“Notas” – 18/10/2020

Sobre Eddie Van Halen

Iggy Pop, em uma entrevista à revista “Bizz”  (José Emílio Rondeau?), declarou ter se inspirado muito mais em pintores, escritores e ditadores que em músicos. Também sou assim; atletas, cineastas, políticos (ditadores ou não) e músicos me inspiram a escrever muito mais que escritores. Sobretudo músicos. O senso de disciplina e o aprimoramento constante no ofício me servem como lembretes; muitas vezes lembretes amargos

“Quanto tens praticado? A mão doendo de tanto escrever? Quantos cadernso de rascunho já consumidos até as capas? A caneta já inteiriça ao braço e mão?”

Sim, músicos me inspiram mais que colegas de ofício, mesmo porque muitas grandes estrelas do mundo da música são, na sua maioria, mais simpáticos e humildes que qualquer subliterato e sub intelectual de café.

A morte recente de Eddie Van Halen me enviou ao início dos anos ‘80,  começo também de minha adolescência e enraizamento de muitas das minhas obsessões. Meu irmão ano e meses mais velho já tocava sua guitarra e comprou número dedicado ao Eddie Van Halen de série de revistas dedicada a guitarristas. O clip de “Jump” nos programas de TV pré MTV Brasil exibiam o músico jovem e sorridente extraindo seus sons como que brincando apenas. A tal revista mostrou, em seus depoimentos, o que havia por trás de uma aparente facilidade humilhante: esforço, domínio da técnica obtido por  estudo obsessivo da técnica de outros guitarristas, horas de prática e absoluta paixão pelo ofício.

Líamos e relíamos  (eu, meu  irmão e colegas de bairro e fixação por rock) a tal revista até que ela se tornasse inaproveitável pelo manuseio. E nosso círculo soube assim que instrumentos e mesmo equipamentos (como pequeno amplificador) eram transportados pelo guitarrista mesmo ao banheiro. Que eram referidos como “minha criança preciosa”. E talvez tivéssemos, alguns de nós, a primeira lição sobre ser relevante admitindo dívida aos mestres do ofício, pois eram muitas as referências à sua adoração por Eric Clapton.

E era o sujeito do solo de “Eruption”, da participação em “Beat It” do Michael Jackson, das faixas divertidas dos discos do seu grupo, Van Halen. Tudo executado como quem brinca, tudo sem afastar a expressão de menino travesso (expressão que o acompanhou até os dias de barba e cabelos grisalhos).

Minha geração pode ter o orgulho de ter sido contemporânea deste artista gigantesco. As homenagens recebidas pelos artistas seus contemporâneos nas redes sociais não permitem dúvida sobre sua relevância. De Steve Vai a Patti Smith que o vislumbrou “into the celestial realm where all is music”, muitos reverenciaram sua pessoa e tudo o que significou desde seu surgimento no final da década de ’70.

Eu por meu lado, terei sua lembrança como um cobrador sobre os ombros no cumprimento de obrigações com meu instrumento.

“Afinando a caneta, Pawwlow? Gastando cadernos, Pawwlow?”

Sobre Zuza Homem de Mello

Tive a ventura do acesso às revistas de anos anteriores ao meu tempo de leitor. Minha adolescência pegou estas publicações ou já decadentes ou ainda boas, mas distantes do que foram. Sebos e  colegas mais velhos me valeram então. Entrevistas da “Playboy”, artigos de “Status”. Quantas vezes me referi a estas preciosidades no blog?

Houve outra publicação que o acesso aos seus números mais antigos me foi importante na formação de leitor e de gosto musical: “Somtrês”. Nomes como Paulo Ricardo Medeiros (o Paulo Ricardo cantor, autor, também por esta época, das revista pôster lançados pela Ed.Três), Ana Maria Bahiana, José Emílio Rondeau, José Augusto Lemos  (estes dois leria muito na futura revista “Bizz”) e o ídolo (desde então) Ezequiel Neves.

Havia na revista um nome que assinava  textos sobre discos de jazz (outro que escrevia a respeito na publicação: Ruy Castro) e de música brasileira  e que me forneceu muito do conhecimento que tenho a respeito: Zuza Homem de Mello. Era ilustrativo e não tão divertido (no sentido de engraçado ou excêntrico) que alguns outros  nomes da revista e, por esta razão, fui gostando do seus textos aos poucos. O jeito de conversa, de aula  dada com aluno e mestre sentados lado a lado; o autor conquistou este leitor pela suavidade e não pelo impacto. Meus dezesseis, dezessete anos não o sabiam figura importante; sabiam-no, porém um mestre, um conhecedor do que escreve, um compartilhador de informações. Pois não se poderia escrever textos como aqueles sem muito saber e sem muita paciência para leitor que se supõe inculto mas merecedor de obter informações.

Um texto em particular me ganhou, me impôs sua assinatura como a de alguém a considerar: a reminiscência de uma tarde chuvosa em São Paulo no final da década de ‘60. Caetano Veloso era o visitante, nesta tarde. O jornalista colocou itens de sua coleção para o então jovem cantor e compositor que era estrela de programas da TV. Lembro que entre os nomes citados, havia o de Billie Holiday. Talvez Chet Baker também. Arriscaria Miles Davis.

Li este texto, lembro aos leitores, no final dos anos ‘80; posso me enganar, portanto. Mas lembro da descrição que Zuza fez do jovem tímido, que só interrompia o silêncio para comentários rápidos após cada faixa e no momento de virar o disco.

Lembro sobretudo que Zuza terminava o texto apostando que muito do amor de Caetano Veloso por São Paulo teve início nesta tarde. Isto dito sem arrogância, sem falsa modéstia também. Um micro ensaio, uma crônica memorialística em um espaço onde não se espera, de ordinário, encontrar estes dois gêneros.

Se Caetano Veloso começou a ter São Paulo no seu mapa mental nesta tarde, ignoro. Asseguro que Zuza Homem de Mello ganhou um leitor atento e um admirador, eu, a partir deste texto. Quando soube de sua morte, foi desta página que me lembrei de imediato, de coração. E li dele muitas outras. Mas esta evocação de uma tarde chuvosa ouvindo jazz…

Com sua partida, o Brasil perde um dos últimos mestres, um dos últimos referenciais. Não parece que os homens que decidem as coisas no mundo da Imprensa tenham noção do desfalque deste material humano de qualidade. Que se faz para repor?  É ainda possível surgir críticos (em qualquer ramo) do tipo?

Não é o que tenho visto em portais e blogs. Há a ausência para as gerações mais novas destes parâmetros e isto me parece  (escrevo sobre este perigo desde a morte do Chico Anysio) um dos maiores desastres do Brasil: a expansão do seu deserto mental.

Que leiamos os livros e releiamos textos (procuremos nos sebos) em revista do Zuza Homem de Mello, pois. Só há ganho.

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“Notas” – 16/08/2020

O Martelo e a Taça – Um Inédito de Mariel Reis

( Escrito em 22/11/2019)

 

A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel.

 

Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do que pode ser a pintura à sua frente ou apenas um cálculo mental dos custos de uma viagem futura.

 

Os outros quadros, em uma ciranda, trocam impressões acerca dela que exigiu a cadeira em que está, encomendou a garrafa de vinho e trouxe consigo a taça acondicionada em uma valise. Nada parecia perturbá-la. Os cabelos longos em um coque deixavam entrever uma nuca bonita, seguida por ombros delicados e costas seminuas. Os seios marcavam o vestido leve, atraindo a atenção dos rapazes de um grupo escolar que transitava pelas outras alas.

 

Ela não parecia se incomodar com a curiosidade a respeito de seu corpo, sabia-se atraente, embora tivesse deixado para trás os quarenta anos.

 

Olhou o quadro uma outra vez com tamanha perplexidade que um dos monitores se aproximou com a intenção de esclarecê-la acerca da pintura, da técnica empregada, da circunstância em que foi executada, da vida miserável do artista. Ela não foi receptiva ao gesto, mostrou-se enfarada, distraiu-se da fala com um gole do vinho caro. Levantou-se da cadeira, andou pela fileira ignorada de quadros, seguida pelo falatório do monitor. O vinho arrefecia a voz estridente do explanador, algum estagiário de História da Arte, sem nenhuma vontade real de lhe dizer qualquer coisa verdadeira acerca da pintura ou da técnica ou da vida miserável do artista, repleto de vontade de estar na praia, com a namorada, fumando um baseado nas pedras, aplaudindo o pôr do sol.

 

Ela deixou-se desinteressada diante de uma janela com vista para a baía, o mar acinzentado e o céu azul de poucas nuvens. Sem nenhuma voz por perto, ela retornou à cadeira, apoiou-se às costas dela, olhou o quadro à sua frente, sem evitar a sua forma geral como havia feito até ali. Suas impressões se reorganizaram acerca do que pensava anteriormente; a gentileza ruidosa do monitor quase precipitou um desastre interior interrompido por uma zona da pintura sem qualquer importância.

 

Ao mirá-la, ela, a madame, acrescentou mais vinho à taça. Lembrou-se de algo desagradável. Sacudiu a cabeça para enxotá-lo de sua imaginação. Os outros quadros mantinham-se estupefatos com a absorção com que ela se punha diante daquela pequena pintura que caberia muito bem em uma bolsa feminina como a dela. Os funcionários cochichavam a respeito da grã-fina. O expediente próximo do fim.

 

Ela levanta uma das mãos, acena para o segurança. Explica um problema em um dos sapatos, pede um martelo para consertá-lo. O pedido inusitado é encarado sem desconfiança, ninguém a acha perigosa. Só excêntrica. Recorrem ao funcionário da manutenção. O martelo lhe é dado. Ela descalça os sapatos, retira da bolsa um suporte. O tamanho é compatível com o do quadro observado apesar de embrulhado. Descalça, ela, de cócoras, fita a pintura com mais agudez.

 

A garrafa de vinho quase no fim. A taça e o martelo dividem o assento da cadeira. O embrulho em suas mãos. A madame pede a um monitor auxílio. Ele não desperdiça a oportunidade, retoma a falação. Ela pede silêncio, repassa o embrulho, logo aberto pelo monitor por insistência dela. É o mesmo quadro. A grã-fina mostra a nota fiscal. Uma fortuna. O martelo cresce em sentido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Notas” – 05/07/2020

Mariel Reis na “Machado”

“ Pawwlow, conhece a ‘Machado’?”

A pergunta de um leitor amigo levou-me à revista eletrônica “Machado”, nunca ouvira falar da publicação. E…não sabia o que estava perdendo; reportagens, quadrinhos, charges, traduções, entrevistas (uma com Neil Gaiman dividida em duas edições), ensaios, e textos originais (contos e poemas), todos bem ilustrados por artistas e impressos em cores (ah! o tratamento cromático da “Machado”…); capricho, dedicação. Não duvido que nas reuniões para a fundação da revista deliberaram entregar ao leitor revista eletrônica onde beleza e conteúdo formassem peça inteiriça. Uma preciosidade, a “Machado”; uma demonstração de carinho e cuidado, cortesia do editor Delfin.

Nos três números que vi, encontrei colaborações de escritor que venho acompanhando desde ano passado e sobre qual escrevi no blog, Mariel Reis.

São dois contos e uma peça em um ato, os três merecendo ocupar lugar em futura coletânea do escritor.

A peça, “Estamos Os Dois A Sós”, em um ato, retrata uma dupla de amigo – homem e mulher- que divide o aluguel de um apartamento de centro urbano no tempo presente. Nada que rime, ainda que se force muito a pronúncia, com glamour. Teresa e Carlos, os dois amigos que coabitam surgem cada um num cômodo. A Mulher na sala, o homem no quarto. O homem parece desejoso de dormir e a mulher entregue à contemplação dos famosos que têm suas vidas expostas em revistas.Gente que viaja para destinos exóticos e se hospeda em hotéis luxuosos e não divide apartamento, procurando o sono para enfrentar o dia seguinte. Gente bonita, gente de sucesso.

Mas a mulher acredita fazer parte do mundo da revista que folheia, protesta contra determinado final de noivado de uma atriz, já antevê o noivo procurando-a após ser dispensado pela noiva. O que irrita Carlos:

“Você é apenas uma empregada. Você varre, lava, passa e cozinha.Ou descobriu algum parente rico que deixou herança para a pobrezinha.”

(Mariel Reis na rubrica : “Teresa alisa o roupão como se o tecido fosse seda e estivesse vestindo um manto real”)

E batem à porta. E é o personagem da revista. E disposto a retomar o romance com a habitante do apartamentinho. Resta ao coabitante declarar para o astro;

“Eu moro aqui com ela.”

A certa altura, Carlos diz: “Alguém precisa decidir. Estamos ou não dormindo?”

Pois logo depois chega noiva da revista para buscar o amor de Carlos enquanto Teresa se resolve com o astro.

O dia surge, Carlos e Teresa abraçados um ao outro, na mesma cama; fora tudo um sonho, receberam visita? Por que não conversar sobre o evento?

Teresa, pragmática, fecha a peça:

“Não. É melhor levantarmos, senão nos atrasamos para o trabalho.”

Não é a vida de milhões, o sonhar acordado com celebridades, enquanto empilhados nas grandes cidades, padecendo o inferno na vizinhança medíocre, nos transportes urbanos superlotados, nos empregos sem futuro, nos casamentos condenados?

Com os fatores da sobrevivência e as multidões dos devaneios, apaga-se a luz.

Isto dito por Mariel como numa comédia romântica, sem mentir sobre o que significa no dia depois de dia procurar pela Felicidade.

Os dois contos estão, sem qualquer favor, entre os melhores de sua produção de alguns livros e outras tantas revistas e blogs pela internet: “O Erotômano Imperfeito “ e “O Sonho”.

No “Erotômano”, Mariel começa por traçar o painel do subúrbio de forma bem humorada, com pinceladas breves, quase um guia para o leitor do seu chão, no feitio do Manuel Antônio de Almeida no “Memórias de Um Sargento de Milícias”:

“Minha mãe não largava do meu pé, dizendo para eu arrumar uma garota, acabar com as reuniões que se estendiam até altas horas da noite, com a presença daquelas mulheres de papel, de dois amigos que traziam também as suas e de uma menininha safada do quarteirão fronteiro da casa ( …) Porque a parada era dura com as meninas e elas só tinham uma coisa em mente: casar. Um pirralho como eu, casar? (..) Nas brincadeiras de médico eram generosas : ofertando para consulta suas partes ocultas para injeção, curavam-se do mal que as afligia.”

Evolui para o retrato psicológico e terno do Machado de Assis das primeiras páginas do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: (…) porque essa história tem a ver com a primeira vez e a maneira inesperada como encontrei o meu amor, mesmo sendo o primeiro (…) a vida é ensaio para inúmeras respostas que não se concretizam, como a própria existência é um ensaio inacabado”. Sobre a locação da história, Mariel registra, também machadiano, “nesta cidade, nigérrima e triste. Triste como uma noite que não se orgulhasse de suas estrelas, nem de sua luz emitida por constelações distantes, por planetas quem sabe até mortos”.

O conto é pontilhado de reflexões marielísticas que inspirariam elogios de Machado: “é barato ser bonito hoje em dia: é só ter um limite de cartão de crédito muito alto e o conhecimento de um bom cirurgião”, “os animais quando estão no cio se amam em algum grau?”, “ Mulheres arrancam assuntos dos motivos mais inesperados, quando menores parecem vir de algum lugar escondido, como aquele jardim secreto que só elas visitam.”

Como machadiano é o desenvolvimento do enlace amoroso dos dois adolescentes de bairro: “Valentina me mostrou o caixãozinho do passarinho de estimação (…) só queria mesmo ampará-la, tê-la quieta como o passarinho que enterramos na praça perto de casa. Quando acabou o enterro, ela me beijou (..) Talvez fosse mesmo o amor, seguido sinistramente pela morte, rastreado no peito de um sacana como era eu, naquele dia mal iluminado da minha pré-adolescência.”

O fim nos leva ao Nelson Rodrigues de “ A Vida Como Ela É”:

“Mas um dia cruzei com Valentina em uma das ruas do centro – já mulher e com filhos.Tinha cicatrizes pelo corpo, estava morando em uma dos bairros mais distantes, casada com um sujeito ciumento, que toda vez que cismava que a sua preta estava dando mole para alguém, a marcava com a brasa do cigarro (..) A carne é triste (…)”

A vida sentimental registrada como homenagem aos grandes da literatura, condensados por um autor dos dias da literatura como exercício consciente de releitura e metalinguagem.

“ O Sonho” é dos grandes momentos da ficção de Mariel Reis, não é exagero supor que ele esconde uma novela ou romance em suas poucas páginas.

Um narrador onisciente acompanha o desembarque de um sujeito de um táxi e sua requisição de um quarto de hotel, onde dorme, após certo esforço em lidar com sua realidade cansada e com o ambiente inóspito.

Pois tudo é espinhoso no hotel: o tratamento dado como a um velho, o recepcionista, “homem com uma cor de pele acentuadamente negra” que lhe trazia “recordações incômodas”. Bom, mesmo chegar ao hotel não fora agradável, pois suspeitando do taxista durante a viagem. O corpo, embora transportando mente lúcida e alerta, lembra como estocada certeira na mente a finitude. “Lentamente experimentou o peso do corpo em cada um dos degraus, parava como se esperasse a qualquer momento a construção ruir.” Mesmo o hotel, como edificação, parecia-lhe um adversário: “A porta escura do aposento custou a entender que ele forçava passagem, tendo então que empurrá-la com violência para abri-la.”

E esta é a realidade do personagem desperto.

O mergulho de olhos fechados exibe a perda brusca de alguém muito querido, perda inegociável com o cobrador do Tempo. As lembranças da vida feliz em família; o saldo positivo dos filhos, as festas, a celebração do que se ergueu junto. Tudo um sonho, um sonho preparatório para o Pesadelo da vida real; ausências, saudades, espera entre resignada e ansiosa da Morte.

“Devia ser um sonho (…) Não era esse o trato.Deus não me deu ouvidos (…) Não tinha o direito. Disse a Ele que estaria sempre à disposição, custaria menos levar meu corpo cansado. Ele não me deu ouvidos. Caprichoso. (…) Deus trapaceou, meu filho custa a entender, trapaceou. (…) Se ela estivesse aqui não me deixaria cometer uma heresia dessas. Bateria na minha boca”.

Foi um sonho desagradável fruto de uma viagem também desagradável?

“Agora aguardo a ansiosa visita, tenha o rosto que for.Não me importa. Se dura ou caroável.(…) Sim, a vida não passa de um sonho.”

Como no “Erotômano Imperfeito” e na peça em um ato “Estamos os Dois…” o que Mariel não conta dos personagens é imaginável, senão visível pelo leitor, do que aparece em cápsulas. Nos três textos, escondem-se páginas e páginas. O contista competente é um fabricante de cápsulas poderosas, um miniaturista minucioso. E “O Sonho” é cápsula que acompanha o leitor após cada releitura, e a miniatura convida sempre para mais uma releitura e mais uma…releitura depois de releitura algum pormenor se exibe mais nítido.

Bom, aos leitores desejosos de mais textos do Mariel Reis recomendo procurar na internet seu material disperso nos blogs e revistas eletrônicas.

E recomendo, uma vez mais, seu twitter, onde Mariel Reis não joga leve: reminiscências, reflexões políticas, culturais e mesmo ( ou sobretudo) metafísicas. Sempre mostrando que ao opinar sobre qual assunto for, leu mais de uma corrente de pensamento a respeito.O que torna seu twitter espaço inteligente e exigente (não é leitura para incultos resolutos ou vítimas de preguiça mental em estado grave); exceção notável entre tantos tuiteiros que exibem seus chavões “espertos” e cultura de quarta capa de livro.

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“Notas”- 24/05/2020

Sobre Lei da Gravidade na Política

 

“Caindo a Dilma, o resto será consequência, o lulopetismo se derreterá por si”.

Li afirmações do tipo nos dias pré-impeachment de Dilma Rousseff colunista depois de colunista, li também este raciocínio no coral dos comentaristas. Veio o impeachment (que este blog nunca comemorou ou viu nele algo de produtivo) e o PT robusteceu-se e desafiou tetos durante todo o mandato de Michel Temer. A tal consequência lógica não veio.

A luta seguinte foi pela prisão de Lula, a qual eliminaria a candidatura que liderava pesquisas. Não comemorei esta prisão, e escrevi sobre o que considerei improvisado no episódio; Lula fazendo do ato da prisão um comício desmoralizante. A prisão de Lula criou polaridade que beneficiou Jair Bolsonaro;  não tanto por ele,  mais pelo que o candidato da casta acadêmica (e por óbvio do PT e do Pós-PT) propunha ou pelo que colocava como antagônico ao que milhões de brasileiros desejavam: combate à criminalidade, adoção do ponto de vista (ou como preferem alguns , ”lugar de fala”) das vítimas. Mas fosse outra Esquerda (mais sensível às vítimas – e bem menos  “lacradora”- e mais crítica aos dogmas da casta acadêmica) quem garantiria que a polarização filha da prisão de Lula não a beneficiaria?

Lula  solto perde relevância; quando preso, era o mártir. Este capítulo bastaria para negar a dita lógica das consequências infalíveis que dispensam esforços. Não?

Muitos dos apoiadores de Bolsonaro (ainda que apoiadores apenas por aversão ao PT e ao Pós-PT) parecem ainda acreditar que a Lei da Gravidade na Política pode substituir esforços e exercícios de aprimoramento.

“O Povo (ah, essa fantasia!, o que há é a Massa) não quer mesmo a volta do PT. Não adianta tentarem colocar a culpa das mortes pelo Coronavírus no Governo Federal, pois a população está se revoltando, dia depois de dia, contra prefeitos e governadores.”

Sim, mas há cada vez mais quem responsabilize Bolsonaro pelos episódios desta pandemia que causam escândalo (como prisão de pessoas em espaço aberto, sem aglomerações e soltura de estupradores e latrocidas), gente que se pergunta por que, afinal,  votou nele.

Estas pessoas estranham a ausência de maiores pronunciamentos  (não se cometa o erro de considerar lives em redes sociais e canais de vídeo como  pronunciamentos, sim?) e mesmo denúncias no plano internacional sobre ditaduras municipais e estaduais. A Lei da Gravidade não está se confirmando; a crença de que entre o Governo e possíveis alternativas, o Governo seria sempre a opção escolhida se ainda tem fundamento, não confirma a  Lei da Gravidade na Política, a Oposição não vem diminuindo. O Governo vem colecionando desertores dia depois de dia e mesmo entre os que ainda reafirmam o voto, a disposição de defendê-lo parece diminuir.

Afinal, o mais apaixonado partidário acaba por se perguntar se não está lutando mais que beneficiários diretos do Poder; blogueiros vizinhos do Poder estarão formando redes de apoio? Combatentes de redes sociais estão à altura do desafio?

Leitores me cobraram pelo texto passado, que afinal quis dizer? Estaria culpando o Governo pela campanha que sofre? A vítima teria toda culpa e não os algozes?

Bom, o desafiante tem que lutar mais que o detentor do cinturão…Bolsonaro parece ter subestimado o grau de violência que sua mera existência como candidato despertaria; “eu ganhando e contando com os apoios que surgem dia depois de dia…governar será simples consequência”. A Lei da Gravidade encarregada, por este raciocínio, do trabalho que deveria ser realizado por institutos de estudos políticos, partidos formados a partir dos institutos de formação política, mais as redes de blogueiros e comentaristas. Trabalho também realizado com matéria do tempo. Não, não levaram em conta que arrivistas e entusiastas de ocasião não formam a massa compacta que uma guerra do tipo exige e o resto tem sido o que vemos: um presidente sozinho cercado de alguns bem intencionados que também não contam com muita artilharia. E desta constatação sombria surgem as combustões como as demonstradas na reunião ministerial.

Ah! o vídeo da reunião ministerial…como se falou palavrão ali…jornalistas saídos de meios sociais  onde a linguagem deve ser a mais puritana, não? O cinismo de  jornalistas exibindo modos de beatas avistando obscenidades berradas em muros não escandaliza e isto me parece o escândalo dos escândalos. A desfaçatez com que se trata o leitor como débil mental é tomado como uma mera obrigação. Não se percebe o grotesco, isto diz muito.Ou deveria dizer. Na verdade, um item a mais a ser desperdiçado por pretensos observadores.

Ou observadores que se acreditam de Oposição imaginam que as pessoas que estão ocupadas imaginando como reinventarão a vida após a destruição da economia farão este trabalho por mera consequência, como uma Lei da Gravidade que desmoralizará por si estes puritanos da hora?  “Ah, para quê? todos estão vendo mesmo”, o refrão que todos que desejam não enfrentar o serviço entoam.

Vejo alguns lamentando Felipe Neto no “Roda Viva”… ora, como disse Arthur do Val, Felipe Neto tem relevância ainda que lamentemos tal relevância; que fizeram muitos dos que protestam contra a escolha da TV Cultura para entrevistado no sentido de promover (como liberais, em primeiro momento, e esquerdistas agora) seus talentos em polêmicas como se promoveu Felipe Neto? Qualquer um com milhões de seguidores em redes sociais merece,  sim,  uma matéria e uma entrevista. Não se movimentaram para promover polemistas que pudessem ser adversários das malícias e simplificações do pensador político do YouTube.

Ou imaginaram que uma Lei da Gravidade se encarregaria de derrubar Felipe Neto das alturas numéricas apenas com o exame ligeiro de suas fragilidades? Mesmo porque, repito,  não se trata de derrubá-lo ou arrebatar seu público, mas de criar público para os que poderiam ser uma possibilidade de alternativa. E isto, este esforço, não tenho percebido.

Promoveu-se, no lugar de combatentes formados em institutos próprios, aventureiros que demonstraram empolgação combinada com preguiça intelectual, e destes aventureiros vieram as decepções mais pungentes. E queixam-se agora dos milhões de seguidores de Felipe Neto e da recepção dada a um fenômeno de público?

Como escrevi no texto anterior, “não que não tivessem um plano B, não tinham plano A”…

O presidente mandar menos que prefeitos e governadores (e ser desafiado pelo STF sempre que a oportunidade aparece)  é mera consequência de um exemplo da Lei da Gravidade aplicada pela natureza da Política, não pela ação dos seus inimigos.

Como gostaria de estar errado… não poderei deixar o Brasil quando este sonho alcançar o chão, puxado pela Lei da Gravidade.

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“Notas”- 17/05/2020

Sobre o Coronavírus e o Pós-PT

Não tenho escrito no blog; que diria que não fosse repetição dos lugares comuns mais em uso? Não há muito a dizer, exceto lamentar os mortos, e advertir contra a miséria que só começará ser contabilizada quando a vida voltar ao que se conhece por “normal”, causada por uma quarentena que não tem sido capaz de deter o avanço do vírus..

Há quem garanta que muita morte tem sido contada como decorrente do vírus sem o ser, e como não sou médico, nem disponho dos dados, prefiro não ecoar as acusações.Mas é nítida a utilização destas mortes como arma política. Seriam os membros da casta acadêmica e agregados tão prontos a acusar o Governo fosse este algum de seu agrado?

Não se observaria que o Governo foi, como em muitos países, pego de surpresa? Não se advertiria contra abuso de simplificações e dedos em riste?

Mas como meu pai me ensinou, ”não há ‘se’ em História”; Jair Bolsonaro teve a absoluta má sorte de ser o Presidente  quando da visita deste pesadelo de mortes às centenas por dia.

Fosse um Governo mais enérgico (e menos teatral) talvez não fosse tão cuspido, tão alvo de toda tentativa de desmoralização. Bolsonaro chamasse a Imprensa logo após a decisão do STF dando aos estados e municípios autoridade absoluta no tratamento da pandemia e comunicasse que seu mandato acabava, por esta decisão, de ser anulado e assim as eleições, muito do que se viu de prisões de cidadãos (e soltura de condenados) e exibições de autoritarismo de prefeitos e governadores não teria sido inibido? Mas não houve este gesto de energia, Bolsonaro continuando o mandato como se este não houvesse sofrido uma mutilação de autoridade. E o que muitos estão sofrendo no Brasil é consequência, apenas,  desta decisão de continuar o jogo como nada de anormal tivesse ocorrido.

(Escrevi sobre este feitio de Bolsonaro logo no início do seu mandato; acusações de que teria fabricado o atentado não sofrendo qualquer processo ou protesto mais  enérgico do seu grupo; “o que vem de baixo não atinge” parecendo ser o lema)

O Pós -PT (o sistema substituto do sistema do PT e associados, sistema formado pelo próprio PT, mais PSOL e PSDB e siglas associadas) soube perceber nesta pandemia e na resposta tardia do Governo a oportunidade de adiantar o relógio histórico; nada de esperar pelo fim do mandato e pelas próximas eleições, o impeachment por toda sorte de pretextos (de suposta sonegação de exames presidenciais a “quebras de isolamento”) figurando como item obrigatório nas discussões do futuro político imediato.Não é obrigatório o senso de ridículo nesta corrida ao Poder.

Colunistas simpáticos tanto ao PSOL quanto ao PSDB não disfarçam o tom hostil aos eleitores de Bolsonaro;  “gado”, “idiotas cúmplices de um genocídio”, “assassinos”, “imbecis”: a cobrança por estes eleitores terem demitidos jornalistas e gente do mundo dos espetáculos da função de conselheiros eleitorais sendo apresentada sem maquiagem.

Alguns destes colunistas vindo de cobranças recentes por suas ligações com o PSDB compram assim também seu ingresso na realidade do Pós – PT.

Não deixam de escrever textos divertidos; suas visões de mundo (sobre isolamento,por exemplo) ilustrativas da experiência de mundo através das bolhas sociais a que pertencem me arrancam gargalhadas; evito lê-los nas horas avançadas.. Nada que exista fora do limite dos bairros grã finos que habitam é imaginável por estes cronistas de amenidades: pessoas “furando a quarentena” por ausência de empregados ou falta de dinheiro para pagar taxas de entregadores ou por necessitarem trabalhar, por exemplo. Personagens de novela de Manoel Carlos que são, não imaginam o que é confinamento em apartamentos exíguos ou barracos. Ora, se eles podem suportar do alto de suas coberturas o isolamento…e inspirados pela contemplação do que imaginam ser o universo dos “insensíveis pelo sofrimento alheio” cometem mais um artigo. Cometem muitos, dia depois de dia.

Claro que me divirto imaginando alguns destes colunistas oferecendo aos comissários do futuro estes textos ofensivos (quando não ameaçadores. Alguns destes colunistas escrevem como que promotores de um tribunal vindouro; imaginam cobranças históricas, asseguram que “com fascistas não há diálogo”, etc) aos eleitores de Bolsonaro como prova de que não são os “coxinhas do PSDB”que militantes do PT, PC do B e PSOL decerto os acusarão de ser (“acham que esquecemos o que vocês escreveram contra Lula, contra o PT? Vocês também são culpados disto aí, he, he”) .

(Dos artistas nada cobro, nada espero. Cobrar de gente com pouca ou nenhuma leitura, escrava do juízo da categoria sobre si, dócil aos mandamentos da casta acadêmica, opiniões individuais e reflexões, me parece estupidez. “Fique em Casa”, o mantra dos que percebem a realidade filtrada pelos óculos da classe. Muitos deles talentosos e com as intenções mais inocentes. Cobrar de artista análises e qualquer racionalidade é ridículo; grotescos são os que se enfurecem com habitantes de sonhos)

O Pós-PT se anima a pular anos de espera por ter percebido a massa indefesa diante do Estado e dos setores organizados. Como rato que vira corajoso ao se perceber temido.

O que o Pós-PT contempla de rendição duvido imaginasse possível, ou tão antes da hora,e muito da fúria que exibe em seus delegados sem dúvida vem desta percepção,deste susto agradável. O Sistema de Poder do PT e associados exibe mais calma,sabe que a opressão do Pós-PT o exibe benévolo e futuro (quando o Pós-PT se esgotar) beneficiário da boa vontade da população. Os adversários sinceros destas Esquerdas nada terão a colher, a massa os acusará, com muita razão, de ser a culpada; não que não tivessem um plano B, não tinham plano A…

Pois se cada um tornou-se fiscal implacável de grau de ajuste de máscaras e distância entre pessoas nas filas ao mesmo tempo que se mostra temeroso de emitir qualquer ponderação ou questionamento (como questionar os ônibus que circulam com janelas fechadas e ar condicionado,como muitos aqui em Belo Horizonte, por exemplo) é por comodidade ou sobrevivência. O cidadão comum não pode lutar o que agentes políticos ou formadores de opinião com algum prestígio e Poder não lutam, simples.

O Pós – PT está dominando este momento por ter se preparado, esta é a verdade, e os que não julgaram necessário se preparar para situações inesperadas na verdade não julgaram se preocupar com coisa alguma. E se os leitores desejam saber minha opinião, duvido tenham aprendido algo.Não noto nos adversários do Pós-PT sequer a identificação do seu trabalho, quanto mais algum esforço coordenado para enfrentá-lo.

Se o governo Bolsonaro acabou? Ninguém tem a resposta. Comunicar-se mais,  estabelecendo diálogo mais franco com a população talvez seja o (único?) meio de sua sobrevida. Confessar perplexidades, admitir falhas, anunciar com alguma competência as medidas de combate ao vírus. Mexer-se mais, abandonar as cordas, enfim.

Todos ganharíamos.

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“Notas”- 29/03/2020

Sobre lições de jornalismo por Elio Gaspari

Este não é um blog sobre novidades; pode conter reflexões sobre algumas, mas é onde minhas notas nos cadernos mais aproveitáveis são publicadas. Qualidade segundo meu padrão, este o critério. Logo notas sobre palestra de Elio Gaspari (mediada por André Petry) aos estudantes de Jornalismo (“Jornada Galápagos”) em Outubro (ou publicada no YouTube em Outubro) não serão extravagâncias.

Como observou Petry aos estudantes, aquela seria ”oportunidade de ouro” pelo fato de Gaspari não dar entrevistas,palestras, etc…mas Gaspari tem uma entrevista-palestra (disponível no YouTube) no Décimo Congresso da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e uma mini palestra de cerca de vinte minutos no Nono Congresso da mesma associação (também disponível no YouTube), logo..

Mas…vamos considerar algo não rotineiro. Servir raridades ou semi raridades a quem não sabe estar diante de uma não adianta muito, sim?  Pois tanto nas palestras da ABRAJI como neste encontro (“Galápagos”), os ouvintes riram de tiradas já conhecidas de quem quer que tenha lido os perfis de Gaspari  publicados na revista “Imprensa” (dois textos de autoria de Zuenir Ventura) e histórias já contadas no “Notícias do Planalto” de Mario Sergio Conti. Ou mesmo passagens e ditos engraçados constantes das duas outras palestras de Gaspari.  As perguntas e questionamentos são denunciadores do pouco conhecimento sobre a “raridade” que os estudantes tinham diante de si.

Elio Gaspari é um jornalista da maior importância e um dos últimos gigantes ainda vivos e em atividade, isso não se pode discutir. E estudantes perguntarem apenas sobre questões da política atual, não manifestando curiosidade sobre sua passagem pela “Veja” e pelo  “Jornal do Brasil”, mostra que a noção de relevância vem se perdendo; as perguntas que fizeram ao jornalista lendário poderiam ter sido feitas a qualquer um outro jornalista.

Elio sabe entreter plateias jovens e nada exigentes (quem pode exigir algo do que se conhece pouco ou nada?), com suas observações sobre a Lava Jato e sobre Sérgio Moro. Uma geração formada para ser “agente de transformação social através dos meios de comunicação”quer ouvir críticas ao que acreditam ser ”Direita” e tudo que tiver o selo de “Aprovado” pela casta acadêmica, e Elio soube servir o cardápio.

Nada de profundo, nada de questionar dogmas. A quebradeira das empreiteiras como sendo consequência da Lava Jato e não da economia que vitimou não apenas as empreiteiras, um exemplo. A lembrança, em tom desolado, sobre as críticas que as cotas raciais receberam (como se questionar cotas fosse atestado inquestionável de racismo e insensibilidade, quem sabe um crime, decerto uma aberração) de grande parte da Imprensa, outro.

Mas um homem experiente sabe com quem fala;  houve estudante (de Belo Horizonte, se não estou enganado) na plateia que questionou se todas as notícias devem ser dadas, se noticiar tudo não serve a interesses …sem qualquer observação por parte de Gaspari ou de Petry de que o estudante estava defendendo, em outras palavras, censura.

E Gaspari tentou ensinar o que não se ensina: como lidar com pessoas que, no caso, são fontes. Ora, isto ou o sujeito sabe, ou não sabe – e aprende, como ele aprendeu, como no episódio com Francisco Campos –  ou não aprende e morrerá sem saber. Não tratar a fonte como inimigo a quem se interpela em tom de comissário político ou como a um tolo que se pode tapear sem susto (e não permitir ser tapeado pela fonte, como Gaspari também observou. Saber cortar contatos ou estabelecer limites).

Isto é sabedoria, e sabedoria não se ensina. Como um militante que se tem na conta de “agente de mudanças” poderá tratar a fonte com respeito? Como um jornalistazinho que julga poder decidir o que deve ou não deve ser notícia segundo critérios pseudo políticos saberá extrair de sua fonte tudo o que ela pode, ainda que como hipótese, oferecer?

(Gaspari fosse na sua juventude como um destes Comissários do Povo de café literário teria feito a entrevista envolvida em texto extenso e  muito bem escrito, com Filinto Müller na “Veja” – matéria de capa, início dos anos 70 – na qual procurava analisar o personagem sem moralismos e contextualizando sua atuação no Estado Novo?)

Gaspari citou  (como citara na ABRAJI) os exemplos históricos da cobertura do assassinato de John Kennedy e do jornalista que “furou”a imprensa mundial em 1945 noticiando o fim da Segunda Guerra  Mundial como paradigmas do jornalismo. Bom…podem até ser, mas penso que jornalistas brasileiros devem colher da História do Brasil e da Imprensa brasileira seus parâmetros no ofício. Ou aqueles jovens escreverão para público norte americano sobre política norte americana? Ora…eles, os norte-americanos, têm os seus …

As coberturas dos momentos da História do Brasil têm seus épicos, não? Não temos as campanhas do Passado que chegaram até os dias atuais pelos livros, por coletâneas de artigos? Mesmo as compilações de discursos parlamentares dos grandes nomes da História brasileira servem, como artigos do próprio Elio brindando lançamentos editoriais sobre  História do Brasil (lembro quando Elio escreveu artigo sobre o lançamento de cds com discursos parlamentares) o confirmam.

Em outro ponto Elio confessa ler  livros apenas na versão eletrônica, ele que teve biblioteca de livros impressos que ocupavam um apartamento (a “Malan”). Elio pode se dar a esta escolha (que considero péssima, apaixonado que sou por livros e frequentador assíduo de sebos), mas ele deveria ver que ali em sua frente estava porção de jovens necessitados de leituras e releituras e de adquirir o hábito de frequentar sebos. Isto, mestre Elio, só pode ser feito com impressos; não acredito que eletrônicos tenham todos os títulos já publicados e ofereçam releitura como o material físico. Sebos… de eletrônicos… Não é possível que ele não tenha notado em muitos ali vocabulário restrito que denuncia leitura apenas acadêmica e ocasional. Eu em seu lugar teria dito: eu me dou  este tipo de leitura apenas, mas a contra recomendo aos que precisam estudar, e estudar muito.

Ele não era o professor daqueles jovens mas eles foram ali em busca de algum conhecimento adicional, ainda que sem a noção do que de fato precisam aprender e precisam perguntar. Lembro de palestra que fui do Zuenir Ventura (na Universidade Federal de Viçosa) onde ele corrigiu uma estudante, observando que sua pergunta era impertinente e imprecisa. É o preço de sentar numa cadeira e ser ouvido com reverência, não?

Pois suas histórias sobre reportagens e conselhos sobre evitar obviedades e não deixar de alimentar a curiosidade são agradáveis de ouvir, mas inúteis aos que procurarão fatos para reportar sem prévio conhecimento de seus temas ou cultura geral mínima.

O conselho deveria ser: “leiam, releiam, nunca fiquem no conhecimento superficial de um assunto. A curiosidade se alimenta de dados do Mundo; Mundo que não foi inventado com o nascimento de vocês. Vocês fazem parte de um elo histórico; compenetrem-se deste papel de continuadores de uma tradição de grandes jornalistas.”

“Mas ele recomendou livros!”

Verdade. Recomendou e o canal que publicou a palestra  (“Galápagos Newsmaking”) fez mesmo um vídeo só deste pedaço, no qual ele recomenda livros. Segundo Gaspari, “vocês tem que ler em inglês, é essencial ler em inglês”. Bom, muito material importante e muita novidade de fato só se lê em inglês, mas penso que o conselho deveria ter sido: “leiam os clássicos do idioma português, pois é nele que vocês deverão se expressar e expressar de maneira a fazer o leitor querer aprender mais sobre o que você escreveu. Ler clássicos do pensamento  político ainda não traduzido do inglês para o português é importante, mas se vocês não dominarem o idioma, mesmo este conhecimento servirá de pouca coisa.”

Livros? Esperava ouvir:

“Leiam, sem hesitar, tudo que caírem em mãos de compilação de escritos dos grandes do Jornalismo, leiam muito as crônicas do Nelson Rodrigues, se puderem leiam todo o ciclo de crônicas do Carlos Castello Branco agrupados nos volumes  (da Ed.Nova Fronteira) ‘Os Militares no Poder’. ‘Depoimento‘ do Carlos Lacerda, sem sombra de dúvida. Assim como recomendo que vocês procurem sem descanso a série de entrevistas realizadas pelo ‘O Estado de S.Paulo’, ’A História Vivida’. Crônicas do Carlos Heitor Cony, sobretudo as reunidas em ‘O Ato e o Fato’. O que encontrarem do Paulo Francis levem para casa e devorem sem medo de repetir o prato, assim como devem adotar sem medo a dieta Rubem Braga, qualquer das suas compilações de crônicas vale cada centavo. David Nasser, digam o que quiserem (mesmo que com razão) seus críticos, também é autor a se conhecer, a mergulhar. Ah…tantos…Joel Silveira, sobretudo a compilação ‘Tempo de Contar’, de preferência a terceira edição, revista e ampliada  (José Olympio Editora). Mas há dois livros que considero mesmo fundamentais aos que estão estudando o ofício e precisam de um guia sobre redações e macetes sobre fugir dos erros mais primários: ‘A Língua Envergonhada’ do Lago Burnett, de preferência se vocês encontrarem a edição ‘revista e aumentada’ da Ed.Nova Fronteira. Este livro tem observações sobre as redações,modismos estúpidos e até mesmo uma espécie de manual de redação. O sujeito foi um dos grandes nomes na fase de ouro do ‘Jornal do Brasil’. Outro que considero inevitável e incontornável é ‘A Regra do Jogo’ do Cláudio Abramo (da Cia das Letras), jornalista importante n ‘O Estado de S.Paulo’ e na ‘Folha de S.Paulo ’; assino embaixo de muito do que ele diz sobre a necessidade do jornalista ter cultura geral  (para não se acreditar crítico quando se é apenas um repetidor de clichês sub ideológicos) e conhecimento dos clássicos da Literatura, sobretudo os do idioma em que se escreve.”

Mas quais livros Gaspari aconselhou (dos disponíveis em Português)?

A tradução de “O Reino e o Poder”  do Gay Talese, sobre o “New York Times” e… “Notícias do Planalto” do Mario Sergio Conti sobre a imprensa brasileira (e como ela agiu durante a eleição de 1989 e o consequente Governo Fernando Collor).  Ambos livros importantes, sem dúvida….mas que um jornalista que ignora a história de seu país e sua Imprensa poderá colher em um livro sobre jornal de país de realidade em tudo diferente da brasileira? E não seria digno de críticas um jornalista recomendar livro onde em cada página em que seu nome é citado, este o é de maneira elogiosa? Seria mais compreensível e defensável que Gaspari recomendasse, sem modéstias estúpidas e hipócritas, seus livros sobre o Ciclo Militar. Pois são também livros que considero (que quase todos, ou todos, consideram) obrigatórios em bibliotecas de jornalistas.

Ali, recebendo estes conselhos, estavam futuros fazedores de jornais e revistas.

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"Notas"- 22/03/2020

Sobre os panelaços de Bolsonaro

“Ouça aqui da minha janela: o bairro inteiro batendo panelas contra Bolsonaro”, informa-me um morador do Rio de Janeiro.

“Qual alternativa os panelistas apresentam?”

“Mourão.”

Hamilton Mourão habita os sonhos dos que não desejando, sob qualquer hipótese, a volta do esquema de Poder do PT e associados, desejam livrar-se do governo de Bolsonaro, ou das pressões por ter apoiado Bolsonaro por parte de gente do círculo social. Nome menos malhado por parte da Imprensa e do meio artístico (e sobretudo da instância superior a estas duas, a Casta Acadêmica), Mourão parece a estes desejosos de paz uma alternativa desejável, uma promessa de sossego. Estes desejosos de armistício são, por estes dias, os colaboradores mais devotados do “Pós-PT”.

“Derrubado Bolsonaro e assumindo Mourão, todos os esforços serão para derrubar Mourão”, respondo.

O Brasil é país de gente com memória curta, ou seletiva ao extremo; quantos lembram da campanha “Cadê o Lima?”, hein?

O Cel.Lima,amigo de Michel Temer, era invocado em toda e qualquer ocasião, não se falava do então presidente que sucedeu Dilma Rousseff após o erro histórico do Impeachment (sim, erro; o mandato deveria arrastar-se até o último segundo, o esquema de Poder do PT e associados desmoralizando-se até o inimaginável) sem que o nome do amigo fosse também mencionado. Era o argumento final dos petistas e devotos do petismo. Hoje quem lembra do “Lima”?

“Canalha” e digno de toda perseguição é todo aquele que sentar na cadeira presidencial sem o apoio da casta acadêmica, esta é a Verdade. Os eleitores que descumprirem as determinações do clero acadêmico também devem sofrer sanções e destas sanções fogem os eleitores de Bolsonaro que se juntam aos batucadores de panelas, ou se calam diante deles. Só que duvido que isto adiante algo.

Duvido, pois os militantes do lado oposto compenetraram-se da missão da guerra total;nesta modalidade de luta política rendições são desprezadas, inúteis como tática de sobrevivência. Eles, os militantes do esquema de Poder do PT e associados, entenderam (ou resolveram remover das faces qualquer máscara) a natureza essencial da política: Poder é questão de guerra e conciliações são teatro de boas maneiras enquanto se ganha tempo. Percebida a inutilidade da encenação, a caça aos pescoços começa.

Jair Bolsonaro deixou-se conduzir às cordas com docilidade tocante, outra verdade neste momento de constatações desagradáveis. Econômico em pronunciamentos na TV aberta,  mais econômico ainda nas interpelações judiciais, Bolsonaro cometeu mesmo o que Olavo de Carvalho qualificou, nesta semana de panelaços, como “suicídio político”.

Começando pelo começo, quantos foram processados entre os que insinuaram (insinuações berradas) que o atentado que Bolsonaro sofrera era uma farsa? Não, não se trata de exigir que o Presidente processasse tuiteiros desconhecidos fora de seus círculos ou comentaristas anônimos, mas formadores de opinião conhecidos e replicados,sim. Pois era a obrigação de um Presidente que zelasse não apenas por sua honra pessoal (e familiar), mas pela própria manutenção do cargo e da governabilidade, interpelar seus acusadores. “Estava acamado”; sim, estava, mas e os filhos tão operosos nas redes sociais e os tuiteiros “vaporwaves” nada poderiam ter feito?

Depois as insinuações (quando não acusações frontais, abertas, sem cuidado de olhar para os lados) sobre o envolvimento de Bolsonaro no assassinato da vereadora Marielle Franco; alguns gritos de indignação com reportagem da Globo (quando do episódio do porteiro do condomínio comum ao Presidente e a um dos acusados de envolvimento no assassinato)… e só. Nenhum processo, nenhuma movimentação de apoiadores para defender o Presidente de uma acusação deste porte.

Morre por estes dias o ex Secretário Geral da Presidência (e candidato provável à Prefeitura do Rio de Janeiro), Gustavo Bebianno, e insinuações não faltaram, pelo fato de serem, Bebianno e o Presidente, desafetos notórios. Insinuações publicadas em colunas de jornalistas conhecidos, não apenas de tuiteiros lidos por família,namorada e amiguinhos. Algum processo, alguma interpelação?

Estas acusações sem resposta enérgica fizeram e fazem estragos na credibilidade de qualquer um. Por que desperdiçariam então uma pandemia (Coronavírus) para minar ainda mais o respeito da população ao Presidente?

Eu não me surpreendo, sabia (desde antes da eleição) que esta Presidência sofreria por ausência de colunas que a sustentassem. Votei sabendo (e não me desculpo ou permito ser enquadrado por quem não possui moral para enquadrar e/ou interpelar qualquer pessoa). Escrevi (texto publicado em 03/02/2018) sobre escolher Bolsonaro sem ilusões:

“Não sei, acredito que não (no texto, eu respondia a interlocutor sobre acreditar Bolsonaro capaz de realizar bom governo). Há o aparelho do Estado, desenhado nas últimas décadas no feitio da planilha dos engenheiros sociais, a se moldar, na expectativa de eleitores simplistas, e portanto, apressados. Que recolherão o apoio assim que perceberem que ele como Presidente não poderá entregar toda a mercadoria prometida na eleição. Há ausência de redes de apoio que duvido sejam confeccionadas no tempo desejado. E sem estas redes de apoio, sem movimentos sociais não esquerdistas, Bolsonaro não terá como deter avanços de quem se organizou, e milita, há décadas…digo mais: houvesse esta rede política não institucional, Bolsonaro não precisaria sequer do cargo de Presidente. Sem ela, o cargo valerá quase nada.”

https://fernandopawwlow.wordpress.com/2018/02/03/notas-03-02-2018/

Acredito que Olavo de Carvalho também não foi surpreendido com as dificuldades; talvez com a apatia de Bolsonaro e dos seu círculo frente aos ataques, sim. Mas mesmo esta surpresa me parece sem justificativas; Bolsonaro acreditou no apoio que viria por parte da massa despertada, porém dispersa e desorganizada e neste conjunto não se pode confiar numa luta contra setores organizados e habituados aos confrontos;  Bolsonaro só viu o quanto havia de movediço neste apoio depois do fato consumado.

Talvez Olavo devesse, desde o começo, lá atrás na campanha, ter gravado mensagem assim: “ô Bolsonaro, você vai se arrebentar se aceitar ser Presidente sem partido forte e sem militância aguerrida,rapaz. Te derrubarão em menos de dois anos.Sai dessa,você não vai conseguir governar porra nenhuma, merda nenhuma. Candidate-se ao Senado, rapaz,forme uma frente parlamentar de Direita,seja uma Oposição forte, foi assim que o PT tomou o País. Não há pressa, hã?!?”

Ou se pronunciado com mais energia depois da eleição, cobrando de Bolsonaro campanha de mobilização mais efetiva para cumprir as promessas de campanha (sobretudo às relacionadas ao combate à criminalidade). Mas os pronunciamentos de Olavo sobre o Governo tratam de nomeações (ou não-nomeações) dos seus seguidores (como no episódio no qual cobrou de Regina Duarte seu apoio para a pasta da Cultura).

Os avanços do Governo em obras (sobretudo no Nordeste) e na pasta de Sérgio Moro (alguns itens aprovados do Pacote Anti-Crime) têm divulgação ineficaz, e a Oposição assim consegue fixar nas mentes a narrativa do Governo ineficaz, senão inexistente.

Acrescentem, leitores, as deserções dos aventureiros, as traições, as afoitezas de alguns e as hesitações de outros e verão que os panelaços foram até tardios.

Cabe ao Governo afastar-se das cordas às quais aceitou ser conduzido, ou estes serão apenas os primeiros de muitos concertos de panelas e vozes.

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“Notas”- 16/03/2020

Sobre Crimes e “Criminosos Gays”

“Entramos no Uber e o motorista já nos olhou desconfiado. Não quis conversa e mostrou-se surdo às observações sobre o trajeto desejado por nós.”

Não há conversa com casal gay que não tenha uma historinha desta no meio. Estes são até os com menos azar: há os que percebem o sorrisinho debochado, piadas e o “convite para abandonar o veículo”.

“Fui no bar e vimos casais abraçados, se beijando. Que Bom!  Pois beijei meu (minha) namorado(a) e pessoas das mesas vizinhas fizeram cara feia, e o garçom (ou mesmo o gerente) veio pedir que nos comportássemos.  Estávamos incomodando.(…) Ih,lembra do dia em que pais pediram aos filhos para não se aproximar da nossa mesa?”
Há os que foram mesmo convidados a deixar o barzinho (claro que após o pagamento da conta, com o devido  acréscimo ao garçom que não raro não procurou disfarçar a má vontade).

Não, não se trata de “Mimimi” (termo idiota), de vitimismo. Duro ser tratado assim. Quando um dos nossos (parentes ou amigos, não importa; gente de nossa estima) recebe este tratamento, percebemos o quanto é. Críticas e poréns aos movimentos gays (ou suas divisões mais  visíveis e ruidosas) não se anulam, e não devem se anular, mas a negativa da necessidade e legitimidade destas frentes de defesa não resiste ao exame destas violências diárias, roedoras.

Talvez algumas queixas dos gays pareçam chorosas e auto piedosas, como a da identificação “casal de gays” ou ”casal de lésbicas” quando algum crime é cometido por homossexuais que vivem juntos. Os homossexuais notam que quando crimes semelhantes são cometidos por casal de heterossexuais, não vem o adesivo  “CASAL HETERO  MATA  CRIANÇA” na manchete. Há, sim, crimes cometidos por motivação homossexual (como lésbicas que matam o filho de uma das parceiras) ou família de uma das parceiras que não aceitava o relacionamento, e penso que esta motivação não deve ser omitida no corpo da matéria, mas a apresentação tende a estigmatizar (em sociedade que observa suas prevenções contra homossexuais com dedicação) homossexuais em sua quase totalidade.

Crianças arremessadas pela janela por pais ou vítimas de tarados hetero não costumam contar com a apresentação da sexualidade dos autores dos crimes berrada nas manchetes.Casos onde crianças são vítimas de violência sexual por parte de um dos parceiros heterossexuais (não poucas vezes com omissão ou colaboração do outro parceiro, em geral a mãe) não constituem fenômeno dos mais raros e no entanto a apresentação destes crimes é bem menos espalhafatosa e estigmatizante.

Como proceder?  Não sei, que respondam os ocupantes das cadeiras da casta acadêmica que tanto amor juram aos gays (e que se especializam em acusar críticos de excessos dos movimentos gays como “homofóbicos”, “fascistas”). Não há nos cursos de comunicação social pesquisadores que possam elaborar maneiras de apresentar notícias que não coloquem (ainda mais ) a sociedade contra gays? Não se percebe neste meio que a maioria que nunca cometeu crimes sai às ruas entregue à população impressionada por matérias redigidas sem maiores cuidados?

“Mas quem já é homofóbico…”
Continuará sendo, mas com o combustível cedido pelos tablóides …

Vejo o caso do travesti abraçado pelo Drauzio Varella; o que deveria ter sido enfatizado nos críticos do abraço do médico no presidiário era o crime deste (violência sexual seguida de morte de uma criança), sua condição de travesti sendo, na minha opinião, secundária.

Mesmo porque Drauzio Varella deveria ter sido cobrado, em muitas outras ocasiões, sobre atenção às vítimas de crimes, ocasiões em que não houve qualquer cobrança dos que hoje gritam e mostram-se surpresos (apenas agora) do médico destinar seu afeto e atenção aos presos, pouco – ou nunca-  às vítimas (os defensores do médico poderiam exibir cuidados deste às vítimas ou familiares de vítimas caso quisessem mesmo defender o amigo e não apenas fazer proselitismo da piedade e grandeza moral da casta acadêmica,não? Por que não o fazem? Por não terem notícia deste carinho? Eu pouco sei dele para assegurar que ele nunca se preocupou com vítimas e/ou familiares, sim?).

Ah… mesmo defensores dos gays ou auto intitulados defensores dos gays pouco vejo ocupando seus espaços para defender os que não são estrelas de noticiário policial, contudo. Sabe o gay que não chega a ser agredido (e morto)  por ter conseguido escapar?

Certa vez escrevi no blog sobre amiga que teve que correr com a namorada de um sujeito armado de faca que anunciou que as mataria na Pça da Liberdade, numa tarde. Não receberam qualquer ajuda, nenhum policial deteve o maluco (maluco mesmo? ou um criminoso que escolheu bem as vítimas?). E não estavam,a minha amiga e a namorada, protagonizando qualquer atentado ao pudor. Conversavam de mãos dadas, contemplando a praça, falando de seus planos para o futuro imediato.

Eu quando morava no Barreiro de Baixo (1990) tinha como companheiro de banco de ônibus muitas vezes um colega de trabalho do meu pai, homossexual.  As viagens (quarenta minutos do Centro, com trânsito desimpedido; hora e pouco, com trânsito congestionado) me foram muitas vezes aulas sobre Antonio Gramsci e Norberto Bobbio; quem primeiro me falou (e recomendou com energia que o lesse) sobre  Alexis de Tocqueville foi o tal colega de viagens de ônibus. Um homem culto, sim? Um dos petistas cultos que conheci  (lembro dele comentar comigo, entusiasmado, sobre palestra sobre estilo helenístico).

Pois este estudioso, este homem raro, foi perseguido certa vez por um grupo de torcedores de futebol que resolveu descer do ônibus apenas para “dar porrada no viado”. Correram atrás dele por alguns quarteirões e assim o colega de viagens de ônibus leitor de Simone de Beauvoir teve que se esconder como um rato de um bando que, fosse reunido num só indivíduo, não  apresentaria milésimo de sua cultura. Conseguiu assim escapar da surra (talvez da Morte). E o trauma? Deste não conseguiu escapar: odeia futebol e tudo que lembre futebol. Quem não odiaria?

Bom…algum policial à vista?  Seu nome nas estatísticas? Ah…

Há homossexuais que atentam,com seus exemplos infames, contra a reputação de todos, e estes devem ser apontados pelos homossexuais como exceções,como criminosos ou abusadores. Há que pensar neles com severidade a cada vez que sintam-se como alvos após a divulgação de seus (dos criminosos) feitos. O corporativismo, neste caso, é o inimigo da maioria que vive ocupada em sobreviver e em tentar obter alguma felicidade. É  luta que cabe aos homossexuais enfrentar.

Há os que esperam com avidez por crimes cometidos por homossexuais para o descarrego de seus ódios (ainda que, em alguns casos, ódios justificados) e aos observadores  “neutros”, a luta é escrever acima (ou ao largo) de simpatias ou antipatias.

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“Notas” – 14/03/2020

Porta da Esperança

                                                                                                                             Mariel Reis

 

Aos domingos, no subúrbio, em torno da macarronada, a família agitada trocava
impressões acerca da semana.  O clima amigável às vezes era perturbado por
uma observação maliciosa e toda harmonia se desfazia.  A pacificação dos
ânimos se realizava em torno do televisor com os programas de auditório
exibidos pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).  Um Silvio Santos mais
jovem se desdobrava em muitos outros durante a longa programação dominical
em que calouros, jurados, gincanas se misturavam.  Uma das juradas, Aracy de
Almeida, a dama do Encantado, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, tinha
dois aspectos biográficos curiosos: intérprete e amiga do compositor Noel Rosa
e irmã de Marilena Chauí.

Outro ponto alto, repleto de expectativas, era a Porta da Esperança. O bordão
“Vamos abrir a Porta da Esperança”, dito com ênfase pelo apresentador
marcava o limite entre a decepção e a satisfação tanto do participante quanto do
telespectador. Os pedidos mais diversos desfilavam durante a atração. Dentro
de cada telespectador, uma angústia acerca do sonho adiado por algum motivo,
realizando-se, parcialmente, naquela pessoa que levava para casa o fogão, o
televisor, a geladeira, a cadeira de rodas, o remédio ou apenas o reencontro com
um parente extraviado. A felicidade de alguns dos concorrentes era retardada
para uma edição futura. A produção se esforçava para concretizá-la. Silvio
Santos se encarregou muitas vezes da viabilização dos pedidos mais urgentes.

A volta da Porta da Esperança, sucesso nos anos 80, é uma sinalização perigosa.
Na década de seu sucesso original, o país passava por uma crise sem
precedentes: inflação galopante e alto custo de vida. O retorno, durante o
governo Bolsonaro, não é um bom presságio. Talvez Silvio Santos não tenha a
pretensão agoureira, embora seja difícil imaginar outro fato diante dos
indicadores econômicos produzidos pelo ministro da Economia Paulo Guedes
que pediu demissão ao presidente antes da divulgação oficial do PIB após um
ano de sua gestão. A demissão não aconteceu. Um malabarismo contábil para o
baixo crescimento foi retirado dos manuais (PIB público x PIB privado). E o
desengajamento moral da equipe da área é o reflexo daquele do chefe.

O reaparecimento do programa é um aviso e não uma imprudência da equipe. A
emissora é acusada de ser bolsonarista pelos opositores do governo e o possível
retorno de Porta da Esperança à grade da tevê sem qualquer outra especulação
concreta além do endereço para onde as cartas podem ser enviadas não é outra
coisa que não um recado para a população sem uma traição completa do
presidente Jair Bolsonaro.  Às vezes, nosso radicalismo ideológico é um
obstáculo às estratégias de sobrevivência sugeridas por aqueles cuja relação com
o Poder é necessária para a manutenção de seus privilégios, o que não quer dizer
que sejam integralmente todos traidores de sua origem. Nunca mais irei ao
programa. Logo agora que uma casa própria faria todo o sentido. Azar.

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“Notas” – 31/12/2019

Sobre o fim de um ano que não passou rápido

Chega o momento de registrar minhas notas de encerramento de ano, costume que venho observando no blog desde 2010.

Não posso escrever que nem vi 2019 correr porque o senti, no plano íntimo e como observador do enredo político, como poucas vezes senti os 365 dias antes de cada tomada de nota retrospectiva. Pelo que converso com as pessoas nas ruas, muitos sentiram 2019 mais denso que anos anteriores.

Ano inaugural de um governo eleito com total campanha contrária da imprensa mainstream e de blogueiros e tuiteiros aliados da casta acadêmica. O inimigo da casta acadêmica eleito pela massa vítima dos seus desmandos e por intelectuais e artistas que ousaram questionar a autoridade, conscientes do preço que pagariam.

Ano assim não costuma pegar despercebidos os seus passageiros quando termina.

Muitos se perguntam se valeu mesmo a pena o rompimento de amizades e as fissuras familiares por motivos de política eleitoral. Quando lembram que não foi eleição qualquer e sim plebiscito sobre rendição total à casta acadêmica, concluem que sim, que repetiriam o voto (alguns mesmo anunciam o voto para possível reeleição), ainda que com todas as reservas e oscilações de entusiasmo. E não deixam de lembrar que as amizades perdidas não foram perda que os fizesse arrependidos,muito menos as ligações familiares rompidas, pois a eleição apenas acelerara o processo.

Foi ano de guerra de reconquista, por parte da casta acadêmica e seus amigos nos meios de comunicação de massa e no mundo dos espetáculos. Não descansaram desde a contagem dos votos, mesmo porque anunciaram “resistência” ainda durante a campanha. Nem a facada mereceu trégua, ao contrário do que asseguram os que declararam na ocasião repúdio ao atentado sem repreender os que referiam-se ao candidato como “saco de bosta”, lamentando a sobrevivência da vítima. Os que se calaram diante de seguidores que colocaram em questão a veracidade do atentado (o ex-presidente Lula foi um dos que questionaram) não o fizeram para aceitar o resultado.

Do lado do Governo, a declaração de guerra dos derrotados foi aceita com pouco mais que sorrisos de superioridade – “Ganhamos, não? Choro e ranger de dentes liberados aí, talquei?” – e nenhuma vontade perceptível de guerrear na Justiça e nas TVs abertas.

E logo o preço por este armistício foi apresentado: acusações de todo tipo, desrespeitos ao Presidente da República sem paralelos na História do Brasil (não tenham o mau gosto de comparar o tratamento que Jair Bolsonaro recebe de formadores de opinião com o coro de torcedores entoando recomendações obscenas à então presidente Dilma Rousseff, sim?).

Acusações que o Governo tratou da forma pior: esgueirando-se até as cordas, o que na percepção da massa significa confissão de culpa. Claro que o Governo foi surpreendido com deserções vergonhosas, com estocadas desferidas por quem não se esperava, mas…. isso é do jogo, e o material humano que escolheu ou aceitou (ou aceitou por falta de escolha, o que indica que a candidatura teve mesmo todas as características da improvisação no sentido negativo da palavra) como companheiro não era o mais desejável, o que mais aconselhasse confiança. E isto também não é desculpa, pois o jogo político prevê possibilidades como esta, e ao jogador experimentado cabe superar quando as possibilidades piores se realizam.

Escolhas ruins (ou que eu não faria) e escolhas boas (ainda que apresentadas como nomeações grotescas pelos meios de comunicação de massa e formadores políticos sofreram os ataques previsíveis pela Oposição – o papel da Oposição não é este, afinal de contas?) sem respostas mais enérgicas que lives, postagens em redes sociais e talvez alguns processos de divulgação reduzida (e, por esta razão, ineficaz).

O Governo agiu como que se vendo obrigado a prestar contas apenas aos que o elegeram, descuidado dos indecisos (que já na eleição foram o risco), da massa que acessa internet apenas para ver amenidades e que utiliza ainda a TV aberta como meio principal de informação. Ainda assim, apesar de toda a carga inimiga, o Governo ainda conta com números favoráveis. Mesmo quando novas baterias de denúncias contra Flávio Bolsonaro são saudadas com fogos de artifício nos bairros nobres, os números das pesquisas não confirmam os desejos de gente do meio artístico dócil à casta acadêmica; a massa ainda acredita que mesmo com defeitos (ou mesmo irregularidades) fez a escolha acertada.

E pergunto: agora entendem por que, mesmo após as denúncias de Roberto Jefferson sobre o “Mensalão”, Lula se reelegeu? Quando há satisfação com o Governo, denúncias de corrupção podem muito pouco. A Esquerda não parece surpresa, e a Direita parece não entender ainda, como não entendeu na ocasião. E não entenderá, pelo visto, a queda da popularidade que poderá vir caso o Governo continue semi adormecido diante de ataques. Estas ondas de ânimo não são constantes, não se deve confiar nelas por tempo indeterminado. Como disse Antônio Carlos Magalhães : “um Governo precisa parecer bom, ser bom  não basta.” Não basta ao Governo realizar obras de infra estrutura e concretizar avanços (como garantir direito de posse a quilombolas) e negar na prática do dia depois de dia as previsões amedrontadoras que seus inimigos proferiram e proferem ainda,se a divulgação destes méritos continuar ineficaz,sem atingir as mentes da massa.

Não menciono as guerras entre apoiadores e ex-apoiadores do Governo, muitos vindos do culto ao Olavo de Carvalho. Que se divirtam, que sangrem-se na disputa das migalhas. Não tiveram a importância que supõem ter tido na eleição de Jair Bolsonaro. A massa, os milhões que acordam com o céu ainda com tons escuros de azul, ignora-os. Não os menciono pelo nome mais do que já mencionei alguns em textos anteriores. Não merecem, e também não faço parte deste elenco. Não fiz carreira no olavismo e não farei, portanto, carreira no anti-olavismo. Que estes colaboradores do “Pós-PT” continuem na disputa pelo dinheiro. Ou pelo Poder, gema ainda mais tentadora.

O ano vindouro será exigente e é bom que o seja.

Deixo aos leitores a reflexão de Mariel Reis neste 31 de Dezembro no seu twitter  (o qual recomendei no texto dedicado ao escritor – “Postagens que são também exercício diário de literatura”- sempre com reflexões e notas muito bem redigidas, Mariel parece não ver por que escrever descuidado do esmero em um meio como twitter, afinal nada proíbe utilizar a limousine, quando se tem uma, para ir à padaria da esquina) :

“As pessoas estão na praia diante do oceano, expectantes acerca de uma novidade saída do mar, cujo ápice para acordá-la (e iluminá-la) são os fogos de artifício. Assim, surgiria um monstro marinho mítico e com sua gigantesca respiração ressuscitaria a todos definitivamente.”

Que sejamos, pois, dignos deste monstro, deste sopro oceânico de Deus e saibamos evitar a mediocridade e a covardia.

Aos leitores e amigos do “FERNANDO PAWWLOW- CADERNOS”, um abraço apertado e votos de 2020 produtivo!

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