“Notas” – 31/12/2019

Notas”- 31/12/2019

Sobre o fim de um ano que não passou rápido

Chega o momento de registrar minhas notas de encerramento de ano, costume que venho observando no blog desde 2010.

Não posso escrever que nem vi 2019 correr porque o senti, no plano íntimo e como observador do enredo político, como poucas vezes senti os 365 dias antes de cada tomada de nota retrospectiva. Pelo que converso com as pessoas nas ruas, muitos sentiram 2019 mais denso que anos anteriores.

Ano inaugural de um governo eleito com total campanha contrária da imprensa mainstream e de blogueiros e tuiteiros aliados da casta acadêmica. O inimigo da casta acadêmica eleito pela massa vítima dos seus desmandos e por intelectuais e artistas que ousaram questionar a autoridade, conscientes do preço que pagariam.

Ano assim não costuma pegar despercebidos os seus passageiros quando termina.

Muitos se perguntam se valeu mesmo a pena o rompimento de amizades e as fissuras familiares por motivos de política eleitoral. Quando lembram que não foi eleição qualquer e sim plebiscito sobre rendição total à casta acadêmica, concluem que sim, que repetiriam o voto (alguns mesmo anunciam o voto para possível reeleição), ainda que com todas as reservas e oscilações de entusiasmo. E não deixam de lembrar que as amizades perdidas não foram perda que os fizesse arrependidos,muito menos as ligações familiares rompidas, pois a eleição apenas acelerara o processo.

Foi ano de guerra de reconquista, por parte da casta acadêmica e seus amigos nos meios de comunicação de massa e no mundo dos espetáculos. Não descansaram desde a contagem dos votos, mesmo porque anunciaram “resistência” ainda durante a campanha. Nem a facada mereceu trégua, ao contrário do que asseguram os que declararam na ocasião repúdio ao atentado sem repreender os que referiam-se ao candidato como “saco de bosta”, lamentando a sobrevivência da vítima. Os que se calaram diante de seguidores que colocaram em questão a veracidade do atentado (o ex-presidente Lula foi um dos que questionaram) não o fizeram para aceitar o resultado.

Do lado do Governo, a declaração de guerra dos derrotados foi aceita com pouco mais que sorrisos de superioridade – “Ganhamos, não? Choro e ranger de dentes liberados aí, talquei?” – e nenhuma vontade perceptível de guerrear na Justiça e nas TVs abertas.

E logo o preço por este armistício foi apresentado: acusações de todo tipo, desrespeitos ao Presidente da República sem paralelos na História do Brasil (não tenham o mau gosto de comparar o tratamento que Jair Bolsonaro recebe de formadores de opinião com o coro de torcedores entoando recomendações obscenas à então presidente Dilma Rousseff, sim?).

Acusações que o Governo tratou da forma pior: esgueirando-se até as cordas, o que na percepção da massa significa confissão de culpa. Claro que o Governo foi surpreendido com deserções vergonhosas, com estocadas desferidas por quem não se esperava, mas…. isso é do jogo, e o material humano que escolheu ou aceitou (ou aceitou por falta de escolha, o que indica que a candidatura teve mesmo todas as características da improvisação no sentido negativo da palavra) com companheiro não era o mais desejável, o que mais aconselhasse confiança. E isto também não é desculpa, pois o jogo político prevê possibilidades como esta, e ao jogador experimentado cabe superar quando as possibilidades piores se realizam.

Escolhas ruins (ou que eu não faria) e escolhas boas (ainda que apresentadas como nomeações grotescas pelos meios de comunicação de massa e formadores políticos sofreram os ataques previsíveis pela Oposição – o papel da Oposição não é este, afinal de contas?) sem respostas mais enérgicas que lives, postagens em redes sociais e talvez alguns processos de divulgação reduzida (e, por esta razão, ineficaz).

O Governo agiu como que se vendo obrigado a prestar contas apenas aos que o elegeram, descuidado dos indecisos (que já na eleição foram o risco), da massa que acessa internet apenas para ver amenidades e que utiliza ainda a TV aberta como meio principal de informação. Ainda assim, apesar de toda a carga inimiga, o Governo ainda conta com números favoráveis. Mesmo quando novas baterias de denúncias contra Flávio Bolsonaro são saudadas com fogos de artifício nos bairros nobres, os números das pesquisas não confirmam os desejos de gente do meio artístico dócil à casta acadêmica; a massa ainda acredita que mesmo com defeitos (ou mesmo irregularidades) fez a escolha acertada.

E pergunto: agora entendem por que, mesmo após as denúncias de Roberto Jefferson sobre o “Mensalão”, Lula se reelegeu? Quando há satisfação com o Governo, denúncias de corrupção podem muito pouco. A Esquerda não parece surpresa, e a Direita parece não entender ainda, como não entendeu na ocasião. E não entenderá, pelo visto, a queda da popularidade que poderá vir caso o Governo continue semi adormecido diante de ataques. Estas ondas de ânimo não são constantes, não se deve confiar nelas por tempo indeterminado. Como disse Antônio Carlos Magalhães : “um Governo precisa parecer bom, ser bom  não basta.” Não basta ao Governo realizar obras de infra estrutura e concretizar avanços (como garantir direito de posse a quilombolas) e negar na prática do dia depois de dia as previsões amedrontadoras que seus inimigos proferiram e proferem ainda,se a divulgação destes méritos continuar ineficaz,sem atingir as mentes da massa.

Não menciono as guerras entre apoiadores e ex-apoiadores do Governo, muitos vindos do culto ao Olavo de Carvalho. Que se divirtam, que sangrem-se na disputa das migalhas. Não tiveram a importância que supõem ter tido na eleição de Jair Bolsonaro. A massa, os milhões que acordam com o céu ainda com tons escuros de azul, ignora-os. Não os menciono pelo nome mais do que já mencionei alguns em textos anteriores. Não merecem, e também não faço parte deste elenco. Não fiz carreira no olavismo e não farei, portanto, carreira no anti-olavismo. Que estes colaboradores do “Pós-PT” continuem na disputa pelo dinheiro. Ou pelo Poder, gema ainda mais tentadora.

O ano vindouro será exigente e é bom que o seja.

Deixo aos leitores a reflexão de Mariel Reis neste 31 de Dezembro no seu twitter  (o qual recomendei no texto dedicado ao escritor – “Postagens que são também exercício diário de literatura”- sempre com reflexões e notas muito bem redigidas, Mariel parece não ver por que escrever descuidado do esmero em um meio como twitter, afinal nada proíbe utilizar a limousine, quando se tem uma, para ir à padaria da esquina) :

“As pessoas estão na praia diante do oceano, expectantes acerca de uma novidade saída do mar, cujo ápice para acordá-la (e iluminá-la) são os fogos de artifício. Assim, surgiria um monstro marinho mítico e com sua gigantesca respiração ressuscitaria a todos definitivamente.”

Que sejamos, pois, dignos deste monstro, deste sopro oceânico de Deus e saibamos evitar a mediocridade e a covardia.

Aos leitores e amigos do “FERNANDO PAWWLOW- CADERNOS”, um abraço apertado e votos de 2020 produtivo!

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“Notas”- 10/11/2019

Sobre susto nas colheitas

Onde a sabedoria popular que recomenda esperar colher apenas o que se plantou? Era frequente, nos dias de infância (quando o indivíduo se forma) ouvir: “Plantou limão, quer colher morangos? Estudou para a prova? Não? então o que você esperava? Fez o dever de casa? É…” Crescia-se sabendo que atos geram consequências e escolhas geram..

Escolheu-se qual comportamento no Brasil dos últimos anos? Análise criteriosa e impiedosa dos fatos políticos? A entrega ao trabalho de formação de quadros e institutos de estudos políticos em partidos e em quaisquer associações de interessados em Política? Reuniões frequentes entre iguais ou semelhantes na luta política?

Não!

A crença em saídas judiciais (sempre incertas e de alcance limitado) parece ter substituído a trabalheira enumerada no parágrafo acima. Afinal, tão mais fácil, não?
Reúnem-se provas (ou indícios) e…pronto!!!
“A capa da ‘Veja’ de Sábado cumprirá sua missão de perturbar o sono dos canalhas.” (não era este o bordão de Augusto Nunes?)

Bom… prendeu-se Lula. E… como a lei previa, a soltura era questão de tempo ( os prazos estabelecidos , com seus respectivos abatimentos), e foi. Logo.. . por que o susto? Acreditaram que ele ficaria preso para todo o sempre? Apostaram todas as fichas nesta prisão, sabendo-a sujeita à Lei em vigor (que determina soltura decorrida alguma fração da pena) e agora choram e rangem os dentes?

Mesmo o discurso onde insultou seu juiz e agora Ministro Sergio Moro e o Presidente  Bolsonaro (entre outros alvos) só assustou, ou surpreendeu, a quem não lembra dos depoimentos ao Juiz quando ainda preso. Nunca nenhuma interpelação mais severa  (“não discutiremos com um presidiário”), nem mesmo quando insinuou que a Polícia Federal plantara provas contra ele. Por que então se declarar surpreso com o discurso de Lula aos seus no imediato pós-soltura)?
(Jair Bolsonaro e Sergio Moro insistindo na linha de conduta   “Não responderemos ao que vem de baixo”. Depois não se queixem, sim?)

As coisas seguem sua lógica, e não se deve (ao menos segundo opinião dos tratadistas mais consagrados da Ciência Política) contar com exceções à lógica das coisas (dos fenômenos, causas e consequências) na luta política. O que pode resultar em erro quase sempre resultará em erro. E esta sabedoria elementar vem sido ignorada pelos atores da Política; dos formadores de opinião aos militantes em política partidária, todos ou quase todos, parecem acreditar que bons sentimentos e boas intenções prescindem de preparo e ânimo de luta.

“O Povo! e Deus, sobretudo Ele, estão do nosso lado”.

Bom, quem votou em Bolsonaro pelas privatizações? Quem votou em Bolsonaro, e declarou voto, e perdeu amigos, e foi hostilizado e estigmatizado, pela agenda macroeconômica? Acho que ninguém, ou quase ninguém. Ao menos por onde este blogueiro anda, a motivação foi outra. Conto aos senhores:

O homem da rua, que enfrenta filas de ônibus e os ditos ônibus, e filas para o trem e os ditos trens, ambos sempre lotados, saltando da cama com os tons de azul no céu ainda indefinidos, tem como preocupação maior a segurança própria e dos seus. Trata-se de gente cansada de ser assaltada ao chegar do trabalho depois de um dia impiedoso. Gente com feridas que não cicatrizam; filho morto pelo par de tênis, filha estuprada voltando ou do baile ou da igreja, pai idoso surrado em fila de posto de saúde (ou morto por não lembrar da senha do cartão do banco sob pressão dos assaltantes). O homem da rua votou em Bolsonaro por isto. Por mais nada que isto. Não foi pelo “kit-gay”ou por temor de grandes organizações criminosas e/ou quadrilhas de traficantes (como parece acreditar Moro e sua equipe, ao considerar o tal “Pacote Anticrime”).

Latrocidas, estupradores e sequestradores tiraram e continuam tirando o sono do homem comum (sequestradores não escolhem apenas milionários -ainda que isto não seja atenuante – ao contrário do que imaginam imbecis nutridos pela dieta da casta acadêmica), não o possível déficit da Previdência ou suposta urgência nas privatizações.

Burocratas e tecnocratas parecem incapazes de conectar-se à dor dos que tiveram gente querida roubada do convívio por quem, empunhando arma, debocha anunciando retorno às ruas em breve (“Daqui a pouco tô na rua, tia”). Eleitores acreditaram que Bolsonaro não padecesse da mesma patolologia; caso decepcionados, votarão nele em 2022?

Um ano quase e qual tabu estabelecido pela casta acadêmica sobre criminalidade foi confrontado pelo Governo? Qual esforço para remover o critério etário para latrocidas e estupradores, por exemplo? Onde o Governo se movimentou para encaminhar mudanças no Código Penal e suas aplicações no cumprimento de penas (a progressão de pena para crimes graves sendo minimizada, senão suprimida)? Olha, caso esteja sendo feito esforço neste sentido, este está sendo mal divulgado, o que resulta, do ponto de vista político, como não houvesse esforço algum. E daí os indecisos tornam-se a principal reserva de votos para 2022.

O eleitor de Bolsonaro (mesmo o eleitor compulsório, o que votaria em qualquer um contra o PT) não está se sentindo pago com a escolha, esta é a verdade. Daí as declarações de arrependimento. Daí as declarações de indecisão eleitoral. Daí o silêncio do homem comum nas redes sociais e caixas de comentários. São as impressões perceptíveis ao observador político neste Novembro. E destas impressões, Lula e seus apoiadores, ou sócios no jogo político, extraem o ânimo para remover máscaras e declarar guerra contra o que lhes pareça obstáculo. Não veem por que constranger-se ao teatro da conciliação.

Falar em teatro das boas maneiras, e o Augusto Nunes, hein? O que recebi de WhatsApp com o tal vídeo dele retribuindo a agressão verbal do Glenn Greenwald com agressão física. Parece que ele não teve muito senso de humor com a acusação de covardia por parte do ativista americano, e deixou certas regras pequeno-burguesas de polidez de lado. Se querem saber minha opinião, o Brasil e o Mundo precisam de mais gente disposta a sair no braço. Mas que me surpreendi com o Augusto Nunes, me surpreendi. Não que ele fosse plácido, o que sua carreira de tribuno o nega. AN sempre foi um combatente em textos. Tanto que sempre me referi a ele como “Bravo Augusto” (muito em homenagem aos conflitos que enfrentou, com rara vontade entre brasileiros, com a máquina jornalística sindical do PT, tanto como diretor de “O Estado de S.Paulo” quanto em sua fase gaúcha, no “Zero Hora”).

Augusto Nunes sempre foi mistura interessante de tribuno de ideário pessedista com retórica udenista. Mas encarnando em “Veja” o militante do PSDB encarnou também  o Sr. “Não Briguemos Com Gentalha”. Nada de responder ataques de blogs (ainda) pequenos.

“Somos vidraça, natural que nos joguem pedras”, parecia ser um seu lema.

Não foi ele quem, repetidas vezes, respondeu com enfado indisfarçado às minhas também repetidas reclamações quanto ao silêncio da sua coluna em “Veja” sobre blogs e sites ligados ao sistema de Poder do PT e associados, com seus ataques e perseguições aos seus colegas jornalistas e ameaças sem disfarces ao que parecesse obstáculo ao sonho de domínio total deste sistema de Poder?

“Não vou perder tempo com isto…perca o seu, se quiser.”

Eu era ali o chato, o leitor que não se mancava. Claro que desisti de insistir e desertei da caixa de comentários daquele espaço. Mais tarde, AN, ainda em “Veja” clamou por CPI da Imprensa do PT, mas já era, como de costume, tarde, tarde demais…

Gente como Greenwald, e seu site, e sites e blogs que o apoiam, cresceram desta omissão cometida por gente que não tinha o direito de se omitir. Augusto Nunes colheu a acusação gritada de covardia da plantação de alguns anos. Por que o susto? Por que a fúria? Acaso acredita que um tabefe e um cruzado apagarão sua participação nesta tragicomédia?

A Direita de internet, incapaz de interpretar História, e portanto, incapaz de elaborar raciocínios políticos, aplaudiu estes tapa e soco como uma vitória, um feito político memorável. Desta comemoração do nada decerto haverá alguma colheita.

O injusto nesta colheita de imprevidências é que eu e o resto colheremos, todos juntos, o que não plantamos.

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“Notas”- 27/10/2019

Sobre Mariel Reis

Às vezes tem-se esta sorte: descobrir um autor. Lembro, por exemplo, do dia que abri o fascículo de “Literatura Comentada” (coleção da ed.Abril) dedicado ao Dalton Trevisan. Li, reli; obsessão com o mestre do conto começou ali, e lembro da tarde chuvosa da minha adolescência. Sabe quando se lembra da primeira vez que ouviu-se determinada música; onde estava-se, com quem e sobre o que conversava-se?

Dia destes, coisa de menos de mês, soube do Mariel Reis. Palavra que nunca tinha lido uma linha a respeito nem ouvido falar. E o homem é veterano, com livros publicados e inúmeros textos espalhados pela internet, em sites e revistas eletrônicas.

Contos, poemas, letras de música, ensaios. A busca por seu nome na internet presenteia o interessado com este menu, variado e generoso. Pois é autor produtivo. Mais procuro, mais encontro. E mais interessado fico, e mais procuro, mais encontro…

Três de seus contos me tocaram ao ponto da releitura frequente; são, ao menos na produção encontradiça na internet (não, ainda não li seus livros, difíceis de encontrar em sebos; bom sinal, quem tem não se desfaz) suas obras maiores.

São os contos “Boa noite, Burroughs”, “Revolução e “Culpa”.

“Boa noite, Burroughs” é um exercício de imaginação e homenagem literária. Posso ser pedante e escrever ”exercício de estilo”. O narrador que parece ser uma citação do autor homenageado no título, perambula pela noite de uma metrópole, às voltas com suas adições e prazeres. Nada adjetiva, apenas descreve com o que permanece de lucidez apesar de todas as drogas, de todas as aceitações sem reservas do que sua carne exige.

“A noite vertiginosa sobre os prédios. A demência das ruas e os homens, estragados por ela, vendiam todo tipo de coisas. Os letreiros luminosos das casas noturnas, as vedetes, as prostitutas, os michês e os drogados, à meia-luz, negociavam expedientes conhecidos. A polícia revistava os negros. Pago a corrida. Salto do carro.”
(…)
“Meu braço doía. Retirei o estojo da calça, abri-o sobre a penteadeira. Dobrei as mangas do sobretudo, preparei o pico e amarrei o garrote. Servi-me como a um  rei.”

(…)
O motorista quer ver a cor do dinheiro, sem ele nada feito. O que um senhor de idade faz em um lugar desses? Não interessa, rapaz. Toca o carro.”

Narrativa de fôlego; citações cifradas de alguém que conhece e aprecia o universo beat, expresso em livros e filmes, sem permanecer na superfície, recusando as facilidades que muitos utilizam para “dialogar” com esta linhagem.

“Revolução” aplica os estudos de Mariel sobre Revolução Russa ao universo suburbano de apetites sexuais cozinhados sob o sol e o tédio; a solidão e as reminiscências marcando, para cada um, a guerra íntima consigo e com o meio pegajoso e convidativo à decadência.

A guerra do personagem narrador encontra um estrategista na figura de um militante comunista experimentado; as lições da tomada (e manutenção) do Poder não diferem da tomada do território de um bairro, de uma mulher desejada (afinal, não só o herói deseja a deusa do sexo). O microcosmo confirmando o macrocosmo. Ou o macrocosmo confirmando o momento no qual o microcosmo pareceu intolerável ao futuro revolucionário célebre. A rebelião contra a autoridade paterna não foi o ensaio de tanto revolucionário?

“Os mártires de qualquer espécie são sempre uma forma de aviso. Se um homem precisar morrer para que outro se salve, não vejo nisso qualquer contradição. Cresci ouvindo isso. Ele era filiado ao partido.(…) Tudo aquilo entrava na minha cabeça. O Estado precisa da mentira, ela é útil a determinados manejos. Ele não pode permanecer com a mentira. É legitimo utilizá-la, mas é preciso torná-la real para quando for verificada. A mentira é uma projeção do que será a verdade. Não poupe esforço para alcançá-la.”

A mãe conservadora do narrador também presente neste teatro de operações:

“Minha mãe não poupava críticas a mulher da casa da frente. Chamava-a de uns nomes de reputação duvidosa. Ensinava que era errado o que ela fazia. E tudo aquilo entrava em minha cabeça.”

Entre as advertências da mãe sobre a promiscuidade e a periculosidade da vizinha (a Imoralidade dela o levaria, pelas estradas do desejo sexual ,ao Inferno) e os conselhos do comunista veterano, o herói percebia as contradições do seu momento histórico:

“Eu não gostava da mulher da casa da frente.
É mentira. Sonhava com a mulher da casa da frente. Ela com a bermudinha curta, mostrando a polpa da bunda. Ela lavando roupa sem sutiã. Ela limpando o peixe com decote que deixava ver os seios. Sonhava em meter um filho na mulher da casa da frente. Ela me olhava. Minha mãe me recriminava quando me pegava olhando longamente para ela. Está olhando o quê? Aquela piranha?”

O tutor, por sua vez, não lhe dava descanso, cuidadoso do ofício de formar militantes:

“Expropriação não é roubo, é empréstimo. Quando a revolução triunfar todos serão ressarcidos. E quando se toma de um tirano repatria-se para o povo. Não há deslize ético nisso. Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos, não é? Quem é a menina por quem você está apaixonado? A melhor camaradagem é entre homens. A mulher é para trazer filhos para a revolução. É a parte mais fraca de uma nação, não sabe? Por que você perde tempo com as mulheres? Dei-lhe os livros, você leu? É improvável. Por que não resolve logo isto? A mulher mora em frente à sua casa, não? Muitos pretendentes. E você a quer só para si mesmo? Tire-a deles, rapaz. Você é mais forte. Obstáculos? Remova-os. Lembra-se do que disse sobre a revolução? Não há nada de errado nisso. É preciso cautela. Além de cautela, planejamento. Se a mulher é tão importante para você, ela é sua revolução. Procure construí-la, rapaz. Às ferramentas, juventude!”

Lógica difícil de derrotar, não? Não há como se obter o que é desejado por muitos sem estar disposto à violência, ao enfrentamento. Todos contra todos na luta pelo corpo de uma mulher, de um cargo, de uma posição social. A fama e o prestígio exigem lutadores. O Poder exige sem perguntar o que se pensa das suas exigências. Por isto é o Poder.

“Ele me entregou um estojo. Não se faz uma revolução sem armas. Abri o estojo. Está municiada. (…) Acha que eles a entregarão facilmente? (…)”

“Culpa” poderia ser expandido para uma novela ou romance. Ou adaptado pra roteiro de filme ou caso especial de TV. Cada frase sugere as biografias omitidas, o grau de tensão entre homem e mulher vitimados pela junção dos seus escombros. Como tantos casais, como tanta gente. Pessoas encontram-se com seus livros de vida já escritos para mais da metade, e no entanto a ilusão de início de novo livro…não é assim?

“Por que ela não fugiu? O que ela queria? Eu nunca tive juízo nunca Ela sabia muito bem que casou com um homem sem miolo nenhum (…)Ela se disse magnetizada hipnotizada imantada à cena grudada ao que via ouvia. Nojo, revolta, desprezo, amor, ela não sabia o que sentia”

O narrador diz de si, como justificando seus atos:

“Filhos? Eu não queria filhos. Atrapalham. Ela não me ouviu Sou um sujeito sem paciência sem muito jeito Sozinho e silencioso (…)Eu argumentei que a vida ficaria mais difícil Ela disse não se pode contrariar as leis de Deus Perguntei se Deus pagava as contas da casa? Se Ele colocava comida à mesa? Ela pare de blasfemar, homem Não me contive e dei nela com a correia da calça para ela aprender que Deus não tinha nada com a minha vida.”

Não haveria dinheiro, e esta conta o narrador não via respondida pelo Deus invocado pela mulher; o mesmo Deus parecia ao narrador incapaz de dividir o tempo e o corpo da mulher com os filhos e isto parecia ao homem mastigado pela Paixão mais intolerável que a provável falta futura de dinheiro:

“Ela perguntou o que deu em mim Vontade de ficar sozinho com você. Sozinho com você e com o mundo. Por que não me pediu isso antes? Você ocupada com os filhos: eles em primeiro lugar.”

A solução, por terrível, é, ao narrador, a solução possível. Obstáculos não são para serem removidos? O que as crianças poderiam lhe ativar de ternura e mesmo a semelhança do filho mais velho (“ele parecia mesmo comigo”) não o demoveriam: a mulher só para si, como no começo. Como se encontraram.
Na estrada, no ponto de caminhoneiros, onde o Rio de Janeiro nega o turismo e as fantasias.

E na descrição deste pedaço não celebrado da metrópole, o paralelo entre personagens não celebrados pela narrativa carioca para deleite de classe média ávida por faroestes de favelas, ou pseudosociologia, ou psicologia social embalada pra consumo de aspirantes à casta acadêmica. Os seres vivem comprometidos com suas mazelas e ideologia alguma aliviará esta informação luminosa: estamos sós e responderemos sós.

“Passei do clube dançante pedalei para longe das poucas luzes do lugar A estrada se tornou difícil (…)Era uma estrada secundária passavam poucos veículos. Os motoristas não estranhavam em nos ver caminhando pelo acostamento Havia uma ou outra casa por perto Os faróis a assustavam. A noite, não. (…)Caminhamos por mais uns cem metros, apareciam pontos de prostituição. Várias mulheres na beira da estrada, iluminadas pelos faróis dos poucos veículos. Sem eles, sombras recortadas contra o fundo da noite, sem identidade.”

O mesmo cenário como fecho do conto, e síntese das biografias dos personagens e do enredo:

“Ela voltou ao passado.
Passa sempre aqui? Gosta de crianças? Não, não gosto. Coincidência, eu também não (…) A lua emprestava o romantismo possível (…) Sabe, comecei, já fui casado, tive quatro filhos O que aconteceu? Morreram em um acidente Quer ouvir minha história?”

 

Estes três contos me deram muita vontade de ler seus livros; ”Vida Cachorra”,  “John Fante Trabalha No Esquimó”, “Linha de Recuo E Outras Estórias”, e a busca nos sebos mal começou.
Enquanto procuro, sirvo-me com o que encontro na internet. Merecem leituras e releituras, e não recomendaria ao amigo leitor não tivesse certo de que é autor que não se deve continuar desconhecendo. E não escreveria este texto não tivesse intenção de escrever mais a respeito.

Bom…querem mais Mariel Reis? Seu twitter traz suas apreciações (quase diárias) sobre literatura, teledramaturgia, cinema, teatro, música (letrista que é), poesia. Mais inquietações filosóficas e metafísicas. E seus registros de indignação quanto ao pouco ou nenhum crédito dado aos intelectuais independentes, como ele, de ideias “reaproveitadas” pela casta acadêmica. Postagens que são também exercício diário de literatura.

Foi um presente a descoberta (tardia)  deste autor. E isto merece mais textos, e eles virão.

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“Notas” – 20/10/2019

Sobre desabafos nos  rompimentos de amizade

Quem não conheceu amigo (a) apenas quando a amizade chegou ao fim?

“Mas Fulano (a) pensava isto de mim? Quem diria…”

O amigo da véspera revela-se inimigo disposto a decapitar e expor a cabeça na feira. Conheci muitos dos antigos “amigos” desta maneira: apelidos;  sonhos e desabafos que o bom senso recomendaria não dizer ao reflexo no espelho convertidos em tópicos de anedotas; recomendações a terceiros sobre evitar amizades comigo, etc.

Quem não passou por isto? Repito. Eu já. Não apenas uma vez.

Mas a experiência vai tornando o homem guardião mais severo dos seus segredos e mais cauteloso antes de abraçar uma suposta amizade. Procura-se ser paciente com as demonstrações que o candidato a amigo oferecerá, não importa o tempo, do que pretende de fato. E aprende-se também a não negar para si o que se percebe, o que o candidato a amigo exterioriza seguro de que não está sendo notado.

“Fulano (a) parece carreirista demais, não? Ah…não… também não é assim…perfeito só Deus”.

“Meio falso (a) ele(a), não? O que disse de Beltrano a quem deve tanto (ou o que calou quando este Beltrano a quem tanto deve foi atacado em sua presença) …”

Feitas as contas verifiquei que fui enganado porque quis. Muitos dos traços de caráter que me assustaram quando do rompimento já estavam sendo exibidos sem maquiagem. Sempre foram. E quando a maquiagem cobria o rosto, tudo era visível para os que buscaram me advertir.

Estas recordações me ocorrem quando observo estes rompimentos de antigos admiradores e amigos de Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho; os sujeitos não se declaram apenas insatisfeitos, ou descontentes, ou desiludidos, ou desejosos de afastamento a bem da própria amizade (como fez Frei Betto quando saiu do Governo Lula). Não. Os termos que utilizam mostram que as mágoas foram cozinhadas muito além do ponto.

“Farsa perigosa”, Lobão sobre Olavo de Carvalho, a quem dias antes enviara e-mail de amizade de fato comovedora. Sim, “o meu amigo Olaaaaavo”, o “Olavaaasso”.

Mas quando Lobão defendeu Olavo quando seus circundantes o chamavam de “charlatão” e “astrólogo” ? Não me lembro de defesa veemente do “querido amigo”. Isto não seria sinal? Isto não foi menosprezado? E lembro do que Jean Paul Sartre escreveu sobre má fé, apontando-a nestes “Não estou vendo nem ouvindo o que estou vendo e ouvindo”.

Alexandre Frota talvez tenha sido mais competente e cuidadoso: defendia Bolsonaro sem economia de suas fúrias, e foi rompendo aos poucos, apresentando pretextos plausíveis e convincentes – o que deveria calar a boca de quem supõe Frota um estúpido, um primário.

Ainda assim, suas demonstrações mais recentes de oposição ao amigo da véspera assustam. Confesso que me surpreendi q ; algo deveria estar incomodando o deputado há muito, muito tempo. Ele parece estar vomitando frutos de uma digestão muito lenta.

E Joice Hasselmann…bom…Joice Hasselmann não teria sido amizade aceita depressa demais, não se teria esquecido depressa demais as declarações sobre Bolsonaro em outros tempos? Não se deveria ter exigido mais quando da sua conversão?

Porque a Esquerda exige. E está, para não variar coisa alguma, certa.

Como se pretende partir para uma guerra política sem a certeza de que se marcha junto a camaradas e não com aventureiros prontos a trair à oferta de vantagens e aos argumentos da memória que dizem: “Você não estaria se arriscando demais? Você tem muito a perder.”

Esquerdistas sabem que muito está em jogo, e este muito não perdoará deslizes e armadilhas da vaidade. O sujeito que se oferece como camarada não está prestando qualquer favor. Ele que terá que provar, a cada instante,  ser digno do destino ao qual entregou-se. Seus afagos desacompanhados de ações valem menos que nada.

Na Direita, o abraço substitui o oferecimento do braço a mais em uma briga, o elogio substitui a defesa veemente. E às  primeiras dificuldades…

 

O ex líder do Governo na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (PSL-GO), anuncia que irá “implodir”o Governo do qual era líder e chama Bolsonaro de “vagabundo”.

Isto, este pequeno exemplo, em menos de ano de Governo. Dez meses para ser mais preciso.

Amizades hoje em dia terminam rápido. E terminam com vômitos de recalques e mágoas em público. Não se dispensa a dramaticidade no rompimento. Pois ela, a dramaticidade no rompimento, é capital político.

A Direita ou apenas os adversários do esquema de Poder do PT e associados precisarão aprender a fazer amizades verdadeiras . O “Pós-PT” já sabe, e rejeita quem tenta abraçá-lo sem a adesão total e absoluta.

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“Notas”- 13/10/2019

Sobre rachaduras no edifício

Sim, sei que saiu reportagem sobre militantes bolsonaristas na Internet que receberiam dinheiro público para monitorar outros tantos militantes bolsonaristas, ou robôs; conversas de Whats App teriam sido divulgadas e seriam a prova de que existe um esquema organizado de linchamento de dissidentes.

Bom, não li nem lerei a matéria (pois não assinante da publicação), mas tirando a novidade de que militantes responderiam a pessoas próximas ao Governo e que haveria remuneração, nada me é muito estranho, muito admirável. Quem acompanha a militância que essa Direita pratica, sabe que o nível de argumentação é baixo, com insultos,simplificações e exibições de ignorância grotesca.

Não se tomou o cuidado de peneirar, desde o que se pode chamar de início, militantes valiosos de escumalha de internet. Peneirava-se com peneira frouxa, pode-se dizer. O sujeito sabendo meia dúzia de clichês, um punhado de memes, citações de Olavo de Carvalho, era já um formador de outros quadros.

Fundar canais no YouTube com conteúdo de replicações e traduções malfeitas, ou trechos do “True Outspeak” do Olavo também era currículo que habilitava a líder de grupos de Whats app. Caso os vídeos terminassem com o “Decálogo de Lenin”, tanto melhor. Muita celebridade de internet nasceu assim. Quem consegue contar quantos youtubers surgiram no período com a fórmula “Vídeo ao volante do carro – YouTuber de costas para estante de livros”?

Mesmo o autor da reportagem, com seu texto sem brilhos, com presença frequente de expressões como “mimimi” e alvo de piadas na caixa de comentários quando mantinha coluna na “Veja” foi, por ter feito uma compilação de Olavo de Carvalho, promovido a analista político, jornalista de prestígio.

(Não adiantará Olavo de Carvalho referir-se a ele, doravante, como “puxa-saco”. Ele é obra do Olavo)

Então nada pode assutar, surprender ou enojar quem observa há algum tempo a base da apoio entre os formadores de opinião entre eleitores de Jair Bolsonaro. O que está acontecendo era previsto e escrito por todos os observadores atentos, incluindo aqui este blogueiro (consultem o arquivo): assim que Bolsonaro subisse ao Poder veria que não teria colunas de sustentaçao nas quais se apoiar.

E chega assim ao final do primeiro ano de Governo sem conseguir divulgar o que seus ministros fazem de bom e seus esforços no Congresso, pois escolheu como correias de transmissão elementos fracos e dispersos desde o início.

Falei aí em cima sobre divulgar feitos dos seus ministros, não? Pois Elio Gaspari, sim, Elio Gaspari, fez texto louvando a fala do Ministro Abraham Weintraub aos donos de faculdades. Elio Gaspari, autor de palavras ora satíricas ora amargas sobre este ministro. Por que não foi esta militância ruidosa, e pelo que se apresenta, paga, com blogueiros e tuiteiros tão operosos, a divulgar o momento ministerial?

Maquiavel no “Tito Lívio”observava que o temor de represálias era o freio da maldade humana e Leon Trotsky advertia sobre atores políticos que se permitem ser ridicularizados por suas ações. Como um Governo com tantos inimigos se permite ficar sem forças para adotar represálias políticas e se deixa ridicularizar por apoiadores grotescos? Como se trata o Poder com tamanho menosprezo acreditando que não pagará qualquer preço? Confiando apenas que o eleitorado confiará nele comparando-o ao sistema de Poder do PT e associados?

Repito: nada me surpreende, talvez a velocidade que se verificou entre infiltrações ao processo de rachadura do edifício. Hoje tudo é mais rápido, parece que processos intermediários foram sendo eliminados neste mundo de facilidades, de atalhos.

Criar grupos de estudo antes da mais mínima ação política?

“Não, nao temos todo este tempo.”

Selecionar mais, barrar analfabetos ou obrigá-los a frequentar aulas de formação de quadros, para evitar que aventureiros iletrados sejam promovidos a agentes políticos e formadores de opinião?

“Não podemos nos dar ao luxo de escolher muito.”

Verificar através de observações, não importa que sejam estas frutos de testes, os graus de comprometimento, para evitar que carreiristas sejam promovidos e depois abandonem o front assim que a trincheira receber as primeiras visitas de explosivos?

“Assim não chegaremos a lugar nenhum, temos pressa, o PT pode voltar…”

E assim chegou-se a este quadro onde o Presidente pode contar (tendo contra si a casta acadêmica e seus braços na Imprensa e no mundo dos espetáculos) com alguns abnegados, com seus filhos e consigo próprio. E com aqueles que não abandonaram ainda o barco (e talvez nunca abandonarão) porque não seriam aceitos em outro.

E estamos no primeiro de seus quatro Outubros, apenas.

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“Notas” – 06/10/2019

Os inimigos que a casta acadêmica pediu aos deuses

Talvez não haja pedido de socorro mais convincente que pedir a Deus, além das forças para combater, inimigos incompetentes, desastrados, ridículos e que acreditem-se competentes, habilidosos e charmosos, carismáticos.Voltaire afirmou ter sido este (contar com inimigos ridículos) um seu desejo.

A casta acadêmica custou a encontrar um intelectual independente que a confrontasse, que a expusesse ridícula e detentora indevida de Poder : Olavo de Carvalho. Os textos publicados em jornais e dispostos na coletânea “O Imbecil Coletivo”mostrara que os tempos do Poder sem questionamentos do clero acadêmico estavam por terminar. E o resultado foi o autor ter tornado-se, desde então, o Inimigo Primordial da casta acadêmica e dos seus braços na Imprensa e no mundo dos espetáculos.

Muitos entre os tantos milhares de leitores passaram a considerar-se também habilitados a combater; decerto alguns o eram de fato.Mas outros tantos… e o resultado tem sido este: a casta acadêmica tem se fortalecido dia a dia apenas com os inimigos que possui. Pois estes são um presente dos céus: tolos, inconsequentes, presunçosos e analfabetos funcionais. Os inimigos que a casta acadêmica pediu aos deuses.

Tive mais uma prova disto a semana passada: comentei no perfil de Sarah Winter no Instagram em postagem que exibia personagens de desenho animado rindo de livro feminista. Morrendo de rir. Rindo de se dobrar. Como se um movimento que contasse com dinheiro e presença na casta acadêmica e nos seus braços da Imprensa pudesse ser tomado como piada, como anedota estúpida. E cometi a estupidez de recriminar este riso. Por que fui socar a caixa de marimbondo, hein? Fui chamado de “gado”, “cow” e recebi diversas respostas que me tomavam como um defensor do feminismo, ou como um comentarista apontou, um “isentão”. Dois comentaristas apenas compreenderam o que escrevi. Dois.

Gente que se considera pronta a derubar o Poder da casta acadêmica e é incapaz de compreender um comentário óbvio, sem nada de rebuscado, erudito ou esotérico. Mas que se apresenta aos ringues das caixas de comentários, que se entende como intelectual,e parte dos escolhidos a instaurar no Poder,uma vez derrubada a casta acadêmica,a “Alta Cultura”. “Alta Cultura” de terraplanismo e de “denúncias” sobre autoria de canções dos Beatles por Theodor Adorno baseadas em comentário ligeiro de Olavo de Carvalho. Os intelectuais incapazes de decifrar um rol de roupa suja prontificando-se a derrubar a casta dos Doutores e Pós -Doutores mais o clero de Mestres e universitários aspirantes ao Clero.

Não, não digo que a Esquerda não disponha de pelotões de analfabetos funcionais. Claro que dispõe. Mas toma o cuidado de mantê-los como MAVs sem maior expressão,ou mesmo identidade personalizada. Toma o cuidado de manter seus iletrados em funções próprias: pichar muros, dar esbarrões em transeuntes suspeitos de antipatia nas vizinhanças de seus comícios, berrar em cima de caminhões (e mesmo assim, seleciona melhor que a Direita seus Cíceros de trio elétrico). Nenhum vira estrela de caixas de comentários com nome e foto, ou blogueiro de prestígio, ou ministrador de cursos…

Como? Voce , Pawwlow, sugere que tem visto comícios de esquerdistas com oradores brilhantes?

Não, não digo “brilhantes” , mas competentes em suas arengas e hábeis em citar números e, sobretudo, mencionar as proezas que os inimigos exibem na internet como prova de que, sem eles, cairemos de vez no reino da barbárie. Fui testemunha disto em um destes comícios na Pça Sete, semana passada.A oradora mencionava terraplanistas e outras demonstrações dos “Inimigos das Educação”. Muitos dos que se irritaram com mais uma paralisação do trânsito sorriam ao ouvir. Claro que o espírito se vai preparando assim, com constância e cuidado em apontar ao público as bobagens do plano antagônico.

Lembrei do tempo em que colaborava no “247”. Poucos comentaristas me insultavam pelo que eu não havia escrito; muitos entendiam e tratavam de me desqualificar,mas mostravam ter entendido, e bem, o que eu escrevera. O blog cresceu em visitas quando exposto ao público do site. Idem quando os textos do meu blog eram publicados na “Tribuna da Internet”. As críticas eram pertinentes. Quem atacava o conteúdo parecia saber o que dizia, discordava do que mostrava haver entendido. Sem falar da republicação em blogs que replicavam estes sites. Blogs de Esquerda, sim? Já na Direita…fui atacado por algo que nada tinha a ver com o que eu havia escrito.

Mas na verdade este episódio na caixa de comentários da Sarah Winter confirmou o que eu experimentara sempre que mostrei meus textos aos membros desta família espiritual, destes inimigos da casta acadêmica. Raros entendiam o que eu de fato havia escrito. Divulgar e replicar? Hoje entendo meu blog nunca ter sido replicado e divulgado por gente deste meio. Não republicariam ou divulgariam o que não conseguem entender nas suas mentes viciadas na dieta de palavrões como mostra de virilidade política, trocadilhos ginasianos e simplismos de leitores de verbetes do Google.

Não sou vidente e desprezo quem escreve diante de bola de cristal, mas arrisco um palpite: dependendo das amostras que a Internet oferece, a casta acadêmica e seus braços políticos partidários, na Imprensa e no mundo dos espetáculos nada precisam temer no curto, médio e longo prazos; inexiste ameaça real onde pessoas não conseguem entender o mínimo, o óbvio, a mais simples mensagem.Para este público, ditos de parachoques de caminhão e reclames de porta de sanitários públicos são pedantismos intelectualóides advindos da “Escola de Frankfurt”, dos discípulos aplicados de Antonio Gramsci e dos que não descansam até cumprir o que está prescrito no “Decálogo de Lenin”.

Sim, amigos. Estamos fritos, cozidos e assados. A casta acadêmica vencerá sem muito esforço esta parada. E talvez nem comemore muito, algo surpresa de ter sido tão fácil.Tiveram seu susto com o tal de Olavo de Carvalho, mas…olha a cobra….já passou… há há

Quanto a nós…haverá outra chance?

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“Notas” – 29/09/2019

Sobre Jair Bolsonaro na ONU

Helio Fernandes advertiu dias atrás, em seu blog, sobre “fuga” que Jair Bolsonaro empreenderia quando fosse discursar na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU); na hora do discurso pretextaria seu estado de saúde abalado e transmitiria a missão para algum orador da comitiva. Decerto foram as mesmas fontes que avisaram ao mais antigo jornalista em atividade no Brasil (talvez do Mundo) que as comitivas de alguns países se retirariam em protesto logo Bolsonaro ocupasse a tribuna. Não houve nem “a fuga do vexame”nem o protesto das delegações.

(A retirada em protesto da delegação cubana não me parece comprovação do que fora previsto pelo jornalista, posto que efetuada apenas depois das críticas ao programa “Mais Médicos” e não como protesto contra posições anteriores de Bolsonaro.)

Houve um Presidente dizendo ao Mundo o que encontrou quando assumiu o Poder e quais forças apresentam-se como suas antagonistas e o que estas forças fizeram e pretendem continuar fazendo. Claro que poderia ter enumerado escândalos no lugar de adjetivar seus antecessores, mostrar como estavam alguns fundos de pensão, por exemplo. Ou as leis contra o cidadão comum e favoráveis aos criminosos que foram implementadas nestes governos, etc.

Foi o discurso dos sonhos? Não. Penso que Bolsonaro abusou do termo “socialistas” o qual me parece vago e inexato. Talvez enumerar os países e seus feitos seria mais perfurante. Recitar os números da generosidade governamental brasileira com estes regimes (em parte este esclarecimento foi feito – e muito bem feito, diga-se – quando Bolsonaro explicou o programa dos médicos cubanos) também.

Falar em “Ideologia” quando deveria falar “propaganda ideológica” também me pareceu ineficaz, mesmo porque exemplos que substituiriam com folga estas adjetivações não faltam nas questões relativas à Educação e policiamento de linguagem nos meios de comunicação de massa. Há como demonstrar o que as discussões públicas perderam em autenticidade e avanço democrático sob o jugo da casta acadêmica. Ao adjetivar, abre-se espaço para réplicas fáceis.

Mas ainda assim foi histórico um Presidente de um país sul-americano falar sob holofotes do Mundo e diante de Chefes de Estado europeus que a Amazônia é nossa e não de uma suposta comunidade de nações zelosas “pelo Futuro das Próximas Gerações”. Hipocrisia escrever que não diverte assistir delegações da França e da Alemanha (com a própria Angela Merkel) serem apresentadas à diferença entre o que resta de área preservada em seus países e no Brasil.

E a fala, para mim irretocável e já merecedora de registro nos livros de História, sobre povos indígenas e as pressões para demarcações de terras que abrigam riquezas incalculáveis. Era preciso um político outsider para dizer o óbvio interdito: muitas das lideranças indígenas do agrado da casta acadêmica e dos meios de comunicação do Mundo inteiro servem ao Globalismo, daí a promoção que recebem da casta acadêmica e dos meios de comunicação de massa do Mundo inteiro. Simples assim. Óbvio assim.

Foi necessário que o Mundo fosse apresentado ao “Foro de São Paulo”, embora eu, repito, duvide da eficácia da adjetivação. Enumeração ligeira dos feitos do Foro serviriam mais ao propósito de apresentar ao Mundo o Poder que países da America Latina tiveram que suportar e de onde vem muito da Oposição que governos que sucedem aos governos filiados ao Foro enfrentam.

Lembrar, quando não mostrar, o apoio que partidos do esquema de Poder do PT e associados continuam a dar ao Governo Maduro serviria mais que declamar, uma vez mais, sobre “socialismo” e “governos socialistas”. Gritar esta denúncia sempre que a oportunidade se apresentar é obrigação.

Bolsonaro fez as coisas ao seu modo e não ao modo de qualquer crítico, e sobre o que ele falou e da maneira que ele falou que os textos sobre este dia memorável devem tratar. Como as coisas deveriam ter sido feitas ….ora…deixemos aos que produzem textos pseudo. Eles ocupam-se disto apenas, não? Da leitura do teleprompter e da dicção de Bolsonaro. Da alegada “falta de elegância” (sim,há “árbitros de estilo” escrevendo sobre Política) ao falar pausado “de quem está lendo,he he!” de um convalescente de uma cirurgia que buscou reparar os frutos de um atentado.

Atentado este mencionado pelo orador. Bom…eu mencionaria as piadas de internet e mesmo artigos que lamentaram que Bolsonaro não tivesse morrido ali mesmo na Rua Halfeld. Os apelidos como “Bolsa de Bosta” tolerados em sites e blogs, as piadas com seus familiares, as caricaturas e memes latrinários; a sordidez deste momento não pode ser relativizada e dirigida ao depósito de lixo “das coisas que não valem a pena ser lembradas”. Não! Fosse com algum candidato do agrado da casta acadêmica, e portanto dos meios de comunicação, todo esta enxurrada das galerias subterrâneas seria pauta perpétua. Não se poderia esquecer. Eles, estes operários da Esquerda de matriz acadêmica, estão no Poder porque compreendem que a História é simbólica, dramática.

Quando se chegará a esta consciência entre os que desejam combater este complexo de forças?

Jair Bolsonaro rompeu o tom servil dos que temem desagradar aos “ricos e famosos” da passarela política mundial. Tem, e sabe que tem, contra si: a Academia (casta acadêmica), a Imprensa e os Políticos que desejam o Poder pelo Poder, ainda que bocados mesquinhos de Poder. Estes, os políticos convencionais, acreditam mesmo que com uma possível queda de Bolsonaro eles terão alguma mínima chance, algum mínimo bocado do que se pode considerar com rigor o Poder.

Jornalistas colonizados (que acusam Bolsonaro de colonizado por ele buscar aliança com o inimigo maior de seus inimigos) apressaram-se em realizar cobertura deste dia histórico que de jornalística teve muito pouco. Não parecem preocupados com credibilidade, seguros que têm contra si alguns amadores que, de fato, confirmam suas críticas sobre mídias alternativas.

Mas as massas que resolveram conferir com os olhos e ouvidos “o vexame”, “o fiasco” viram e ouviram onde está “o vexame” e “o fiasco” desta abertura da Assembleia Geral da ONU por Jair Bolsonaro: na Imprensa e nos formadores de opinião da casta acadêmica. E as próximas gerações saberão a quem cobrar este espetáculo de mentalidade colonial.

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