continuando o mandato como se este não houvesse sofrido uma mutilação de autoridade. E o que muitos estão sofrendo no Brasil é consequência, apenas,  desta decisão de continuar o jogo como nada de anormal tivesse ocorrido.

(Escrevi sobre este feitio de Bolsonaro logo no início do seu mandato; acusações de que teria fabricado o atentado não sofrendo qualquer processo ou protesto mais  enérgico do seu grupo; “o que vem de baixo não atinge” parecendo ser o lema)

O Pós -PT (o sistema substituto do sistema do PT e associados, sistema formado pelo próprio PT, mais PSOL e PSDB e siglas associadas) soube perceber nesta pandemia e na resposta tardia do Governo a oportunidade de adiantar o relógio histórico; nada de esperar pelo fim do mandato e pelas próximas eleições, o impeachment por toda sorte de pretextos (de suposta sonegação de exames presidenciais a “quebras de isolamento”) figurando como item obrigatório nas discussões do futuro político imediato.Não é obrigatório o senso de ridículo nesta corrida ao Poder.

Colunistas simpáticos tanto ao PSOL quanto ao PSDB não disfarçam o tom hostil aos eleitores de Bolsonaro;  “gado”, “idiotas cúmplices de um genocídio”, “assassinos”, “imbecis”: a cobrança por estes eleitores terem demitidos jornalistas e gente do mundo dos espetáculos da função de conselheiros eleitorais sendo apresentada sem maquiagem.

Alguns destes colunistas vindo de cobranças recentes por suas ligações com o PSDB compram assim também seu ingresso na realidade do Pós – PT.

Não deixam de escrever textos divertidos; suas visões de mundo (sobre isolamento,por exemplo) ilustrativas da experiência de mundo através das bolhas sociais a que pertencem me arrancam gargalhadas; evito lê-los nas horas avançadas.. Nada que exista fora do limite dos bairros grã finos que habitam é imaginável por estes cronistas de amenidades: pessoas “furando a quarentena” por ausência de empregados ou falta de dinheiro para pagar taxas de entregadores ou por necessitarem trabalhar, por exemplo. Personagens de novela de Manoel Carlos que são, não imaginam o que é confinamento em apartamentos exíguos ou barracos. Ora, se eles podem suportar do alto de suas coberturas o isolamento…e inspirados pela contemplação do que imaginam ser o universo dos “insensíveis pelo sofrimento alheio” cometem mais um artigo. Cometem muitos, dia depois de dia.

Claro que me divirto imaginando alguns destes colunistas oferecendo aos comissários do futuro estes textos ofensivos (quando não ameaçadores. Alguns destes colunistas escrevem como que promotores de um tribunal vindouro; imaginam cobranças históricas, asseguram que “com fascistas não há diálogo”, etc) aos eleitores de Bolsonaro como prova de que não são os “coxinhas do PSDB”que militantes do PT, PC do B e PSOL decerto os acusarão de ser (“acham que esquecemos o que vocês escreveram contra Lula, contra o PT? Vocês também são culpados disto aí, he, he”) .

(Dos artistas nada cobro, nada espero. Cobrar de gente com pouca ou nenhuma leitura, escrava do juízo da categoria sobre si, dócil aos mandamentos da casta acadêmica, opiniões individuais e reflexões, me parece estupidez. “Fique em Casa”, o mantra dos que percebem a realidade filtrada pelos óculos da classe. Muitos deles talentosos e com as intenções mais inocentes. Cobrar de artista análises e qualquer racionalidade é ridículo; grotescos são os que se enfurecem com habitantes de sonhos)

O Pós-PT se anima a pular anos de espera por ter percebido a massa indefesa diante do Estado e dos setores organizados. Como rato que vira corajoso ao se perceber temido.

O que o Pós-PT contempla de rendição duvido imaginasse possível, ou tão antes da hora,e muito da fúria que exibe em seus delegados sem dúvida vem desta percepção,deste susto agradável. O Sistema de Poder do PT e associados exibe mais calma,sabe que a opressão do Pós-PT o exibe benévolo e futuro (quando o Pós-PT se esgotar) beneficiário da boa vontade da população. Os adversários sinceros destas Esquerdas nada terão a colher, a massa os acusará, com muita razão, de ser a culpada; não que não tivessem um plano B, não tinham plano A…

Pois se cada um tornou-se fiscal implacável de grau de ajuste de máscaras e distância entre pessoas nas filas ao mesmo tempo que se mostra temeroso de emitir qualquer ponderação ou questionamento (como questionar os ônibus que circulam com janelas fechadas e ar condicionado,como muitos aqui em Belo Horizonte, por exemplo) é por comodidade ou sobrevivência. O cidadão comum não pode lutar o que agentes políticos ou formadores de opinião com algum prestígio e Poder não lutam, simples.

O Pós – PT está dominando este momento por ter se preparado, esta é a verdade, e os que não julgaram necessário se preparar para situações inesperadas na verdade não julgaram se preocupar com coisa alguma. E se os leitores desejam saber minha opinião, duvido tenham aprendido algo.Não noto nos adversários do Pós-PT sequer a identificação do seu trabalho, quanto mais algum esforço coordenado para enfrentá-lo.

Se o governo Bolsonaro acabou? Ninguém tem a resposta. Comunicar-se mais,  estabelecendo diálogo mais franco com a população talvez seja o (único?) meio de sua sobrevida. Confessar perplexidades, admitir falhas, anunciar com alguma competência as medidas de combate ao vírus. Mexer-se mais, abandonar as cordas, enfim.

Todos ganharíamos.

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“Notas”- 29/03/2020

Sobre lições de jornalismo por Elio Gaspari

Este não é um blog sobre novidades; pode conter reflexões sobre algumas, mas é onde minhas notas nos cadernos mais aproveitáveis são publicadas. Qualidade segundo meu padrão, este o critério. Logo notas sobre palestra de Elio Gaspari (mediada por André Petry) aos estudantes de Jornalismo (“Jornada Galápagos”) em Outubro (ou publicada no YouTube em Outubro) não serão extravagâncias.

Como observou Petry aos estudantes, aquela seria ”oportunidade de ouro” pelo fato de Gaspari não dar entrevistas,palestras, etc…mas Gaspari tem uma entrevista-palestra (disponível no YouTube) no Décimo Congresso da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e uma mini palestra de cerca de vinte minutos no Nono Congresso da mesma associação (também disponível no YouTube), logo..

Mas…vamos considerar algo não rotineiro. Servir raridades ou semi raridades a quem não sabe estar diante de uma não adianta muito, sim?  Pois tanto nas palestras da ABRAJI como neste encontro (“Galápagos”), os ouvintes riram de tiradas já conhecidas de quem quer que tenha lido os perfis de Gaspari  publicados na revista “Imprensa” (dois textos de autoria de Zuenir Ventura) e histórias já contadas no “Notícias do Planalto” de Mario Sergio Conti. Ou mesmo passagens e ditos engraçados constantes das duas outras palestras de Gaspari.  As perguntas e questionamentos são denunciadores do pouco conhecimento sobre a “raridade” que os estudantes tinham diante de si.

Elio Gaspari é um jornalista da maior importância e um dos últimos gigantes ainda vivos e em atividade, isso não se pode discutir. E estudantes perguntarem apenas sobre questões da política atual, não manifestando curiosidade sobre sua passagem pela “Veja” e pelo  “Jornal do Brasil”, mostra que a noção de relevância vem se perdendo; as perguntas que fizeram ao jornalista lendário poderiam ter sido feitas a qualquer um outro jornalista.

Elio sabe entreter plateias jovens e nada exigentes (quem pode exigir algo do que se conhece pouco ou nada?), com suas observações sobre a Lava Jato e sobre Sérgio Moro. Uma geração formada para ser “agente de transformação social através dos meios de comunicação”quer ouvir críticas ao que acreditam ser ”Direita” e tudo que tiver o selo de “Aprovado” pela casta acadêmica, e Elio soube servir o cardápio.

Nada de profundo, nada de questionar dogmas. A quebradeira das empreiteiras como sendo consequência da Lava Jato e não da economia que vitimou não apenas as empreiteiras, um exemplo. A lembrança, em tom desolado, sobre as críticas que as cotas raciais receberam (como se questionar cotas fosse atestado inquestionável de racismo e insensibilidade, quem sabe um crime, decerto uma aberração) de grande parte da Imprensa, outro.

Mas um homem experiente sabe com quem fala;  houve estudante (de Belo Horizonte, se não estou enganado) na plateia que questionou se todas as notícias devem ser dadas, se noticiar tudo não serve a interesses …sem qualquer observação por parte de Gaspari ou de Petry de que o estudante estava defendendo, em outras palavras, censura.

E Gaspari tentou ensinar o que não se ensina: como lidar com pessoas que, no caso, são fontes. Ora, isto ou o sujeito sabe, ou não sabe – e aprende, como ele aprendeu, como no episódio com Francisco Campos –  ou não aprende e morrerá sem saber. Não tratar a fonte como inimigo a quem se interpela em tom de comissário político ou como a um tolo que se pode tapear sem susto (e não permitir ser tapeado pela fonte, como Gaspari também observou. Saber cortar contatos ou estabelecer limites).

Isto é sabedoria, e sabedoria não se ensina. Como um militante que se tem na conta de “agente de mudanças” poderá tratar a fonte com respeito? Como um jornalistazinho que julga poder decidir o que deve ou não deve ser notícia segundo critérios pseudo políticos saberá extrair de sua fonte tudo o que ela pode, ainda que como hipótese, oferecer?

(Gaspari fosse na sua juventude como um destes Comissários do Povo de café literário teria feito a entrevista envolvida em texto extenso e  muito bem escrito, com Filinto Müller na “Veja” – matéria de capa, início dos anos 70 – na qual procurava analisar o personagem sem moralismos e contextualizando sua atuação no Estado Novo?)

Gaspari citou  (como citara na ABRAJI) os exemplos históricos da cobertura do assassinato de John Kennedy e do jornalista que “furou”a imprensa mundial em 1945 noticiando o fim da Segunda Guerra  Mundial como paradigmas do jornalismo. Bom…podem até ser, mas penso que jornalistas brasileiros devem colher da História do Brasil e da Imprensa brasileira seus parâmetros no ofício. Ou aqueles jovens escreverão para público norte americano sobre política norte americana? Ora…eles, os norte-americanos, têm os seus …

As coberturas dos momentos da História do Brasil têm seus épicos, não? Não temos as campanhas do Passado que chegaram até os dias atuais pelos livros, por coletâneas de artigos? Mesmo as compilações de discursos parlamentares dos grandes nomes da História brasileira servem, como artigos do próprio Elio brindando lançamentos editoriais sobre  História do Brasil (lembro quando Elio escreveu artigo sobre o lançamento de cds com discursos parlamentares) o confirmam.

Em outro ponto Elio confessa ler  livros apenas na versão eletrônica, ele que teve biblioteca de livros impressos que ocupavam um apartamento (a “Malan”). Elio pode se dar a esta escolha (que considero péssima, apaixonado que sou por livros e frequentador assíduo de sebos), mas ele deveria ver que ali em sua frente estava porção de jovens necessitados de leituras e releituras e de adquirir o hábito de frequentar sebos. Isto, mestre Elio, só pode ser feito com impressos; não acredito que eletrônicos tenham todos os títulos já publicados e ofereçam releitura como o material físico. Sebos… de eletrônicos… Não é possível que ele não tenha notado em muitos ali vocabulário restrito que denuncia leitura apenas acadêmica e ocasional. Eu em seu lugar teria dito: eu me dou  este tipo de leitura apenas, mas a contra recomendo aos que precisam estudar, e estudar muito.

Ele não era o professor daqueles jovens mas eles foram ali em busca de algum conhecimento adicional, ainda que sem a noção do que de fato precisam aprender e precisam perguntar. Lembro de palestra que fui do Zuenir Ventura (na Universidade Federal de Viçosa) onde ele corrigiu uma estudante, observando que sua pergunta era impertinente e imprecisa. É o preço de sentar numa cadeira e ser ouvido com reverência, não?

Pois suas histórias sobre reportagens e conselhos sobre evitar obviedades e não deixar de alimentar a curiosidade são agradáveis de ouvir, mas inúteis aos que procurarão fatos para reportar sem prévio conhecimento de seus temas ou cultura geral mínima.

O conselho deveria ser: “leiam, releiam, nunca fiquem no conhecimento superficial de um assunto. A curiosidade se alimenta de dados do Mundo; Mundo que não foi inventado com o nascimento de vocês. Vocês fazem parte de um elo histórico; compenetrem-se deste papel de continuadores de uma tradição de grandes jornalistas.”

“Mas ele recomendou livros!”

Verdade. Recomendou e o canal que publicou a palestra  (“Galápagos Newsmaking”) fez mesmo um vídeo só deste pedaço, no qual ele recomenda livros. Segundo Gaspari, “vocês tem que ler em inglês, é essencial ler em inglês”. Bom, muito material importante e muita novidade de fato só se lê em inglês, mas penso que o conselho deveria ter sido: “leiam os clássicos do idioma português, pois é nele que vocês deverão se expressar e expressar de maneira a fazer o leitor querer aprender mais sobre o que você escreveu. Ler clássicos do pensamento  político ainda não traduzido do inglês para o português é importante, mas se vocês não dominarem o idioma, mesmo este conhecimento servirá de pouca coisa.”

Livros? Esperava ouvir:

“Leiam, sem hesitar, tudo que caírem em mãos de compilação de escritos dos grandes do Jornalismo, leiam muito as crônicas do Nelson Rodrigues, se puderem leiam todo o ciclo de crônicas do Carlos Castello Branco agrupados nos volumes  (da Ed.Nova Fronteira) ‘Os Militares no Poder’. ‘Depoimento‘ do Carlos Lacerda, sem sombra de dúvida. Assim como recomendo que vocês procurem sem descanso a série de entrevistas realizadas pelo ‘O Estado de S.Paulo’, ’A História Vivida’. Crônicas do Carlos Heitor Cony, sobretudo as reunidas em ‘O Ato e o Fato’. O que encontrarem do Paulo Francis levem para casa e devorem sem medo de repetir o prato, assim como devem adotar sem medo a dieta Rubem Braga, qualquer das suas compilações de crônicas vale cada centavo. David Nasser, digam o que quiserem (mesmo que com razão) seus críticos, também é autor a se conhecer, a mergulhar. Ah…tantos…Joel Silveira, sobretudo a compilação ‘Tempo de Contar’, de preferência a terceira edição, revista e ampliada  (José Olympio Editora). Mas há dois livros que considero mesmo fundamentais aos que estão estudando o ofício e precisam de um guia sobre redações e macetes sobre fugir dos erros mais primários: ‘A Língua Envergonhada’ do Lago Burnett, de preferência se vocês encontrarem a edição ‘revista e aumentada’ da Ed.Nova Fronteira. Este livro tem observações sobre as redações,modismos estúpidos e até mesmo uma espécie de manual de redação. O sujeito foi um dos grandes nomes na fase de ouro do ‘Jornal do Brasil’. Outro que considero inevitável e incontornável é ‘A Regra do Jogo’ do Cláudio Abramo (da Cia das Letras), jornalista importante n ‘O Estado de S.Paulo’ e na ‘Folha de S.Paulo ’; assino embaixo de muito do que ele diz sobre a necessidade do jornalista ter cultura geral  (para não se acreditar crítico quando se é apenas um repetidor de clichês sub ideológicos) e conhecimento dos clássicos da Literatura, sobretudo os do idioma em que se escreve.”

Mas quais livros Gaspari aconselhou (dos disponíveis em Português)?

A tradução de “O Reino e o Poder”  do Gay Talese, sobre o “New York Times” e… “Notícias do Planalto” do Mario Sergio Conti sobre a imprensa brasileira (e como ela agiu durante a eleição de 1989 e o consequente Governo Fernando Collor).  Ambos livros importantes, sem dúvida….mas que um jornalista que ignora a história de seu país e sua Imprensa poderá colher em um livro sobre jornal de país de realidade em tudo diferente da brasileira? E não seria digno de críticas um jornalista recomendar livro onde em cada página em que seu nome é citado, este o é de maneira elogiosa? Seria mais compreensível e defensável que Gaspari recomendasse, sem modéstias estúpidas e hipócritas, seus livros sobre o Ciclo Militar. Pois são também livros que considero (que quase todos, ou todos, consideram) obrigatórios em bibliotecas de jornalistas.

Ali, recebendo estes conselhos, estavam futuros fazedores de jornais e revistas.

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